Sexta-feira, 16 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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IMPRENSA EM QUESTãO >

A pauta da dor

Por Alberto Dines em 08/01/2010 na edição 571

A mídia, especialmente a eletrônica, não gosta de vestir luto. Prefere a euforia, a badalação despreocupada. Coisas tristes não ‘vendem’, sofrimento não é bom produto. Tragédias, só as anônimas e as que logo podem ser esquecidas, substituídas por outras.


Neste inicio de 2010, porém, nossa mídia começou a encarar a dor e a conviver com ela. Os dez primeiros minutos dos telejornais noturnos da quinta-feira (7/1) foram ocupados com o rescaldo das tragédias produzidas pela chuva no Rio, São Paulo e Rio Grande do Sul. Isso vem ocorrendo ininterruptamente há oito dias, em seguida às festas de fim de ano, em pleno verão, quando toda a mídia, inclusive a impressa, preparava-se para mergulhar de cabeça na temporada das mundanidades.


Não há como escapar: previsão do tempo tornou-se prenúncio de susto, meteorologia associou-se à sensação de insegurança. E assim será por algum tempo, mesmo que o ‘El Niño’ 2009-2010 seja mais breve e menos intenso – o que não parece provável.


Lama e filas


Não adianta apelar para as lágrimas das vítimas, dos sobreviventes ou para a emoção das audiências. O telespectador de repente tornou-se mais solidário e mais exigente: quer providências, quer saber o que está sendo feito na sua rua, bairro, cidade, estado. O leitor, o ouvinte, o internauta quer saber onde estão naquela hora os prefeitos, os governadores e os ministros. O cidadão quer vê-los tomando providências à luz do dia e não nas entrevistas coletivas montadas por especialistas como se fossem shows.


Informações são processadas nas redações, mas são colhidas na rua e para que os jornalistas possam ir ao encontro de tantas tragédias simultâneas é preciso de mais recursos e, sobretudo, mais gente, mais bem treinada.


É ofensivo perguntar àqueles que tudo perderam como é que estão se sentindo. Estão arrasados, é óbvio. O que deve ser mostrado é a dolorosa verdade: montes de eletrodomésticos cobertos de lama e filas de compradores de eletrodomésticos nas megaliquidações de janeiro.

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