Sexta-feira, 19 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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IMPRENSA EM QUESTãO >

A quem pertence a informação?

Por Sylvia Moretzsohn em 17/11/2009 na edição 564

Peço emprestado o título de um famoso livrinho do jornalista Washington Novaes, publicado nos anos 1980, para propor um desdobramento a uma nota de Luiz Egypto publicada neste Observatório (ver aqui), que apontava ‘cenas de jornalismo explícito’ na tentativa de uma repórter da Rede Record entrevistar ao vivo o secretário de Minas e Energia, que aguardava no link da Globo o momento de entrar no ar, no dia seguinte ao apagão que atingiu praticamente o país inteiro por algumas horas.

Peço emprestado esse título porque não quero entrar nos detalhes sobre o fato imediatamente aparente – o conflito Record x Globo, de que este episódio foi mais uma peça, especialmente depois de divulgado no Youtube sob o título evidentemente exagerado que acusava a Globo de impedir a concorrente de trabalhar. Mesmo porque, não foi propriamente (ou, pelo menos, não foi diretamente) a Globo que impediu a entrevista, mas a assessoria de imprensa do ministério.

Independentemente das considerações sobre os procedimentos habituais de agendamento de entrevistas, há um fato concreto: o programa (Hoje em Dia) da Record estava no ar, chamando a repórter ao vivo. O secretário aguardava – e aguardou durante pelo menos oito minutos, o tempo de duração do trecho do vídeo disponibilizado na internet – para dar entrevista à Globo. O que o impedia de falar com a outra emissora, nesse período? A obediência ao agendamento previamente acertado pela assessoria. O que deve causar espanto para o público leigo, para quem as emissoras de rádio e TV prometem o fato no ato, a informação em tempo real, entre outros slogans que reiteram a urgência como uma característica do jornalismo.

Inventário necessário

O vídeo serviu para explicitar a cena: uma autoridade pública, estática, com o sorriso protocolar congelado, subserviente às regras determinadas pela assessoria, incapaz de uma reação autônoma. E o assessor, nervoso com o imprevisto e cioso do seu dever de zelar pela agenda previamente acertada. Por acaso, com a Globo.

Seria ocioso perguntar se o comportamento seria diferente se a situação fosse inversa. Seja porque é inútil falar sobre hipóteses, seja porque seria raríssima a hipótese de a Globo não ter prioridade, em qualquer caso.

No entanto, se a informação é um bem público, é assim que deveria ser considerada, independentemente de interesses privados. Especialmente quando é uma autoridade pública a fonte da informação. Mais ainda quando se trata de uma informação sobre um fato que abalou quase todo o país.

Quem tem alguns anos de vida se recorda de uma das maiores e mais escandalosas cenas de privatização explícita da informação, durante o lançamento do Plano Collor, em 1990, quando a então ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello, subitamente deixou a coletiva e, ato contínuo, apareceu para uma exclusiva com Lilian Witte Fibe, na TV Globo.

Hoje, às vésperas da Conferência Nacional de Comunicação, com sua extensa pauta sobre democratização da informação – e apesar da arrogante ausência das maiores empresas de comunicação do país, aliás boa parte delas concessionárias de um serviço público –, valeria a pena fazer um inventário dessa relação entre empresas jornalísticas e assessorias. Especialmente quando se trata de assessorias de órgãos públicos. Porque talvez seja útil demonstrar que o compromisso com o público exige que se pense além da cartilha.

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Jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007)

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