Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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IMPRENSA EM QUESTãO >

A mordida do ministro e a assoprada do presidente

Por Luiz Weis em 13/04/2004 na edição 272

Atire a primeira pedra no titular da Secretaria de Comunicação do Planalto, Luiz Gushiken, o governante de país democrático que nunca se queixou de que a imprensa não mostra ou mostra muito menos do que deveria o que ele faz para o bem do povo e felicidade geral da nação – ‘o lado positivo das coisas’, nas palavras do ministro.

A diferença é que ele disse em público o que os seus semelhantes quase sempre têm a prudência de dizer apenas em privado. Todas, mas rigorosamente todas as excelências com quem este leitor já teve ocasião de conversar informalmente, antes e depois da ditadura, reclamavam, algumas com monótona insistência, de que a mídia não lhes faz justiça.

Não chegavam a ponto de pregar a ‘liberdade com responsabilidade’ dos milicos e paisanos do regime de 64, mas, no fundo, no fundo, o sentimento era o mesmo – imprensa boa é a que não balança o coreto do poder.

Outra não há de ser a experiência de qualquer jornalista que tenha o duvidoso privilégio de escutar dos poderosos da vez aquilo que aceitou de antemão não divulgar. Perto do que eles dizem ‘em off‘ de jornais, revistas e jornalistas, este Observatório é um monumento de condescendência com a mídia.

Por isso, considerando a função e o tempo de janela de Gushiken, custa crer que ele tenha falado duas vezes antes de pensar, no sermão que proferiu diante de uma delegação de sindicalistas, que foram a palácio pela passagem do Dia da Imprensa, na quarta-feira, 7.

Egos inflados

O ministro, a bem da verdade, não foi chucro nem rombudo. Acondicionou as suas críticas em elegante embalagem sociológica. Usou expressões como ‘na etapa histórica da comunicação de massa’ e ‘no estágio brasileiro’.

Isso para dizer, primeiro, que ‘a imprensa opera com o raciocínio de explorar o contraditório’ e, segundo, que ‘a sociedade está ávida por boas notícias’. Nada a opor.

Nada a opor também – no rarefeito plano conceitual – ao que Gushiken apontou como efeito, ‘muitas vezes’, da propensão de explorar o contraditório: ‘fomentar discórdias e conflitos de egos’.

Mas ao descer para o chão da realidade, o ministro capotou. Tais discórdias e conflitos, argumentou, ‘são apenas [grifo acrescentado] disputas de idéias, o que é normal num processo de debate’.

Se não fosse falta de educação – aquela mesma de que outro ministro petista, José Dirceu, andou acusando jornalistas que o assediavam –, seria o caso de responder: ‘Sem essa. Não vem que não tem’.

Se há um lugar onde disputas de idéias estão imersas até a raiz dos cabelos em conflitos de egos, é o governo, qualquer governo – a ponto de não se saber onde começa uma coisa e onde termina a outra.

O poder não apenas corrompe, como se sabe. Mais frequentemente ainda, envaidece. É da condição humana. ‘O poder é afrodisíaco’, disse, numa frase famosa, o conselheiro de Segurança Nacional (dos anos Nixon), Henry Kissinger – ele próprio um poço de vaidade, com perdão pelo clichê.

E quando o poder é exercido em nome de uma ideologia, é nela que se refugiam, para não serem identificados como tais, os egos inflados por esse exercício. Os poderosos da fisiologia nem esse anteparo têm.



A importância da egopolítica

Visto que as causas geram conseqüências, como dizia o Conselheiro Acácio, a imprensa faz a coisa certa quando infunde carne e osso nos tais debates.

Em outras palavras, considerando que o seu desenrolar e o seu desfecho dependem, quase sempre em maior do que em menor grau, da egopolítica, é dever da mídia com o público levar a seu conhecimento essa dimensão das decisões de governo.

Mais. Convenha o que convém ao ministro Gushiken criticar, é melhor a mídia errar por excesso do que por falta de atenção aos aspectos ‘pessoais’ dos debates palacianos.

Não só como expressões de personalidades, o que o eleitor tem o direito de conhecer, em se tratando de quem se trata, mas também porque, ainda mais em política, nenhum homem é uma ilha: os interesses, sejam quais forem, se coagulam inevitavelmente em indivíduos, não em torno de princípios abstratos. E disso dependem as aspirações dos políticos à liderança entre os seus e ao voto popular.

‘Há razões de sobra – muitas delas infelizmente nada nobres – para que políticos ligados ou não ou ao governo entrem em conflito e queiram impor suas vaidades’, opinou a Folha de S.Paulo em editorial. ‘Não é preciso nenhum impulso da imprensa para que isso ocorra.’

Agora, Gushiken está coberto de razão ao dizer que ‘a sociedade está ávida por boas notícias’. No entanto, custa a crer, repita-se, que não lhe tenha ocorrido a gritante obviedade de que essa avidez resulta da escassez do produto e que é o governo que deve supri-lo – quanto mais não seja porque Lula foi eleito por suas promessas de fazê-lo (10 milhões de empregos e salário mínimo dobrado em quatro anos).

Se não, logicamente, de duas, uma. Ou o ministro acha que a mídia está sonegando dos brasileiros as boas notícias que o governo tem a dar, ou acha que a mídia deve fabricar as boas notícias que o governo não proporciona, porque as sociedade está ávida por elas.

É claro que o ministro não acha nem uma coisa nem outra. Então, perdeu uma ocasião de não dar a cara para bater. Duas ocasiões, aliás.

Notícias boas

Horas depois dos seus comentários – que por sinal fizeram Lula se apressar a assoprar onde o seu mais íntimo colaborador tinha mordido –, a Secretaria de Comunicação saiu-se com uma espécie de nota explicativa.

Ela não muda o diagnóstico de que a mídia ‘tem dificuldade de ressaltar o positivo’ – em si uma generalização perigosa – mas ressalva que os próprios meios de comunicação, por suas pesquisas, sabem da existência de ‘um certo desgaste emocional, um cansaço do leitor, ouvinte, telespectador, com uma carga intensa de informaçõdes negativas’.

E daí? Qual o sentido de lembrar à mídia o que ela já conhece? Estará o governo aconselhando jornais, rádios e estações de TV a aliviar a carga de ‘informações negativas’?

O presidente Lula prega uma relação ‘leal’ entre governo e mídia. O governo não pede para a mídia falar bem dele, e a mídia dele não falará mal por falar. Perfeito.

Então ficamos assim: o governo que trate de ter notícias boas a dar – e da imprensa não terá o que reclamar. [Finalizado às 15h20 de 11/4/04]

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