Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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IMPRENSA EM QUESTãO >

A mídia, o seqüestro e a culpa

Por Nelson Hoineff em 01/02/2005 na edição 314

É espantoso que nenhum dos pedidos pela vida do engenheiro João José Vasconcellos Jr, seqüestrado no Iraque, tenha tido o tom de exigência. Muito mais espantoso, no entanto, é a rapidez com que se cristalizou como um dogma o conceito de seqüestro justificado.

Seja no manifesto das comunidades árabes em Foz do Iguaçu, seja no apelo do atacante Ronaldo, do Real Madrid, ou nas considerações do chanceler Celso Amorim, o que parece estar em questão é a escala em que o seqüestro do engenheiro brasileiro torna-se um fato justificável.

Trata-se, é claro, de uma questão delicada, em que o tom da indignação deve ser bem medido, mas o simples aceno para a existência de condições em que um ato dessa natureza poderia ser aceitável abre um enorme precedente para a cumplicidade com um ideário terrorista.

A notícia estampada na quarta-feira (26/1) em vários jornais brasileiros é lapidar:

‘Um editor do Asharq al-Awsat, o maior jornal árabe, disse que uma mensagem de estrelas do futebol brasileiro, como Pelé, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho, seria mais eficaz que os esforços do Itamaraty para sensibilizar os seqüestradores. Segundo o editor, que pediu anonimato, a maioria dos militantes é jovem e fã do futebol brasileiro.’

Pelo raciocínio do editor do Asharq al-Awsat, quem é jovem e gosta de bom futebol não pode ser ruim de todo. Se ele decide seqüestrar alguém, é provavelmente porque o seqüestrado tem alguma culpa no cartório. Mais ou menos o que o Opus Dei pensaria sobre as pessoas que contraem o vírus da Aids.

Conclui-se, seguindo a lógica hegemônica, pela inelegibilidade de Vasconcellos para ser seqüestrado, por duas razões essenciais: em primeiro lugar porque o Brasil se opôs à guerra contra o Iraque; depois, porque esse é o país que legou ao mundo moderno Ronaldo, Ronaldinho e Romário.

Militantes ‘humanistas’

Ronaldo ‘Fenômeno’ gravou a mensagem veiculada pelo Jornal Nacional em 26/1, após um pedido que, segundo a Folha de S.Paulo, partiu do presidente da República.

O Palácio do Planalto negou que o presidente tivesse feito o pedido, mas as informações foram mantidas pelo jornal. A Folha afirmou ainda que ao fazer idêntico pedido a Pelé (que se negou a aceitá-lo), o presidente garantiu que ‘a idéia do Planalto seria ‘sensibilizar’ os seqüestradores de Vasconcellos Jr. para o fato de que o Brasil foi contrário à guerra anglo-americana contra o Iraque’.

O argumento foi muitas vezes repetido, a última vez no domingo (30/1), num legítimo esforço empreendido pela Sociedade Beneficente Muçulmana (que representa a comunidade islâmica no estado do Rio), cuja mensagem, segundo O Globo (segunda, 31/1) ‘lembra que o governo brasileiro foi contrário à invasão do Iraque’.

Se é por isso que o seqüestro não se justifica, então somos levados a concluir que se Vasconcellos tivesse nascido em algum dos países que não apenas apoiaram a guerra de Bush, como também não são lá muito bons de bola, aí, sim, o al-Mujahidin estaria no seu direito pleno.

Toda a questão se resume, então, em convencer os seqüestradores fundamentalistas que eles simplesmente se enganaram de homem, como na trama de Intriga internacional (‘North by northwest’), de Alfred Hitchcock. Dessa forma, a tentativa de ajudar a salvar a vida do brasileiro acaba servindo para legitimar a ação de seus captores.

Aconteça o que acontecer com o engenheiro de Juiz de Fora, se existem condições que justifiquem esse ato, então os militantes do al-Mujahidin deverão ficar na lembrança dos brasileiros como humanistas a quem devemos respeito – e, caso reconheçam que o Brasil não foi à guerra, agradecimento.

Negociações subjetivas

A opinião pública se forma pelo filtro da mídia. E filtrado dessa maneira, o pragmatismo diplomático transforma-se em preceito ético. Quando a mídia passa a ser subserviente a políticos, empresários ou jogadores de futebol, já sabemos que o leitor está correndo sério perigo. Quando torna-se subserviente a grupos que têm por hábito cortar a cabeça de funcionários civis, o leitor está perdido.

Aos olhos da sociedade brasileira que lê jornal ou vê televisão, o que está em jogo no caso do brasileiro que caiu em poder dos a) insurgentes; b) rebeldes; c) extremistas; d) terroristas [ver ‘A imprensa não dá nome aos bois’, de Alberto Dines, remissão abaixo] é a forma de identificar se o engenheiro da Construtora Norberto Odebrecht faz parte do grupo de trabalhadores civis que merece ser mantido em cativeiro e eventualmente ser decapitado, ou se a sua culpa se faz merecedora de um castigo menor.

Não se cogita da hipótese de que os a) insurgentes; b) rebeldes; c) extremistas; d) terroristas não estejam exatamente em seu direito ao sair pelas ruas determinando quem vai viver ou quem vai ter sua cabeça arrancada.

Sonegou-se à sociedade brasileira a informação de que os esforços para a libertação de um brasileiro inocente – como milhares de outros inocentes que têm sido seqüestrados e às vezes sacrificados naquele território – não se dão através de um diálogo horizontal entre representantes de nações em conflito, mas por meio de negociações altamente subjetivas entre governos, empresas, famílias, líderes comunitários, religiosos e bandidos particularmente cruéis. Nesse contexto, a busca de qualquer tipo de objetivo político, de preparo humanístico ou intelectual por parte dos agressores não passa de um típico exercício de vitimologia.

Sofrimento randômico

Levou menos de 60 anos para que um príncipe inglês envergasse uma suástica e apenas um par de anos para que Osama bin Laden fosse consagrado como um grande líder político e a al-Qaeda, como vanguarda (‘Al-Qaeda é a vanguarda, diz T.J.Clark’, ‘Ilustrada’, Folha de S.Paulo, 31/1).

Ao estampar a fantasia do príncipe sob a estética dos tablóides sensacionalistas, The Sun acaba prestando à coletividade um serviço que a mídia aparentemente mais contida (mas nem por isso mais ética) tem se tornado incapaz de fazer.

Nelson Rodrigues gostava de reclamar da frieza da mídia, insistindo que o copidesque do Jornal do Brasil (daquela época) poderia ver uma bomba atômica caindo por sua janela mas seria incapaz de apor ao fato um mero ponto de exclamação.

Petardos de impacto muito maior do que a bomba de Hiroshima têm sido plantados todos os dias sem que a mídia se assombre; pelo contrário, se esmera levianamente em encontrar justificativas para tudo. Vítimas e culpados trocam de posições com a mesma facilidade com que se trocam de lugar frases escritas num computador.

Mas não há justificativa para o seqüestro do engenheiro da Odebrecht. E isso acontece porque ele é um ser humano atacado por terroristas que randomicamente impõem sofrimento às suas vítimas. O seqüestro não deixa de se justificar simplesmente porque a vítima nasceu no país do futebol, nem porque o Brasil não apoiou a guerra contra o Iraque e muito menos porque Vasconcellos é mineiro como Daniella Cicarelli (como lembrou Ronaldo no seu pedido de clemência). Porque, se forem esses os atributos que tornam um ser humano imune à barbárie, então é matematicamente correto dizer que todos os demais merecem a sorte que for decidida pelo al-Mujahidin.

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