Domingo, 27 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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ENTRE ASPAS > CRISE FINANCEIRA GLOBAL

A queda do muro de Nova York

Por Luciano Martins Costa em 18/09/2008 na edição 503

Os jornais brasileiros dão grande destaque ao movimento conservador dos investidores internacionais, que retiraram ativos das bolsas de valores e, no dizer de um colunista da Folha de S.Paulo, voltam a colocar o dinheiro embaixo do colchão.


O Globo anuncia em manchete que Brasil e Rússia perdem mais com a fuga dos investidores, que buscam lugares mais seguros para seu dinheiro.


Mas nenhum deles descreve o que pôde ser testemunhado por quem estava nas ruas do distrito financeiro da Nova York na segunda-feira, 12 de setembro de 2008.


Para quem andava por Wall Street na segunda-feira, o clima era de fim de mundo, com multidões aglomeradas diante dos painéis eletrônicos da Bolsa de Nova York e das corretoras, e disputando impressos produzidos às pressas e distribuídos de mão em mão.


A impressão que se tem é que os jornais relatam apenas o que aparece nas telas dos sites de análise financeira, e se esquecem de observar o mundo real.


O prêmio Nobel de Economia Josef Stiglitz, entrevistado na edição de quinta-feira (18/9) pelo Estado de S.Paulo, afirma que a queda de Wall Street significa para o fundamentalismo de mercado o que representou a queda do muro de Berlim para as economias socialistas do Leste Europeu, em 9 de novembro de 1989.


Para os distraídos, interessante lembrar que ‘wall street’ quer dizer a ‘rua do muro’.


Mas a imprensa ainda se nega a admitir que a atual crise financeira pode significar muito mais do que uma turbulência passageira.


Estado do mundo


O Globo é o único jornal a destacar na primeira página o significado histórico da estatização, pelo governo americano, da empresa de seguros AIG, questionando se a decisão do Banco Central americano de nacionalizar grandes empresas do setor financeiro não seria a inauguração do socialismo do século 21.


Interessante lembrar que no dia 31 de julho passado, quando o presidente venezuelano Hugo Chávez anunciou a compra do Banco da Venezuela para transformá-lo numa espécie de Caixa Econômica Federal, para financiar projetos sociais, a imprensa procurou desmoralizá-lo, afirmando que ele promovia o retrocesso da Venezuela ao socialismo.


Quando o governo Bush usa dinheiro público para salvar empresas privadas, está agindo em defesa da economia global.


Diversos analistas, não apenas na imprensa brasileira, destacam movimentos que consideram sinais de insanidade do mercado, como o aumento de mais de 9% na cotação do dólar-ouro na Bolsa Mercantil de Nova York.


Mas os elementos de uma análise mais profunda do que acontece com a economia globalizada ainda não permitem ao leitor não especializado e não contaminado por pressupostos ideológicos entender o estado do mundo.


A imprensa pode fazer melhor.


***


O ministro falante


O ministro da Defesa, Nélson Jobim, leva preocupações aos jornais ao defender, na CPI dos grampos telefônicos, o fim do sigilo da fonte na atividade jornalística.


Jobim sugeriu aos deputados que prestem atenção ‘não apenas no interceptador ilícito, mas também no vazador de informações’. Se não fechar as duas pontas, vai continuara acontecendo o que está acontecendo, disse o ministro.


Ao colocar em discussão se o sigilo da fonte deve ser absoluto ou se pode ser relativizado em casos constitucionais, o ministro da Defesa atinge no âmago o que os jornalistas consideram o princípio da liberdade de informação.


É nesse pressuposto que se fundamenta a confiança da sociedade na atividade jornalística, uma vez que, sem a declaração da origem de uma informação, a credibilidade da notícia depende apenas de quem a veicula, o que pode diferenciar um jornalista de um mero fofoqueiro.


Jobim observa que já houve casos em que o STF relativizou direitos constitucionais e insinuou que jornalistas podem usar o preceito da liberdade de expressão para agir com irresponsabilidade.


Claro que o mesmo pode ser dito sobre advogados, economistas, médicos e muitos outros campos profissionais, mas o tema em questão era o vazamento, pela imprensa, de informações obtidas através de grampos ilegais.


Interessante observar que a Associação Nacional de Jornais considerou tão grave a declaração que pediu tempo para refletir sobre a resposta, mas a Federação Nacional dos Jornalistas saiu rapidamente em defesa do princípio constitucional.

Todos os comentários

  1. Comentou em 19/09/2008 Ricardo Pereira

    Meu caro Luciano, permita-me uma observaçao: este tipo de principio de confiabilidade da imprensa foi jogado no lixo por alguns pseudo-profissionais como aqueles que integram o staff da revista Veja. A propagação de mentiras e montagens com objetivos escusos por parte desta criou um buraco na credibilidade da imprensa como um todo, contaminando a visao dos leitores que agora sempre procurarao fontes alternativas para confirmar o fato. Poucas publicaçoes como a Carta Capital tem como principio norteador a fidelidade ao fato. É chegada a hora de separar o joio do trigo e seria muito bom se a propria classe cuidasse disso…

  2. Comentou em 19/09/2008 Ricardo Pereira

    Meu caro Luciano, permita-me uma observaçao: este tipo de principio de confiabilidade da imprensa foi jogado no lixo por alguns pseudo-profissionais como aqueles que integram o staff da revista Veja. A propagação de mentiras e montagens com objetivos escusos por parte desta criou um buraco na credibilidade da imprensa como um todo, contaminando a visao dos leitores que agora sempre procurarao fontes alternativas para confirmar o fato. Poucas publicaçoes como a Carta Capital tem como principio norteador a fidelidade ao fato. É chegada a hora de separar o joio do trigo e seria muito bom se a propria classe cuidasse disso…

  3. Comentou em 19/09/2008 Silvio Amaral

    Pois é, Luciano, é justamente por conceder liberdade às pessoas, inclusive econômica, que o capitalismo, aliado à democracia representativa, constitui o melhor sistema de sociedade já inventado pela humanidade.

    Ao contrário dos regimes opressores do Leste Europeu, que tinham no Estado o seu único agente, os regimes capitalistas democráticos contam com milhões de empreendedores, que sempre dão a volta por cima da crise.

    O fim do capitalismo, como você tanto anseia, já foi anunciado diversas vezes ao longo dos últimos duzentos anos, mas o que vemos? Vemos esse sistema renovando-se e aprimorando-se a cada crise, graças à liberdade concedida às pessoas. Já regimes autoritários como o de Chávez vêm e vão, mas sempre causando muita dor e prejuízos às sociedades que os têm que aturar.

    Se você está tão saudoso assim dos regimes autoritários, apesar do Lula nós ainda vivemos em uma sociedade livre, então você pode arrumar suas malas e rumar ‘de volta para o futuro’: o brilhante, ultramoderno e justíssimo regime do imperador Hugo I.

    Se é por falta de adeus, um abraço!!!

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