Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > OI NA TV

A trajetória do pai da imprensa brasileira

Por Lilia Diniz em 28/07/2010 na edição 600





O Observatório da Imprensa veiculado pela
TV Brasil na terça-feira (27/7) homenageou Hipólito da Costa, autor do primeiro
periódico escrito em língua portuguesa livre de censura, o Correio
Braziliense
, que  circulou no Brasil e em Portugal entre 1808 e
1822. Escolhido Herói da Pátria por força de uma lei sancionada pelo
vice-presidente (então no exercício da Presidência) José Alencar, em 5/7,
Hipólito teve o nome inscrito no Livro dos Heróis da Pátria. Para celebrar a
escolha do patrono da imprensa brasileira para o seleto time de heróis, o


programa exibiu o documentário Preto no Branco, dirigida pelo cineasta
Silvio Tendler.

O documentário entrevistou estudiosos da vida e da obra de Hipólito da Costa:
o jornalista Alberto Dines, a historiadora Isabel Lustosa, o professor
e escritor Antônio F. Costella e o diplomata Paulo Roberto de Almeida. Dines
sublinhou que Hipólito é o pai da imprensa brasileira e da imprensa livre
portuguesa. O jornalista destacou que desde meados do século 19 já havia
tipografias instaladas na América espanhola, mas a impressão era proibida no
Brasil porque a coroa portuguesa e a Inquisição não permitiam. ‘A tipografia é,
de certa forma, uma filha da religião. Mas ela também é órfã. Ela foi tornada
órfã pela religião, porque não pôde se expandir como poderia’, explicou.


Em 1747, um dos mais importantes impressores de Lisboa decidiu instalar sua
oficina no Rio de Janeiro. Pouco depois de publicar a primeira obra, recebeu um
comunicado para desmantelar a oficina e retornar a Portugal. ‘Um dos grandes
mistérios da história da tipografia e da imprensa no Brasil é saber o que
Antonio Isidoro da Fonseca, aquele que poderia ter sido o pai da tipografia,
veio fazer no Rio de Janeiro em 1747, sessenta anos antes de chegar a Corte e
começar realmente a vida intelectual e jornalística no Brasil’, disse Dines.
Embora aprovado pelo bispo local, o livro então publicado não tinha o aval da
Inquisição.


Trezentos anos sem impressão


O Brasil permaneceu sem tipografia até 1808, quando a corte portuguesa
transferiu-se para o país ao fugir das invasões napoleônicas. Dines explicou que
D. João VI, sabendo que teria de governar Portugal e o Brasil a partir do Rio de
Janeiro e precisaria de uma ferramenta para divulgar seus atos, trouxe uma
oficina tipográfica junto com o aparato de Estado. Antônio Costella ponderou que
a introdução da imprensa no Brasil foi uma questão de circunstância. ‘D. João
tinha que ter aqui o que tinha em Portugal para poder governar e manter a corte
em funcionamento. Não foi um gesto de generosidade. D. João trouxe a tipografia,
mas trouxe junto a censura e disso nunca se fala’, afirmou o escritor.


Em maio de 1808, D. João instalou a primeira oficina tipográfica do país, a
Impressão Régia. Logo nos primeiros meses foram impressas diversas obras
literárias e científicas. Em setembro daquele ano, saía à luz a Gazeta do Rio
de Janeiro
(1808-1822). De caráter oficial, a folha bi-semanal tinha função
estratégica para a consolidação do projeto de poder ao fazer a ponte entre a
Coroa e os súditos. Publicava atos da burocracia administrativa do reino,
notícias da guerra na Europa e sobre o cotidiano da cidade. O jornal oficial
tinha caráter estritamente noticioso e não dava espaço a análises e
reflexões.


No mesmo ano, do outro lado do Atlântico, Hipólito da Costa lançou o
Correio Braziliense. Nascido na Colônia do Sacramento, então território
luso-brasileiro, hoje pertencente ao Uruguai, Hipólito formou-se em Leis e
Filosofia na Universidade de Coimbra. Em 1798, recebeu do ministro da Fazenda e
presidente do Erário português, o Conde de Linhares, uma missão de prospecção
econômica. Foi enviado aos Estados Unidos para levantar os recursos naturais e
observar os conhecimentos científicos da recém-emancipada nação, onde permaneceu
por dois anos. Hoje, a missão poderia ser considerada um ato de
‘espionagem’.


Hipólito na Filadélfia


Durante a estada, Hipólito da Costa anotou uma série de observações que foram
publicadas no livro Diário da minha viagem para a Filadélfia. ‘Ele faz
ali uma etnografia dos Estados Unidos naquele momento privilegiado do final do
século 18. Você tem o olhar de um brasileiro sobre aquela sociedade. Eu acho que
isso diz muito da personalidade dele’, disse Isabel Lustosa. Para Dines, a
viagem foi importante porque Hipólito pôde ver materializados conceitos como
‘progresso’ em um território tão extenso como o Brasil.


‘Ele fica um pouco chocado com os modos rústicos dos americanos, aquela
maneira direta de tratar as pessoas sem o menor formalismo, sem qualquer
protocolo ou o cerimonial típico da corte em Lisboa. Ele é apresentado ao
presidente dos Estados Unidos, que está sentado em uma poltrona suja, com botas
cheias de barro, e que depois vai para uma festa, toma ponche, dança com as
senhoras. Os Estados Unidos eram uma democracia em formação. Um país talvez
tosco ou rústico para um jovem súdito português, acostumado com as monarquias
européias, com o protocolo de uma monarquia’, explicou Paulo Roberto de Almeida.


A viagem não marcou apenas a vida pública de Hipólito da Costa. Foi em
Filadélfia que ele se filiou à maçonaria. Não havia leis que proibissem a
maçonaria em Portugal, mas a igreja católica exercia forte pressão contra a
organização por considerá-la herética. De volta a Portugal, o jornalista foi
preso. Durante dois anos permaneceu incomunicável, submetido a maus tratos e a
intermináveis interrogatórios nos cárceres do Santo Ofício. ‘Sem dúvida, foi por
causa da maçonaria que ele acabou preso. Antes, até imediatamente antes, ele era
um sujeito que fazia prestação de serviços para o Estado e era amigo do
principal ministro, que era o Dom Rodrigo de Souza Coutinho’, lembrou Antônio
Costella.


As marcas do cárcere


As memórias desse período foram descritas no livro Narrativa da
perseguição de Hypolito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça, preso e
processado em Lisboa pelo supposto crime de francmaçon
, publicado em inglês
e em português. ‘Depois que ele conseguiu escapar de Lisboa e chegar a Londres,
a primeira iniciativa de Hipólito da Costa, antes ainda do Correio
Braziliense
, foi contar o que é a inquisição – porque o público inglês não
sabia, não tinha noção. Afinal, era uma monarquia parlamentar’, disse
Dines. ‘Trata-se de um documento imenso sobre a defesa da liberdade de imprensa,
de credo, do direito a ser maçom, na conversa com o interrogador. É
belíssimo’, disse Isabel Lustosa. Para a historiadora, Hipólito era um
‘homem de fibra’.


‘O Hipólito, como pessoa, talvez tenha se tornado mais amargo, mais
desconfiado, com sua estada na prisão. Mas, certamente, conservou todas as suas
convicções juvenis e aquelas adquiridas em sua estada americana’, avaliou Paulo
Roberto de Almeida. Antônio Costella considera a fuga suspeita. ‘Foi uma
escapada meio estranha porque simplesmente esqueceram de fechar a porta e ele
foi saindo, abrindo as portas, e foi para a rua. Alguém deve ter ajudado a
preparar essa fuga’, disse. Em seguida, Hipólito estabeleceu-se na Inglaterra.
‘Os portugueses não conseguem mais tirá-lo porque ele passa a estar com a
proteção da maçonaria inglesa e do Duque de Sussex, que era o chefe dessa
maçonaria e de quem ele virou secretário particular’, explicou o
professor.


Nasce o Correio Braziliense


Hipólito chegou a Londres em 1802. Centro econômico e cultural, a cidade
abrigava inúmeros partidários da emancipação das colônias na América. ‘Ele
encontrou em Londres toda a elite sul americana, a vanguarda intelectual e
política que estava engajada nas lutas pela emancipação’, disse Dines. Na casa
do general venezuelano Francisco de Miranda, libertários reuniam-se para traçar
estratégias para a independência. ‘Tornou-se uma espécie de ponto de encontro
dos intelectuais exilados, que tinham fugido da América Latina ou estavam
exilados em Londres. Ali era a curriola dos libertários. E lá estavam Hipólito
da Costa, Bernardo O´Higgins, general San Martín, Bernardino Rivadavia e Simón
Bolívar, o homem que realmente materializou a emancipação da América espanhola’,
disse.


Nesta fase, nasceu a idéia do Correio Braziliense. Para Dines,
Hipólito concebeu o jornal como um ‘emissor de ideias não-censuradas’. ‘Não é um
jornal como nós conhecemos hoje. Na realidade, o Correio Braziliense era
uma revista. Primeiro, porque saía uma vez por mês e, segundo, o formato era de
livro. Ele fazia tudo sozinho, provavelmente um compositor montava os tipos
móveis, depois ele revisava’, explicou Dines. ‘O Correio Braziliense tem
como subtítulo ‘Armazém Literário’. Armazém, no sentido etimológico original, é
uma loja de muitas utilidades, um empório de todos os objetos que você possa
necessitar. Não apenas alimentos, mas máquinas, implementos’, completou Paulo
Roberto.


‘O Correio Braziliense era uma imensa redação de um homem só.
Imaginemos uma redação hoje com o editor-chefe, o editor-executivo, repórteres,
resenhistas, especialistas em Ciência, em Comércio, em Letras. Tudo isso o
Hipólito fazia sozinho. Ou seja, ele era uma redação. Ele lia absolutamente de
tudo, desde aquelas gazetas oficiais, o Moniteur francês, a gazeta
fluminense. Todas as leis ele lia e traduzia para o público leigo. Todos os
grandes autores, basicamente da ciência política e da economia política, ele
traduziu e adaptou’, explicou o diplomata. ‘Foram 14 anos de livros mensalmente
produzidos por um único indivíduo. É uma coisa fantástica’, destacou Isabel
Lustosa.

******

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