Quinta-feira, 18 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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A raposa, o porão e o galinheiro

Por Flávio de Carvalho Serpa em 17/03/2009 na edição 529

Embora a desregulação do mercado financeiro tenha se expandido desde a política republicana de Ronald Reagan na década de 1980, ela disparou roncando como um foguete em 2004, quando todas as amarras da Securities and Exchange Commission (SEC) foram abolidas para os bancos de investimentos.


Isso ocorreu, segundo descobriu (somente no fim do ano passado) o diário The New York Times(ver ‘Agency´s ´04 Rule Let Banks Pile Up New Debt‘), em 28 de abril de 2004, num porão de um prédio da SEC em Washington, numa sumária reunião de apenas 55 minutos, quando os minguados cinco membros da instituição aprovaram o pedido das grandes instituições financeiras para abolir uma regra que impunha obrigações de reservas de capital proporcionais ao valor das dívidas contraídas. Por alguma razão ainda não debatida essa reunião ficou quase secreta durante quase quatro anos.


Por que decisões tão poderosas não foram sequer registradas pelos jornalistas especializados do setor financeiro? Estariam eles hipnotizados pelo oba-oba da prosperidade aparentemente sem fim do mercado financeiro? Temiam passar por cassandras negativistas e destruir suas reputações? Por que nenhum jornalista financeiro especializado sentiu o cheiro de trapaça e vigarice nos primários investimentos de pirâmide do badalado Bernard Madoff?


A reunião sumária liberou imediatamente bilhões de dólares que deveriam ficar como lastro para alavancar aplicações em mercados de derivativos. Em apenas dois anos, em 2006, esse valor já chegava a 200 trilhões de dólares, 16 vezes o PIB dos EUA. Um dos mais açodados lobistas da pressão sobre a SEC foi Henry M. Paulson Jr., diretor da Goldman Sachs, que dois anos depois virou secretário do Tesouro do governo de George W. Bush.


Debate quente


A Goldman Sachs deitou na sopa: para mais de 1 trilhão de dólares emitidos em derivativos ela tinha apenas 28 bilhões de dólares de lastro.


Outra decisão igualmente desastrosa e espantosa dessa reunião foi terceirizar o papel de vigilância dos riscos das operações. Em vez de a SEC ficar de olho, o trabalho foi transferido para os próprios bancos de investimento (sim, a raposa foi encarregada de vigiar as galinhas). Os lobistas dos cinco grandes bancos de investimentos garantiram à SEC que isso podia ser feito automaticamente com os novos e sofisticados softwares aperfeiçoados por ‘cientistas’ como Emanuel Derman, o principal quant, ou teórico de precificação, da Goldman Sachs (ver abaixo ‘Os aprendizes de feiticeiro’).


A caça aos culpados ainda não terminou e provavelmente vai demorar muito, pois envolve um emaranhado de funcionários e políticas, mas a base dela, a fúria desregulatória dos republicanos, é um alvo certo. O próprio candidato republicano derrotado por Barack Obama, John McCain, apontou o dedo para um deles: Christopher Cox, assessor da Casa Branca encarregado de uma comissão que revisava as regras de vigilância das normas de risco e ética no mercado financeiro. Durante sua gestão ele só produziu medidas que dificultavam a investigação e processos contra executivos suspeitos de fraude. Cox, que não dá entrevistas a não ser por escrito, foi lacônico ao The New York Times. ‘As métricas [do controle de risco] eram inadequadas’, disse.


Ou seja, para ele a culpa foi dos quants. Como diria a raposa, a culpa é da galinha. Mas, como destaca o jornal, a reunião nos porões do SEC só foi descoberta no final de 2008. Seria isso um indício de que os jornalistas especializados no setor financeiro não se interessaram ou se sentiram intimidados de remar contra a maré de otimismo exagerado que reinava na época? Estariam eles de rabo preso com o poderoso lobby das grandes instituições financeiras?


Essa é uma questão que somente agora está começando a ser debatida com seriedade, mesmo nos EUA. Para o grande público a questão só apareceu mesmo na semana passada quando o cômico jornalista Jon Stewart massacrou o jornalista de finanças Jim Cramer, da CNBC (ver ‘Uma surra ao vivo na TV’, em seguida)


***


Uma surra ao vivo na TV


O debate sobre a responsabilidade dos jornalistas financeiros no colapso econômico mundial chegou ao grande público americano na quinta-feira (12/3) de forma espetaculosa. Anunciado ao longo da semana como um embate formidável, o programa DailyShow (canal Sony no Brasil) pôs num lado do ringue Jim Cramer, a estrela e âncora financeira do programa Mad Money do canal CNBC, e do outro o comediante Jon Stewart, considerado o mais importante formador de opinião do público com menos de 30 anos nos Estados Unidos.


O resultado foi um massacre. O New York Times do dia seguinte titulou a matéria lembrando o filme Matar ou Morrer (1952, High Noon) – aquele em que Gary Cooper duela sozinho com perigosos bandidos numa cidade acovardada (ver aqui).


Derrota assumida


As acusações foram diretas. ‘Você sabia o que os bancos estavam fazendo… agora, fingir que isso foi algum tipo de coisa maluca, um tsumani que ninguém pode ver chegando é hipocrisia na melhor das hipóteses ou crime, na pior’, disparou Stewart.


‘Ele [Stewart] mira agora nos canais de TV a cabo como a CNBC, que não somente fracassaram em antever a crise de crédito, mas também, no ponto de vista dele, ficaram do lado dos banqueiros e ajudaram a inflar a bolha’ comenta o NYT.


Se existe pouca regulação e controle em Wall Street, argumenta Stewart, dificilmente existe alguma responsabilização nos canais de TV a cabo. ‘É um sistema de estrelato de 24 horas na qual as opiniões e estrelismo importam mais do que os fatos’, fulmina o comediante.


Cramer, que pontifica na CNBC, engoliu a acusação de fazer uma espécie de entretenimento financeiro em vez de jornalismo responsável. ‘Existe um mercado para isso [a credulidade dos telespectadores] e damos isso a eles’, justificou Cramer. ‘Como existe mercado para cocaína e prostitutas’, retrucou na lata o comediante. Constrangido, Cramer acabou fazendo o mea culpa: ‘Eu poderia ter feito melhor e seguramente agora vou tentar fazer melhor’, desculpou-se piedosamente.


E no dia seguinte, no seu programa na CNBC, Cramer assumiu humildemente a surra que levou do comediante. ‘Tenho o mais alto respeito por ele e pelo trabalho que ele faz, não importa quão desconfortável tenha sido’. [Aqui, a repercussão do embate no no Los Angeles Times]


***


Os aprendizes de feiticeiro


A culpa dos quants, os físicos responsáveis pelo turbinamento das ferramentas financeiras que supostamente permitiriam operar em altos níveis de risco, já foi exaustivamente questionada no fim do ano passado nos Estados Unidos.


Em 9 de março, o New York Times voltou ao assunto ao descobrir que os quants, longe de estarem sendo responsabilizados pelo colapso com suas teorias mais ou menos malucas estavam, ao contrário, sendo cada vez mais procurados pelos bancos de investimentos [ver aqui].


Também a revista Wired (23/2) postou um artigo debatendo a possível responsabilidade dos físicos teóricos e estatísticos nas ferramentas matemáticas de destruição em massa de mercados.


Foi o suficiente para o assunto pipocar nos blogs americanos, com especial destaque para a seção financeira da FoxNews estampar um pavoroso cenário. ‘Trata-se uma uma vasta conspiração para rastrear 90 milhões de investidores americanos… Eles [os quants] são seus piores inimigos. Você não pode confiar neles… trata-se de um esforço secreto de Wall Street para dominar e manipular sua mente, dinheiro e mercados… Eles criaram um vírus letal que disparou o derretimento do crédito subprime e devastou a economia global’.


Mas pelo menos um dos principais envolvidos nas trabalhadas teóricas reagiu de maneira surpreendente.


‘Dinâmicas desconhecidas’


‘Um espectro ronda…’. ‘Uni-vos. Nada tens a perder senão…’. As palavras iniciais e finais do Manifesto Comunista de Marx e Engels ganharam um inusitado lugar na enxurrada de desculpas dos envolvidos no colapso mundial do sistema financeiro. Elas aparecem num outro manifesto, este redigido por Emanuel Derman, um ex-físico teórico que ajudou a criar as sofisticadas ferramentas matemáticas e modelos financeiros que turbinaram as carteiras das grandes agências de especulação.


Derman, um dos mais famosos gurus da elite financeira que fez carreira na Goldman Sachs, aperfeiçoou o chamado modelo Black-Scholes usado na ‘precificação de derivativos’ – a operação financeira que gerou o buraco negro que sugou as finanças mundiais. Atualmente diretor de uma empresa de agenciamento de riscos e do programa de engenharia de riscos financeiros da Universidade Columbia, ele tem um bom álibi por ter advertido várias vezes antes, como num artigo de 2007 no diário The Wall Street Journal, que esses especialistas podem causar ‘desastres espantosos quando passam a idolatrar seus modelos’ matemáticos.


O manifesto de Derman, que pode ser lido na íntegra no seu site pessoal, foi publicado no início deste ano na revista americana Business Week, sem as frases iniciais e finais, é claro. Nele, Derman acusa seus seguidores mais afoitos de terem ‘varrido para debaixo do tapete todas as dinâmicas desconhecidas… com todas as sujeiras ignoradas’.


Hipótese temerária


Semanas antes da divulgação do manifesto, um editorial da revista Scientific American havia acusado os modeladores financeiros de terem turbinado o colapso do sistema. ‘O ambiente afoito’, diz o editorial, ‘permitiu aos operadores dar entrada a suposições super-otimistas e dados falhos em seus modelos, driblando os softwares para evitar disparar os sinos de alarme’.


A comissão editorial da publicação não poupa os operadores de modelos matemáticos. Eles teriam construído seus prédios de cartas de baralho alicerçados numa suposição falsa. O erro básico, apontado em 1999 pelo criador da matemática das fractais, Benoit Mandelbrot, é o de que eventos no mercado financeiro não são estatisticamente independentes. Isso quer dizer que os dados de desempenho passado não são verdadeiramente confiáveis e, mais importante, não podem ser tratados como eventos independentes.


Uma lâmpada A tem uma probabilidade definida de queimar após alguns anos de uso e isso não vai influenciar o comportamento de uma lâmpada B. Mas supor que o calote de uma hipoteca do Sr. José não vá afetar ou precipitar idêntica sorte ao Sr. João é uma temeridade.


Hordas de formigas


O que os modelos financeiros de derivativos faziam era justamente empacotar muitos papéis para diluir os riscos, e deu no que deu. Evidentemente não é mais possível abolir o uso de modelos matemáticos e estatísticos nas finanças e voltar ao tempo das empresas de livro-caixa com entradas e saídas equilibradas.


As apostas, especulações e o crédito estão inextricavelmente ligadas na vida econômica e financeira desde os tempos dos banqueiros de Veneza. Não há como voltar no tempo nem desconhecer o enorme papel que o crédito, muitas vezes furado, teve na geração de riquezas no mundo desde a Renascença.


Para o corpo editorial de Scientific American, no entanto, esses operadores sofisticados do mercado financeiro (apelidados de quants, para engenheiros quantitativos) não foram os responsáveis pelo colapso, mas apenas o agravaram ao abaixar os patamares que deveriam acionar os alarmes.


Os principais culpados, apontam os editores da revista, foram os omissos responsáveis pela regulamentação do mercado e a ganância insaciável dos grandes especuladores. Estes, além de embolsarem vultosas recompensas pelo lucro fictício das operadoras, deram sinal verde para seus subordinados. Um batalhão de pequenos agentes que saíram a campo como ruinosas hordas de formigas coletando comissões das vendas de hipotecas a quem evidentemente não podia honrar os pagamentos.

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Ex-físico e jornalista; este artigo é uma versão ampliada e atualizada do original publicado na revista Retrato do Brasil

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