Sábado, 20 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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A pauta de 2009

Por Lilia Diniz em 17/12/2008 na edição 516

O Observatório da Imprensa exibido na terça-feira (16/12) pela TV Brasil e pela TV Cultura discutiu os assuntos que estarão em pauta em 2009. O último programa do ano, que excepcionalmente foi gravado, teve um formato diferente. Dividiram a bancada do Rio de Janeiro com o jornalista Alberto Dines o cientista social Renato Lessa, o jornalista Claudio Bojunga e o economista Sérgio Besserman Vianna. Em um exercício informal de futurologia, os participantes tentaram prever o que será notícia no próximo ano na área econômica, na política nacional e no âmbito internacional.




Renato Lessa, cientista social, é doutor em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), professor titular de Filosofia Política do Iuperj e da Universidade Federal Fluminense (UFF), e diretor-presidente do Instituto Ciência Hoje.


Claudio Bojunga, jornalista, é formado em Direito e estudou Política Internacional no Instituto de Estudos Políticos de Paris; foi repórter, redator, crítico e correspondente internacional, é professor da PUC-Rio e escritor.


Sérgio Besserman Vianna é economista, presidente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos e professor de Economia da PUC-Rio. Foi presidente do IBGE e diretor de Planejamento do BNDES, escreveu diversos artigos sobre temas relacionados à economia, história e meio-ambiente.


Antes do debate no estúdio, em editorial Dines afirmou que as dificuldades enfrentadas pelo Brasil e pelo mundo são visíveis na passagem de 2008 para 2009. ‘A pauta do próximo ano é exatamente a mesma de hoje, com uma grande diferença: em 20 de janeiro os Estados Unidos terão um novo presidente, Barack Obama, e as suas opções poderão afetar drasticamente os acontecimentos. Mesmo que mude pouco. O resto fica por conta da força das expectativas’, previu. Dines comentou que a posse do próximo presidente dos Estados Unidos está cercada por muita esperança, mesmo com a consciência de que as soluções não aparecerão rapidamente.


‘A mudança no calendário afetará as periodizações, a forma de organizar a história, afetará as estatísticas, os índices e os balanços. Mas continua a crise econômica mundial, continuam as guerras, sobretudo as guerras religiosas, continua o desgaste do meio-ambiente, continua a fome, a injustiça e a corrupção. E continua também o emaranhado político que culminará na sucessão presidencial em 2010’, avaliou [ver abaixo a íntegra do editorial].


O mundo através da bola de cristal


Dines comentou com os participantes do debate que a futurologia já foi considerada uma ciência exata, mas que previsões tidas como certas, com as do físico e estrategista americano Herman Kahn (1922-1983), falharam. Hoje, os números dão o tom do profetismo. Renato Lessa disse que ‘as profecias mais seguras são aquelas que nós fazemos para trás, que buscam a razão introspectiva das coisas que aconteceram’. A previsão é uma característica do ser humano, mas é uma atividade falível, condenada à refutação pelos fatos. Tentar elaborar projeções e cenários é a condição para que possamos enfrentar o dia seguinte. ‘Na tentativa de adivinhar o futuro, projetamos uma ficção de que o passado, através do presente, se projetará no futuro, associado às expectativas e desejos que nós temos em relação àquilo que venha a acontecer’, disse o cientista social.


Apesar de considerar que a tentativa de ‘olhar para frente’ é uma condição humana, Dines avaliou que os economistas exageram ao acreditar que a conjunção dos números é infalível. Sérgio Besserman comentou que quando o mundo está ‘normal’ e o passado dá boas indicações sobre o que vai acontecer, os economistas ‘até acertam um pouco mais’. Mas quando o tempo histórico se acelera brutalmente, como em 2008, os economistas têm que ceder ao fato de que sem análise histórica, visão política e uma leitura ‘maior do que a das variáveis do mercado’, não farão projeções aceitáveis.


A situação no Brasil, historicamente, é ainda mais imprevisível. Besserman lembrou que o seu irmão, o humorista Bussunda, falecido em 2006, dizia que os economistas brasileiros são todos carecas porque ‘todo santo dia dizem `ai, meu Deus, errei de novo´’ – e passam a mão pela cabeça para lamentar. Besserman comentou que o ex-ministro da Fazenda Pedro Malan considera que no Brasil, para os economistas, até o passado é incerto.


‘Adivinhar o futuro no sentido de projetar tendências é fácil, o difícil é descobrir os pontos de ruptura, onde o sistema vai estourar’, observou Claudio Bojunga. Para o jornalista, foi isso que ocorreu em 2008: ‘O mundo seria um e, de repente, passou a ser outro inteiramente diferente’. Se em 1989 a queda do Muro de Berlim representou o fim do socialismo real, em 2008 o ‘muro de Wall Street’ representou o fim do capitalismo irreal, fantasioso e delirante.


O fenômeno Obama em 2009


Há uma expectativa inédita, na opinião de Dines, em relação ao governo de Barack Obama. Renato Lessa avaliou que, independentemente do que vá acontecer ao longo do mandato de Obama no cenário americano e internacional, a própria eleição do primeiro presidente negro dos Estados Unidos já é, em si, um avanço. Lessa concordou que a expectativa em torno da posse é imensa, e que, dada a posição do país no contexto internacional, provocará a reconfiguração de uma série de relações. Pontos em que a política externa norte americana, que há quase dez anos vem mostrando ‘uma posição muito dura’, serão revistos, segundo ele. Haverá forte impacto em relação ao Oriente Médio, principalmente em países como Israel, Síria e Irã. Lessa afirmou que será difícil Barack Obama preencher todas as expectativas em um ou dois mandatos, mas que certamente terá uma atitude inovadora e um novo posicionamento diante de questões internacionais.


É extraordinária, na opinião de Claudio Bojunga, a discussão do plano de mudança da matriz energética dos Estados Unidos. Bojunga acredita que Obama quer livrar-se ‘da excessiva dependência em relação ao Oriente Médio’ na questão do fornecimento de energia. A proposta não surtirá efeitos no curto prazo, mas, vinda do futuro presidente americano, tem um grande peso. Para o jornalista, o político democrata é um sintoma da mudança no paradigma da identidade americana, que deixa de ter característica identitária racial e passa a estar ligada à miscigenação e ao multiculturalismo.


Dines avaliou que a eleição de Obama e a crise financeira trazem de volta momentos como a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929, e a recuperação arquitetada pelo ex-presidente americano Franklin Delano Roosevelt. O político democrata governou os Estados Unidos entre 1934 e 1945 e foi o autor do New Deal, o conjunto de medidas econômicas que acionou setores da economia paralisados pela crise e recuperou país. Sérgio Besserman concorda que há semelhanças, mas ponderou que a história não se repete. Para Besserman, a crise atual não tem semelhança com outras e não pode ser chamada de ‘crise da bolha imobiliária’. A ‘bolha imobiliária’ é apenas o pavio. O economista destacou que o investidor George Soros afirma que o que detonou o pavio foi a ‘superbolha’ dos últimos 20 anos.


Nas últimas duas décadas, os americanos consumiram, por ano, cerca de 7% a mais do que os fundamentos da economia daquele país permitiam. Isso ocasionou endividamento interno e externo. Besserman explicou que, há décadas, o mundo se reequilibra a cada crise sem resolver os problemas por completo. ‘A crise vem para obrigar os ajustes’, ressaltou. Nos últimos 20 anos, ao invés de ‘frear’, a economia mundial ‘pedala mais rápido’. Para o economista, esta não é uma crise que possa ser pensada nos últimos dois ou três anos, mas sim nas últimas duas décadas. Barack Obama irá dedicar os primeiros anos de governo a acertar a nova posição política dos Estados Unidos no mundo, mas também a enfrentar a crise com políticas inovadoras.


A integração européia como exemplo


Os debatedores comentaram que a partir de guerras e crises podem ocorrer grandes resoluções e a aproximação entre países rivais. Dines relembrou que após o término da Segunda Guerra Mundial, o Tratado de Paris criou a Comunidade Européia do Carvão e do Aço (1951), embrião da atual União Européia. O objetivo era integrar a França e a Alemanha, que desencadearam as grandes guerras, e evitar uma nova guerra mundial. Bojunga observou que a Segunda Guerra Mundial foi traumática, com alto número de morte de civis, e que a insensatez do período levou a Europa a repensar posições. A criação da comunidade foi o primeiro passo para a concórdia e criou a base para uma Europa nova.


‘Da destruição sai, às vezes, uma resolução e o mundo está vivendo um momento desses’, observou Bojunga. Sérgio Besserman concordou, mas ponderou que o mundo atual precisa de uma governança global em vários aspectos, como nas questões econômicas e ambientais. Por outro lado, o economista considera que há o risco de fragmentação e protecionismo após a crise. ‘A tentação de resolver seus problemas fechando as fronteiras, do ponto de vista econômico, será muito grande’, avaliou.


O espírito pós-nacional que contagiou a Europa depois de 1945 não deve se repetir na América Latina. Para Renato Lessa, é desejável que a cooperação aconteça, mas a trajetória dos continentes é diferente. O processo de integração da América Latina é errático e não começou com a premência do desastre. A Europa, pela força dos acontecimentos, foi obrigada a repensar as relações internas no continente. As iniciativas hoje existentes resumem-se à área econômica, como o Mercosul, e ainda são tímidas. O papel do Brasil para a integração interamericana é fundamental.


A corrida pela sucessão presidencial


Sérgio Besserman acredita que a crise no Brasil será grave, mas menos intensa que em outros países. As características internas da crise e o fato de o Brasil ter reservas propiciam o quadro. Mesmo sendo mais leve, a crise será suficiente para mudar o cenário das próximas eleições presidenciais. ‘Os dirigentes políticos e os partidos deverão reconciliar as estratégias e movimentos para 2010 à luz de um cenário que só vai ficar claro no desenrolar de 2009, mas que bagunça muito o contexto atual’, disse.


Renato Lessa concordou e acrescentou que a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderá ser afetada. ‘Grande parte da popularidade do presidente Lula tem a ver com a sua performance como grande animador da República. É muito ligada à idéia de que nós vivemos aqui em uma espécie de rochedo, de fortaleza, e estamos protegidos de experiências que vão atacar países que não se prepararam tão bem’, disse.


Em 2009, na opinião de Renato Lessa, irá se manifestar o papel estrutural que o PMDB tem na política brasileira. Haverá uma espécie de caça ao partido, que será ‘a noiva mais cobiçada’. Sobre as críticas a respeito da falta de ideologia do partido, Sérgio Besserman disse que ‘o PMDB não quer noivar, é ficante’, usando uma gíria que significa falta de compromisso de longo prazo. Lessa comentou a extraordinária capacidade de penetração do partido: ‘Do Amapá ao município do Chuí tem um diretório do PMDB e vereadores eleitos’, observou.


Os participantes também discutiram os rumos da mídia em 2009. Dines perguntou se a imprensa não deveria ser mais plural e democrática. Renato Lessa concordou que a diversificação é desejável. Como leitor assíduo de jornais impressos, ele gostaria de uma cobertura mais reflexiva e que apresentasse um confronto de idéias.


Sérgio Besserman compartilha da opinião de Lessa. ‘Nesses novos tempos, onde o objetivo de vida não é ter um carrão – que emite muitos gases de efeito-estufa – e sim entender o que está acontecendo, vai haver uma demanda por essa reflexividade, por opinião e por diferentes pontos de vista’, disse.


Para Claudio Bojunga, as novas tecnologias de informação podem contribuir para a pluralidade. Mas o jornalista não é otimista em relação aos grandes órgãos de imprensa. A figura do publisher tende a desaparecer. Com os grandes conglomerados de comunicação, o editor identificado com a instituição em que trabalha, e não com a empresa que o controla, está em extinção.


***


Olhar adiante


Alberto Dines # editorial do Observatório da Imprensa na TV nº 491, no ar em 16/12/2008


Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.


O que acontecerá amanhã geralmente não chega a preocupar. Vamos dormir com a sensação de que amanhã será igual a hoje, salvo os imprevistos. Mas quando se trata de indagar como será o próximo ano, cria-se um enigma solene.


Os dias se sucedem, também os anos se sucedem e este encadeamento fica mais nítido nesta passagem de 2008 para 2009. Os grandes problemas do Brasil e do mundo não estão escondidos. A bola de cristal não precisa ser acionada. Tudo o que nos preocupa está visível, na mesa, à vista.


A pauta do próximo ano é exatamente a mesma de hoje, com uma grande diferença: em 20 de janeiro os Estados Unidos terão um novo presidente, Barack Obama, e as suas opções poderão afetar drasticamente os acontecimentos. Mesmo que mude pouco. O resto fica por conta da força das expectativas.


Passou o chamado ‘século americano’, mas nunca tivemos uma posse na Casa Branca cercada por tanta esperança, mesmo sabendo que não haverá mágicas. Consolo é saber que a humanidade não é suicida, ela se move sempre na direção ditada pelo seu instinto de sobrevivência.


Foi assim há 70 anos, quando começou a Segunda Guerra Mundial, considerada a maior catástrofe dos últimos 500 anos, e assim será agora. Criaturas e nações cometem muitos desatinos, mas na beira do abismo recuam e escolhem viver.


A mudança no calendário, anunciada para ocorrer dentro de duas semanas, afetará as periodizações, a forma de organizar a história, afetará as estatísticas, os índices e os balanços. Mas continua a crise econômica mundial, continuam as guerras, sobretudo as guerras religiosas, continua o desgaste do meio-ambiente, continua a fome, a injustiça e a corrupção. E continua também o emaranhado político que culminará na sucessão presidencial em 2010.


O pior ficou para trás quando escolhemos a democracia como forma de viver.

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