Terça-feira, 19 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1028
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IMPRENSA EM QUESTãO >

A reforma (prevista) já começou

Por Alberto Dines em 03/03/2009 na edição 527

Já é oficial: a Folha de S.Paulo vai mudar. O jornalista Eduardo Ribeiro revelou os objetivos a serem alcançados com essa mudança (ver ‘Grupo Folha projeta um novo ciclo editorial‘). Felizmente foram banidos os ‘consultores internacionais’ que há mais de 20 anos locupletam-se com as reformas cosméticas adotadas pelos jornais brasileiros. Pelo que se depreende, será empreendida por quem entende do riscado – os que fazem o jornal e não agüentam mais fazê-lo desta forma burocrática. Será uma reforma de teor. Conteúdo, como se diz nas rodas mediáticas.


A grande notícia, porém, é que a reforma da Folha já começou. E muito auspiciosamente. Dias depois do registro de Eduardo Ribeiro, o editor de Brasil, Fernando de Barros e Silva, publicou na Folha (24/2, pág. A-2), um texto claro, polido (em todos os sentidos) e revolucionário. Discordou abertamente das posições adotadas pela direção do jornal no caso do editorial em que o regime militar brasileiro foi designado como ‘ditabranda’.


Na abertura do artigo ‘Ditadura, por favor‘, FBS afirma que ‘não é a primeira vez que um colunista da casa diverge da posição expressa pelo jornal em editorial’. Data venia, é a primeira vez que um colunista assume ostensiva e publicamente sua divergência com a orientação do jornal.


Recuo compulsório


É uma revolução, não apenas na Folha mas na grande imprensa brasileira. O que falta aos nossos grandes jornais é pluralismo, abertura, tolerância, variedade. Esta é a deficiência que os torna convencionais, ultrapassados, ‘preguiçosos’ – para usar o adjetivo empregado pelo ombudsman Carlos Eduardo Lins da Silva.


A nova Folha com ‘textos compactos, didáticos e analíticos’ não poderá dispensar uma quebra no monolitismo hoje infiltrado em todas as páginas e colado nas paredes de todas as redações brasileiras.


Para ser didática uma matéria não pode dispensar o contraditório e a dialética. Só um jornal afinado com os novos tempos admitirá uma discussão pública como esta tranquilamente iniciada por Fernando de Barros e Silva. Não faria o menor sentido se ficasse reservada à esfera doméstica ou sutilmente processada semanas depois em doses homeopáticas nas diversas colunas.


A valorização dos colunistas, como pretende a Folha, vai certamente conferir a seus textos uma visão de mundo mais abrangente e transformá-los em peças efetivamente didáticas. Com um único artigo, o editor de ‘Brasil’ (na verdade editor de Política) mostrou as oportunidades que se oferecem a colunistas compenetrados com suas responsabilidades, zelosos com seus currículos e biografias.


E se esta abertura for levada adiante, será inevitável um degelo na espessa homogeneidade que domina e distancia a grande mídia jornalística brasileira da grande massa de leitores.


A Folha de S.Paulo já promoveu duas revoluções (a de 1975 e a implantação do ‘Projeto Folha’, entre 1984 e 1987). A que entrou para a história do jornalismo e mexeu com a história do país foi acionada pela incrível dupla Octávio Frias de Oliveira-Cláudio Abramo, que materializou a distensão política pretendida pela outra dupla, Geisel-Golbery.


Não foi uma reforma no sentido tradicional, cosmética. Foi uma catarse. Como resultado dela, de repente, as redações começaram a formigar com a pergunta ‘e por que não nós?’. Por isso, diante das pressões exercidas pelo ministro da Justiça, Armando Falcão, a Folha foi obrigada a recuar em 19 de setembro de 1977.


Fazer história


É ousada a decisão da direção do Grupo Folha em mexer no seu carro-chefe, depois de um ano espetacular em matéria de receitas e no meio de um imprevisível processo recessivo global. Por inúmeras razões, mas principalmente porque implica o reconhecimento de que um grande jornal como a Folha não pode esperar passivamente as soluções do ‘mercado’ ou da conservadora corporação empresarial. Decisões inovadoras, pioneiras, são necessariamente solitárias.


Jornais precisam voltar a ser indispensáveis e imprescindíveis. São eles que organizam e acionam o processo informativo. Está comprovado que os portais da web não conseguem ser ao mesmo tempo ‘quentes’ (isto é, altamente noticiosos) e ‘frios’ (isto é, altamente analíticos). Noam Chomsky numa contundente entrevista publicada na edição de segunda-feira (2/3, pág. 33) do diário espanho El País é categórico: ‘As fontes de informação ainda estão na imprensa tradicional’ [ver ‘`No soy un Don Quijote, porque mis molinos de viento son reales´‘).


Como todos os conglomerados multimídia, o Grupo Folha vai integrar os diferentes serviços jornalísticos, reforçar os vínculos entre eles, mas deixa claro que manterá a aposta naquele que tem sido o seu carro-chefe.


Se resistir ao instinto trendy, modista, que geralmente sepulta os mais bem intencionados projetos, está assegurado o êxito da reforma da Folha. Se perceber que a repercussão produzida pela publicação de uma divergência foi mais importante do que a infeliz e impolida ‘Nota da Redação’ defendendo a ‘ditabranda’, estará fazendo história novamente.

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