Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

ENTRE ASPAS > SOB ATAQUE

A notícia órfã

Por Luís Nassif em 09/08/2007 na edição 445

Ali Kamel publicou uma coluna na página de Opinião do Globo (7/8), ‘A grande imprensa’.


Sobre a cobertura do acidente da TAM, Kamel se defende: ‘A grande imprensa se portou como devia. Como não é pitonisa, como não é adivinha, desde o primeiro instante foi, honestamente, testando hipóteses, montando um quebra-cabeça que está longe do fim’.


‘Testando hipóteses’ é outro nome para falta de discernimento. Em qualquer cobertura competente, enquanto o quadro não está claro montam-se cenários de investigação, análise de probabilidade, linhas de investigação. Evitam-se afirmações peremptórias, e apela-se para a criatividade para produzir manchetes de impacto sem recorrer conclusões taxativas.


De cara, se poderiam alinhavar várias possibilidades para o acidente da TAM, que seriam o ponto de partida. Toda a cobertura seguiria esse roteiro, procurando checar a probabilidade de ocorrência de cada possibilidade ou delas combinadas. A partir daí, o Sr. Fato se incumbiria de descartar algumas hipóteses e reforçar outras.


O ‘testando hipóteses’ do Kamel consistia em bancar aposta total na Hipótese A. Dias depois, esquecer a Hipótese A e bancar toda a aposta na Hipótese B. Depois, na Hipótese C, até acertar. Mas não houve acerto. A resposta final – a degravação dos diálogos na cabine – eliminou todas as hipóteses anteriores.


Acusações generalizantes


E aí se entra no modelo de gestão da notícia adotado pelas Organizações Globo. De alguns anos para cá resolveu-se homogeneizar o entendimentos dos jornalistas em relação aos temas de cobertura. Esse papel doutrinário coube a Kamel.


Não sei qual é a experiência de Kamel no front da reportagem. Mas foram dois os resultados. Primeiro, acabou-se com a diversidade de enfoques, marca de jornalismo plural. Segundo, perdeu-se o sentimento da rua, o sentido da reportagem. Os repórteres passaram a subordinar a cobertura aos desígnios do ‘aquário’. Houve um divórcio dos pais – o ‘pai’ ‘aquário’ e a mãe reportagem – e o resultado deixou a notícia órfã.


Nem vale a pena comentar as acusações generalizantes e conspiratórias de Kamel, na seqüência do artigo, contra os críticos da cobertura. Ele não está escrevendo para os leitores. Apenas se justificando para os donos da empresa.

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Jornalista

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  1. Comentou em 09/08/2007 Ivan Berger

    Os argumentos objetivos que o sr. me cobra são tão simples que por isso mesmo talvez não os perceba,tipo aquela brincadeira,se fosse uma cobra…Não sou defensor incondicional da mídia,de cujas motivações e interesses sempre é bom desconfiar,questionar,mas nem por isso acho certo que se procure sistematicamente desacreditá-la,pondo em dúvida tudo o que é divulgado sobre o governo,como pretendem agitadores como Caroni et caterva. Com todos os exageros que a imprensa possa ter cometido,e ainda cometa,contra o governo petista,contra Lula,já que ambos são indissociáveis mesmo o presidente fugindo da sigla como o diabo da cruz,acho que ainda é melhor pecar por excesso do que por falta.Muito dessa conversa é mania de perseguição,complexo de culpa,sei lá,pois Lula não está sendo mais criticado ou perseguido do que foram outros presidentes.O governo é uma vitrine,está exposto a bisbilhotagem geral,e se agora parece haver ênfase maior nas críticas talvez se deva muito mais a agilidade dos meios de comunicação,as ações investigativas,enfim, a própria eficiência da PF
    Lula está colhendo o que plantou,não se pode culpar a imprensa,por preconceito ou ignorância, se a colheita vem repleta de pepinos,nabos e outras rebordosas. Nassif é ótimo quando trata de economia,mas perdeu o rumo de casa ao se envolver com a política,ao aderir ao lulismo por conveniência.Ali pelo menos é mais coerente

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