Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

IMPRENSA EM QUESTãO > CRISE FINANCEIRA GLOBAL

A mídia, o mercado e a fraude

Por Luciano Martins Costa em 12/01/2009 na edição 519

Três meses depois da eclosão da crise financeira internacional, o Estado de S.Paulo publicou, no domingo (11/1), o primeiro texto que vai exatamente ao ponto central do tema. Em duas páginas, o artigo traduzido do New York Times traz como título, dividido em dois: ‘O fim do mundo financeiro que conhecemose como consertar um mundo quebrado‘.


A leitura dessa reportagem exige espírito forte. O texto relata como o sistema econômico mundial foi incapaz de evitar o crescimento e a implosão da bolha de fraudes e especulações que conduziram as economias do todo o mundo à beira da catástrofe.


O trabalho, de autoria dos jornalistas Michael Lewis e David Einhorn, revela que um executivo financeiro de Boston, Harry Markopolos, passou nove anos tentando alertar as autoridades da Securities and Exchange Comission, a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos, sobre os riscos da pirâmide financeira construída por Bernard Madoff, ex-presidente da bolsa Nasdaq.


O que se conclui do relato é que as autoridades encarregadas de fiscalizar o mercado e proteger os investidores mantiveram os olhos fechados ou simplesmente passaram a defender os predadores.


Nenhuma atenção


As revelações são assustadoras, no sentido em que fazem a radiografia de um sistema absolutamente caótico, que em algum momento perdeu o sentido e passou a atuar contra os interesses de longo prazo do próprio mercado.


Os altos proventos pagos aos executivos dos bancos e corretoras passaram a ser o objetivo perseguido por todo o sistema, em detrimento da economia real. O que se deve perguntar, neste posto de observação, é: qual foi a contribuição da imprensa para que o processo de degeneração do sistema chegasse ao ponto de ruptura?


Não é preciso um grande esforço de pesquisa para constatar que a imprensa passou a última década registrando recordes e recordes de lucros e incensando os deuses do mercado, fugindo do debate sobre a necessidade de controles externos sobre os fluxos de capital.


Visto de hoje, o sistema parece tão frágil que surpreende o fato de ninguém ter dado importância aos estudos de Harry Markopolos. Seu relatório de 2005, citado na reportagem do New York Times reproduzida pelo Estadão, revela que o sistema foi tomado pelos especuladores.


Aquilo que a imprensa chama de mercado financeiro é uma imensa fraude.

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