Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1024
Menu

ENTRE ASPAS >

A reserva de mentiras

Por Luciano Martins Costa em 03/05/2010 na edição 587

A revista Veja destacou três repórteres para aquilo que deveria ser uma reportagem definitiva sobre a suposta ameaça de o Brasil ter seu território produtivo amputado por milhares de reservas de proteção ambiental e destinadas a grupos étnicos específicos.


A publicação que mais vende no país chega a afirmar que ‘áreas de preservação ecológica, reservas indígenas e supostos antigos quilombos abarcam, hoje, 77,6% da extensão do Brasil’.


Segundo a revista, se a conta incluir ainda as cidades, os assentamentos para reforma agrária, os portos, as estradas e outras obras de infraestrutura, o total do território proibido para ‘atividades produtivas’ chegaria a 90,6% e os brasileiros do futuro teriam que se contentar em produzir numa área do tamanho de São Paulo e Minas Gerais.


Tamanho nonsense, enunciado no início da reportagem, deveria bastar para afastar qualquer leitor com algum sentido de realidade. Mas Veja parece ter definitivamente aderido a alguma seita movida a alucinógenos pesados. E viaja no preconceito.


Entrevista inexistente


A revista afirma que existe uma organização altamente articulada que se dedica a congelar grandes fatias do território nacional, formada por organizações não governamentais e apoiada por antropólogos. Essa suposta ‘indústria da demarcação’ seria a grande ameaça ao futuro do Brasil.


O texto embrulha no mesmo pacote reservas extrativistas da Amazônia – onde a produtividade econômica é muitas vezes superior à da pecuária, gera mais emprego e produz e distribui mais riqueza –, não diferencia áreas de proteção de áreas de exploração restrita, confunde conceitos antropológicos e inventa pelo menos uma declaração.


O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, do Museu Nacional do Rio de Janeiro, distribuiu no sábado (1/5) uma mensagem na qual garante que a citação de uma frase sua por parte da revista é uma completa mentira.


Para fundamentar uma de suas afirmações, Veja atribui ao antropólogo a frase segundo a qual ‘não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente cultural original’. Castro assegura que não deu a entrevista, que não pensa assim e que considera a reportagem ‘repugnante’.


Veja acaba de inventar a reserva de frases manipuladas.

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem