Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

IMPRENSA EM QUESTãO > IMPRENSA E AGENDA POLÍTICA

A matriz ideológica do jornalismo brasileiro

Por Luciano Martins Costa em 07/08/2007 na edição 445

Vinte anos após o processo de redemocratização do país, e alcançado um período suficientemente longo de relativa estabilidade, a imprensa brasileira substitui a agenda econômica, que era seu tema predileto até a primeira metade do primeiro governo do PT, pela agenda política, que supostamente deve balizar nosso futuro. Nessa agenda se revelam nossas chances de construir uma sociedade aceitável.

Não é necessário um mergulho muito profundo para constatar que, infelizmente, são muito remotas nossas possibilidades de assegurar uma nação coesa, democrática, progressista e sustentável para as próximas gerações. Antes que o leitor comece a questionar as intenções do observador, convém lembrar que estas reflexões seguem aqui porque, para o bem ou para o mal, a sociedade depende em larga margem da imprensa para desenvolver e consolidar os valores com os quais promove sua evolução.

A imprensa brasileira não está cumprindo seu papel de iluminar esse caminho. Ela aderiu, quase na unanimidade, a uma agenda política retrógrada, excludente e limitada. A imprensa brasileira se alinhou automaticamente ao viés conservador que vem se consolidando no planeta há cerca de trinta anos, a partir dos primeiros sinais de colapso dos regimes socialistas de Estado. A imprensa, como agremiação coesa, escolheu o papel de freio social.

As oligarquias e a mídia

Para evitar os contumazes bate-bocas entre observadores contrários ou favoráveis ao atual presidente da República no pé deste artigo, convém pontuar que tampouco o governo petista representa um modelo progressista e inovador. Basicamente, os sucessos do atual governo se baseiam em políticas sociais corajosas, é verdade, mas nada que não esteja previsto nos estudos sobre a geração de riqueza na base da pirâmide. (Veja os trabalhos de Stuart Hart e Coimbatore K. Prahalad, respectivamente professores das universidades norte-americanas de Cornell e Michigan, sobre o assunto, bastante discutido nas empresas transnacionais e, especialmente, nas grandes instituições financeiras.) A rigor, há muito tempo se sabe que o capitalismo só encontra um caminho sustentável de desenvolvimento se incluir os 4 bilhões de seres humanos atualmente à margem dos mercados.

No mais, deve-se levar em conta a origem da maioria dos colaboradores do presidente, ele incluído, quase todos amadurecidos no movimento sindical. E ponderar que o sindicalismo é, por natureza, um ambiente corporativista, sem vocação para a universalidade.

Mas é também um governo que se descola da tradição de mando das oligarquias que sempre determinaram o perfil dos ocupantes do posto mais elevado da República. Pelo voto de cabresto, pelo financiamento de campanhas ou pela manipulação da opinião pública, através dos meios de comunicação, o coronelismo sempre garantira o mando. As oligarquias que dominam a imprensa construíram o mito Carlos Lacerda, fecharam os olhos para a profissionalização da corrupção nas últimas décadas – iniciada na construção de Brasília – e deram o suporte para a aventura dos militares em 1964.

Tese conspiratória

O governo Lula é, de fato, uma novidade nessa história. Mas não é uma novidade revolucionária. É um apêndice do próprio sistema, que o sistema mimou descaradamente e passou a rejeitar quando se deu conta de que não podia controlá-lo. Pode-se conjeturar, sem muita margem para erro, que as oligarquias perceberam o risco que corriam de ver a História desviada para um curso que não desejam quando dois aspectos do governo Lula ficaram evidentes: que a economia se encaminhava para um período de estabilidade e crescimento, com maior percepção de bem-estar para a maioria da população (o que criava as bases para a popularização do PT e consolidação de uma força político-partidária difícil de remover pelo voto); e quando se revelou, à margem dos escândalos de 2005, que o grupo político liderado pelo ex-ministro José Dirceu estava cimentando o caminho para um sucessor muito menos palatável que o próprio Lula.

Exatamente nesse ponto se observa a ruptura. Mas ela já estava predeterminada por outro fenômeno, este de abrangência internacional: a imprensa brasileira se alinha automaticamente, desde a época de sua modernização, nos anos 1960, aos grandes jornais norte-americanos. Todos os anos, os principais executivos de jornais brasileiros comparecem aos encontros da Associação Americana de jornais (NAA – Newspaper Association of America), onde se informam sobre novidades de gestão e debatem temas como o poder de influência sobre a opinião pública, credibilidade, fidelidade dos leitores, estratégias de marketing e liberdade de imprensa. Editores de revistas, emissoras de rádio e televisão se alinham às equivalentes entidades norte-americanas.

Praticamente toda a mídia no continente americano forma um bloco homogêneo em termos ideológicos. E segue um padrão conservador, que se articula há trinta anos em torno dos mesmos protagonistas, das mesmas instituições, das mesmas fontes de financiamento.

Antes que o leitor comece a elaborar idéias de aceitação ou rejeição de uma tese conspiratória, cabe a este observador lembrar que um grupo de colaboradores do postulante à candidatura democrata ao governo dos Estados Unidos, Barack Obama, identificou e contabilizou doações de cerca de 40 fundações a entidades cuja missão é apoiar movimentos conservadores, principalmente nos Estados Unidos e na América Latina.

A maior parte dos recursos é destinada a influenciar a mídia e as universidades, mas também há fortes investimentos em instituições multilaterais e organizações não-governamentais, a maioria delas sem vínculos aparentes com grupos políticos. Muitas dessas organizações assumem o discurso de entidades humanitárias e atuam em temas de larga aceitação pela sociedade. Em muitos casos, assumem a função de dirigir e divulgar ações de responsabilidade social e ambiental de empresas com histórico não muito recomendável.

Agenda predominante

Uma curiosidade: pelo menos uma dessas fundações financia a organização Repórteres sem Fronteiras, criada e dirigida pelo jornalista Robert Ménard, ex-anarquista, ex-trotskista e ex-militante da Liga Comunista Revolucionária. Ménard também recebeu apoio diretamente do controverso magnata François Pinault, que comprou em 1998 a revista Le Point, é acionista da emissora TF1 e dono, entre outros negócios, da rede FNAC de livrarias, das lojas Printemps e do Grupo PPR (Gucci, Couture, Yves Saint-Laurent).

A organização Media Transparency, que estuda as fontes de financiamento da mídia conservadora nos Estados Unidos, afirma que se trata de uma estratégia que vem sendo implementada há três décadas e que se consolida na medida em que a propriedade dos meios de comunicação vem se concentrando em todo o continente.

Mas, diferentemente do que pode imaginar o leitor, essa matriz ideológica que influencia majoritariamente a imprensa latino-americana não tem como objetivo combater as chamadas esquerdas. Os adversários preferenciais do conservadorismo organizado – que consegue abrigar sob seu guarda-chuva instituições católicas tradicionais e empresários dos setores de cassinos e produtos eróticos – são os capitalistas de vanguarda, empresários e instituições de visão progressista que projetam um sistema econômico sustentável e socialmente mais aceitável.

Esse entrevero se dá no território do capitalismo, onde se sabe que os movimentos de fusões e aquisições estão próximos do seu ponto-limite, que o mercado de luxo é um nicho de proporções irrisórias e que a economia global não poderá mais se sustentar nas classes médias. A inclusão de 4 bilhões de novos consumidores é o objetivo desse jogo. O troféu são as cabeças e mentes desses futuros cidadãos, que deverão nos próximos anos adquirir um peso respeitável na sociedade globalizada.

Sob esse prisma, faz todo sentido a agenda política que predomina na imprensa brasileira. A popularidade do presidente Lula nas camadas da população que se percebem beneficiadas por seu governo reduz a influência da mídia sobre esses novos cidadãos. O auto-intitulado quarto poder não quer perder esse jogo.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 19/02/2010 lidyane lima

    gostaria de ouvir ima música de Alcione(mulher ideal)

  2. Comentou em 22/02/2008 Dulce Leão

    Solicito fazerem a mensagem ABAIXO, chegar à Ricardo Boechat, já que a emissora não divulga e-mail para reclamação. Agradeço imansamente.

    Peço desculpas por colocar aquí no seu espaço, uma crítica que não consegui colocar no site da REDE BAND, porque não divulgam e-mail. Acabei colocando no FORUM BANDNEWS, mas acho que deveria ir direto para o BOECHAT. Acho de extrema GROSSEIRIA, no horário nobre do JORNAL DA BAND, onde RICARDO BOECHAT É EDITOR CHEFE, o jornalista FÁBIO PANUZZIO entrar direto de Brasília enpregando VOCABULÁRIO CHULO. Este rapaz ENDOIDOU, ou está ESTAFADO? Foi grosseiria, falta de educação, a utilização de verbete CHULO (palavrão), como classifica o dicionário AURÉLIO. Espero realmente, que o VOCABULÁRIO DO JORNAL DA BAND, NÃO VENHA A TORNAR-SE SIMILAR AO QUE É VISTO NO FAUSTÃO. Para quem vive de audiência, ISTO NÃO FAZ BEM A SAÚDE. Se BOECHAT pretende manter-me como cliente do JORNAL DA BAND, e por amostragem, se eu percebí e reclamo milhares devem ter reclamado também, QUE MANDE O PANUZZIO FAZER CURSO DE BOAS MANEIRAS, E SEGURE SEU DESTEMPERO VERBAL. Peço desculpas, mas abaixo segue o PALAVRÃO DO PANUZZIO, conforme define AURÉLIO. @Esculhambar. [De colhão.] V. t. d. Bras. Chulo. 1. Desmoralizar, avacalhar, esculachar. 2. Criticar ou repreender com violência; descompor, esculachar. 3. Criticar com mordacidade; zombar, escarnecer, ridi¬cularizar, esculachar.

  3. Comentou em 09/08/2007 Marcelo Ramos

    Thiago, vou tentar de novo. O Luciano fez um estudo. Ele não está supondo -ou pressupondo- nenhuma verdade universalmente correta. Também não creio que o Observatório ande em círculos. Dentro do OI há, inclusive, diferenças de opinião entre os observadores, conseqüência natural de qualquer grupo humano. A leitura (baseada em estudo) que o Luciano faz da realidade coincide com a de algumas pessoas que freqüentam este site. Para qualquer pessoa que tenha mais de 35 anos, e tenha um mínimo de conhecimento da história recente do Brasil (não a história contada pela mídia), alguns fatos só encontram explicação procurando atores que estão por trás da cena, não aparecem. Têm sido assim nos últimos, se você não vê, ninguém vai ver por você.Acho até que você imagina que o Luciano recebeu o ‘pagamento’ por esse estudo em dólares que vieram dentro de garrafas de wiski vindas de Cuba. Infelizmente, sua argumentação está baseada apenas em ‘contra/a favor’. Esse é um campo muito limitado de discussão.

  4. Comentou em 08/08/2007 Fernando Teixeira

    Artigo magistral. Luciano, você é indubitavelmente um oásis neste deserto de ignorância e alienação. Sua presença enriqueçe sobremaneira este combalido observatório.

  5. Comentou em 08/08/2007 Sérgio Troncoso

    O afrouxamento das legislações contra cartéis,oligopólios e dumpings é preocupante,assim como a legislação que permite certas operações em bolsas de valores e com papelório governamental que não tem nada de espírito capitalista e sim de rentismo sem risco.Para mim,excluída a idéia central do capitalismo,há várias formas de conduzí-lo.No atual modelo monetarista e ultra liberal o indivíduo deixa de ser um agente multiplicador do mercado,para se tornar um acumulador de papéis que valem moeda,sempre jogando na retranca,e é divulgada tôda uma ideologia para sustentar isso.O resultado,constatável em índices internacionais,é menos dinheiro girando,menos emprêgo e com o acirramento dos conflitos,menos democracia(sim,o capitalismo pode sobreviver em ambientes de baixa democracia),com mais polarização,mais concentração da renda e divisão política.Fica difícil construir uma agenda de consenso.O deus mercado não é uma entidade que paira sôbre nossas cabeças,êle é feito por pessoas,legislado e regulado por pessoas.Enfim,em minha opinião,é preciso voltar ao espírito realmente progressista,onde o indivíduo movimentava o progresso social junto com êle(interessante que haviam estados inimigos visíveis:nazismo,comunismo),o viés atual é equivocado,sobrevive com baixa informação,baixa democracia,baixa sustentabilidade.E com os’toques’acabando não dá prá aprofundar mais,mas já da pau prá xuxu,abs.

  6. Comentou em 08/08/2007 Sérgio Troncoso

    O afrouxamento das legislações contra cartéis,oligopólios e dumpings é preocupante,assim como a legislação que permite certas operações em bolsas de valores e com papelório governamental que não tem nada de espírito capitalista e sim de rentismo sem risco.Para mim,excluída a idéia central do capitalismo,há várias formas de conduzí-lo.No atual modelo monetarista e ultra liberal o indivíduo deixa de ser um agente multiplicador do mercado,para se tornar um acumulador de papéis que valem moeda,sempre jogando na retranca,e é divulgada tôda uma ideologia para sustentar isso.O resultado,constatável em índices internacionais,é menos dinheiro girando,menos emprêgo e com o acirramento dos conflitos,menos democracia(sim,o capitalismo pode sobreviver em ambientes de baixa democracia),com mais polarização,mais concentração da renda e divisão política.Fica difícil construir uma agenda de consenso.O deus mercado não é uma entidade que paira sôbre nossas cabeças,êle é feito por pessoas,legislado e regulado por pessoas.Enfim,em minha opinião,é preciso voltar ao espírito realmente progressista,onde o indivíduo movimentava o progresso social junto com êle(interessante que haviam estados inimigos visíveis:nazismo,comunismo),o viés atual é equivocado,sobrevive com baixa informação,baixa democracia,baixa sustentabilidade.E com os’toques’acabando não dá prá aprofundar mais,mas já da pau prá xuxu,abs.

  7. Comentou em 08/08/2007 Ivan Berger

    Lendo textos como este fico imaginando como seria a imprensa ideal para os tais inconformados com o modelo conservador adotado não só nos EUA,como diz o observador,mas em todos os país ditos do primeiro mundo.Não fosse esta uma evidência mais do que óbvia de a satanizada imprensa conservadora não é tão danosa assim à sociedade,acho que em paises atrasados,como o nosso,uma imprensa à esquerda sim é que seria catastrófica,pois a ordem social seria a primeira a ir para as cucuias.Rotular a mídia e os inconformados com as mazelas do lulismo de conservadores, faz parte de uma retórica malandra e arcaica,que quer vender a idéia da vitimização do governo e justificar seus podres por um suposto viéis golpista da mídia.Mas não se preocupe,pois é bem como o sr. diz,enquanto as camadas da população beneficiadas pelos programas sociais estiveram contentes,a popularidade de Lula estará blindada.Quem sabe não seria o caso de extender o auxílio a classe média,que carrega o país nas costas e é a mais sacrificada ? Fala sério…

  8. Comentou em 07/08/2007 Thiago Conceição

    A cabeça dos comunas é engraçada, eles excluem totalmente a possibilidade de ‘raciocínio’ por parte das pessoas e as tratam como simples bonequinhos que podem ser usados para os seus objetivos. Para o Luciano, todos são incapazes de pensar por conta própria e são apenas peões de uma imprensa toda poderosa. Haha. Sim, eu rejeito a idéia de tese da conspiração, principalmente porque o Lula se beneficiou enormemente dessa mesma imprensa e graças a ela ele está onde está. Foi assim que ele manteve a imagem de ‘pessoa do povo’, mesmo que não seja nem pobre e tampouco torneiro mecânico há décadas. Foi assim que a existência do Foro de São Paulo foi ocultada da população, logo fomos todos enganados. No seu texto você abusa da ideologia, utilizando palavras como ‘progressista’, que na verdade são apenas rótulos que não dizem nada. Você esqueceu de mencionar que a economia mundial passa por um período de estabilidade e por isso o nossa não está em crise, apesar de crescer menos que os outros emergentes. Deveria sim haver críticas quanto a gestão Lula pela performance tão ridícula se comparada com outros países, e não louvor. O governo Lula visivelmente se beneficiou tanto das circunstâncias mundiais quanto do trabalho feito pela gestão anterior, e nas únicas crises que ocorreram e exigiram do governo, como a crise aérea, ficou patente a incompetência generalizada.

  9. Comentou em 27/12/2006 cintia pereira dos santos

    boa tarde ,como posso fazer pra encontrar um trabalho nesta pagina,fico muito grata(o) por tudo até logo…

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