Quarta-feira, 22 de Janeiro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1071
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IMPRENSA EM QUESTãO > Ataques do governo

A quem serve o jornalismo?

Por Equipe do Observatório da Imprensa em 14/01/2020 na edição 1070

(Foto: Agência Brasil – José Cruz)

O artigo de Miriam Leitão, “O jornalismo muda e permanece”, no Globo de domingo, 12 de janeiro, esteve entre os trending topics do Twitter. O tema foram os comentários do presidente Jair Bolsonaro de que os jornalistas são animais em extinção e deveriam ser entregues ao Ibama. A autora faz menção ao assédio moral que os profissionais da imprensa sofrem do presidente na porta do Palácio do Planalto. “O presidente queria ser um exterminador da imprensa crítica, aquela que incomoda, esclarece, investiga”, avalia Miriam. Levantamento feito pela Fenaj no final do ano passado comprova os dados: Bolsonaro fez, em 2019, 116 ataques à imprensa.

Miriam contextualiza as mudanças no jornalismo para demonstrar que a essência da atividade é a transformação. “A imprensa passa por transformações intensas. Muda o modelo de negócios, a maneira como se apuram as informações, a forma como a notícia é apresentada e a intensidade com que o fluxo de dados e fatos circula (…) Mesmo quando alguns órgãos fecham, reduzem-se os profissionais necessários para executar uma tarefa, velhas fontes de receita diminuem, não é o jornalismo acabando. É a transformação com a qual a imprensa sempre conviveu. Mudar é a nossa matéria”.

Jânio de Freitas também tratou do tema em sua coluna de domingo na Folha de S.Paulo, “Uma espécie em extinção”, sobre a estratégia autoritária do presidente. “Impor a subserviência ou o silêncio ao jornalismo é parte essencial do plano de Bolsonaro e de seus aliados fortes para moldar o país à ignorância cascuda e antidemocrática que nos é mostrada por Damares, Weintraub, Ricardo Salles, Onyx e demais reproduções miniaturizadas da nulidade humana com status de Presidência”.

Outros textos na mesma edição da Folha explicitam as razões que estão por trás da postura autoritária e antidemocrática de Bolsonaro em relação ao jornalismo. Bruno Boghossian, no artigo “Mentiras sob medida”, cita informação divulgada por auxiliares de Bolsonaro, como a ministra Damares, de que o custo das viagens do presidente em seu primeiro ano havia sido de R$ 8 milhões, contra R$ 483 milhões de Dilma Rousseff em 2014. “Os governistas emparelharam coisas totalmente diferentes. A cifra de Dilma englobava os gastos com passagens de todos os servidores do governo, enquanto o número de Bolsonaro levava em conta só as viagens do presidente”, aponta.

Na coluna sobre TV na Folha Ilustrada, Maurício Stycer tratou de José Luiz Datena, que já realizou cinco entrevistas exclusivas com Jair Bolsonaro, a última delas em 3 de janeiro. Foram 49 minutos ao vivo, pelo telefone. “Essa duração, absolutamente assombrosa na TV aberta, é um padrão nas entrevistas de Datena com Bolsonaro. Outra característica é que o apresentador, normalmente verborrágico, costuma falar pouco e raramente interrompe o presidente ou faz contrapontos a declarações contraditórias ou vagas”, escreve. A situação é tanto mais complexa quando se considera que o próprio Datena está alimentando suspense sobre sua candidatura nas eleições deste ano, a ponto de divulgar uma pesquisa em que aparece em primeiro lugar nas intenções de voto para a prefeitura de São Paulo.

O desejo de extinção do jornalismo é, como considera Jânio de Freitas, uma formulação vaga. “Até parece um suspense inteligente, não fosse de Bolsonaro”, escreve. É uma dedução em nome do contexto econômico e das relações da imprensa com a internet? Ou é uma ameaça, amplificando os ataques que já fez à Folha e anunciantes ou ao vencimento da concessão da Rede Globo? “Não sei se ele tentou fazer uma brincadeira. Talvez não, porque o humor e a ironia não são seus pontos fortes e são recursos de linguagem que exigem bastante do cérebro. Seu histórico é mesmo de agressões”, completou Miriam Leitão.

Não faltam motivos para duvidar de arroubos autoritários de Bolsonaro. O desejo de um mundo sem jornalismo se sustenta em dois pontos que também se tornam cada vez mais claros. O primeiro é a aposta na desinformação como estratégia política. “Bolsonaro e sua equipe não espalham absurdos para fazer com que seus críticos mudem de ideia. O objetivo é convencer simpatizantes de que o governo vai bem e fazer com que eles mesmos espalhem essas lorotas de baixa qualidade”, observa Bruno Boghossian.O segundo é desqualificar o trabalho dos jornalistas críticos e privilegiar aqueles dóceis “depositários de suas falas”, como escreveu Miriam Leitão.

Tanto em um caso contra em outro, o fortalecimento do jornalismo responsável é vital para o processo democrático. Mesmo que a tradição servil da imprensa tenha contribuído para o atual estado de coisas, é preciso acreditar no movimento da história e da sociedade em reconhecer que precisamos tanto combater a desinformação quanto atuar de forma crítica e investigativa sobre perguntas que seguem sem respostas. E cabe ao jornalismo se reinventar e fortalecer para atender essas demandas. As mesmas novas tecnologias que ameaçam os modelos de negócio tradicionais fornecem elementos para o fortalecimento da atividade. Inteligência de dados, possibilidade de falar com públicos mais amplos, transparência editorial e de métodos são demandas éticas que redefinem a atividade e sinalizam para quê e a quem o jornalismo serve. A história dirá.

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