Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

IMPRENSA EM QUESTãO > TV BRASIL

A TV Pública é uma urgência

Por José de Almeida Bispo em 21/08/2007 na edição 447

O artigo de Gabriel Priolli (‘TV Brasil, teia de equívocos – A nova rede se enreda‘, na seção ‘TV em Questão’, excita a imaginação, já que o assunto é comunicações. Em primeiro lugar, pelo fato de que, por ser viciado em política, sou dependente da leitura e assistência das mídias em geral. Em segundo, porque sou do ramo: sou radialista, publicitário, webmaster e jornalista ‘não formado’, daqueles que se formaram direct-to-plate – arriscaria essa expressão, já que meus jornais foram ‘amadores’ e, principalmente, num tempo em que para escrever era preciso saber português e saber escrever. Os bons (que não foi o meu caso) se estabeleciam e os ruins mudavam de profissão. E em terceiro, porque venho observando com apreensão o fim de um sistema que, bem ou mal, foi de inestimável valor para a arte e a cultura em nosso inigualável século 20.

O sistema em questão é o da chamada indústria cultural, que tanto bem fez à difusão dos produtos culturais, em que pese a presença física muito mais volumosa do chamado lixo cultural. Esse sistema está a ir à breca. A tecnologia de difusão digital de produtos culturais, surgida a partir dos anos 90, detonou o coração do sistema que surgiu com o advento do cinema, do gramofone e, principalmente, do rádio. E não há volta. Todavia, é necessário proteger algo que tanto bem fez à humanidade, qual seja a possibilidade de um mínimo de difusão sistematizada da produção cultural.

De graça pela internet

É assustador que atualmente não se encontrem muitos artistas da música noviços, promessas para um futuro breve. Eles acabaram? Os jovens poetas emburreceram? E o cinema? Está uma desgraça só. Onde estão as grandes produções em massa que poderiam estar havendo hoje? Até as novelas das TVs brasileiras têm repetidos velhos clichês, centrados nas mazelas metropolitanas de São Paulo e Rio ou modelitos importados… e porquê? Por que os núcleos não estão também investindo em autores descolados dos centros urbanos listados? Por que o Globo Repórter – e similares de outras emissoras – insiste tanto em programas de, ou relativos a emagrecimento? Dietas?

Vendo o que presenciei no meu setor específico, o de rádio, e observando o processo… observando a engrenagem, como diria Lennon (watching the wheels), percebo claramente o fim do sistema de produção cultural e, o pior, não vejo nada que assegure, ao menos a difusão de novos valores, ou mesmo o espaço para os mais antigos, exceto alguns artistas clicherizados, ou muito difíceis de serem escondidos, portanto, rentáveis a qualquer tempo.

Comecei no rádio pela discoteca, setor imprescindível até meados dos anos 80. Acabou. Desde então, não mais houve aquele ritual de receber o disco da RCA, Philips, CBS, a então novinha em folha WEA-Ariola… Acabou! Era um tal de brigar com o representante da gravadora que, replicando ordens dos experts do setor de vendas, por muitas vezes queria forçar a barra numa música pela qual não pagavam à minha emissora – ao contrário de outras maiores – e ainda queria dar palpite. Acabou. Existem os fornecedores de música diretamente da rede, mediante pagamento, mas, quem tem o emule – 99% dos usuários particulares de internet – baixa quase tudo de graça pela internet. Shawn Fanny e o criador do mp3 (cujo nome agora me escapa) acabaram com tudo.

Divulgação carece de um meio

O próprio programa de rádio típico, o DJ, foi marginalizado, transformando seus protagonistas em desesperados atrás de um patrocínio, jabazeiros usuais, gente que até vende a própria mãe para conseguir segurar o espaço e o pão. Não existem, ao menos na maioria das emissoras de interior – e não precisa ser um grotão – núcleos de contratação de profissionais de rádio. ‘A terceirização’ transformou o DJ num pistoleiro eletrônico, tal qual o ‘jornalista’ do programa feito geralmente para achincalhar alguém e que tem o nome de programa jornalístico.

À multiplicidade de canais de TV seguiu-se um fenômeno interessante: o canal está sempre a serviço de vender algo ou alguém; que pode ser um político, um produto de gosto e valor questionável qualquer, um artista individual ou em grupo e, principalmente, Jesus e Satanás.

Mas o que mais me preocupa é que tenho percebido um enorme estreitamento da indústria cultural – e aqui entra, inclusive, a literatura. Apesar da enorme disponibilidade de tecnologias, títulos e gêneros, corre-se o risco que acabarmos nas mãos de uma seita qualquer, já que o dinheiro… – quem o vai ter para investir serão as instituições e, por se tratar de comércio de ideogramas, os maiores interessados serão as seitas. Lógico que aqui o canal da rede, a internet, também ajuda, mas a divulgação, que é o que leva a um mínimo de ordem necessária à formação de juízo de valor, carece de um meio mais sistematizado e nem sempre se poderá confiar apenas nos portais, especialmente nos grandes.

Opinador de vitrine

Mas voltando à questão da difusão da cultura digitalizada, no caso do Brasil é preciso retornar ao passado e recriar a velha Rádio Nacional e seus programas, simbolicamente falando. Ou seja, é urgente a TV pública. Sem frescuras intelectualóides. Uma TV do povo, para o povo e, na medida do possível, pelo povo.

A única forma de preservar, e até ampliar, a produção de conteúdo é com a TV pública. O que não pode é a mesma ficar à disposição de intelectualóides, democratóides, esse tipo de democrata de vitrine que discute, discute e discute para nunca sair do lugar. A melhor forma de se não executar um projeto é criar uma comissão. Nem todas são assim, é óbvio; mas que tem muito opinador de vitrine, disso o mundo está cheio.

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Radialista e publicitário, Itabaiana, SE

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