Quinta-feira, 18 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
Menu

IMPRENSA EM QUESTãO >

A valentia e a soberba

Por Luiz Cláudio Cunha em 06/08/2010 na edição 601

Elle voltou. Bravo, elegante, refinado, o notório Fernando Collor recrudesceu na quinta-feira (29/7), invadindo corajosamente – pelo telefone – a sucursal em Brasília da revista IstoÉ. Seu alvo era o repórter Hugo Marques, que ousou relembrar a dificuldade do senador do PTB em conseguir um ‘nada consta’ na Justiça para confirmar sua candidatura ao governo de Alagoas.Irritado como sempre, desbocado como nunca, Collor avisou:


− Se eu lhe encontrar, vai ser para enfiar a mão na sua cara, seu filho de uma p.!…


O mimo foi gravado pelo repórter e o doce recado collorido ganhou a internet para relembrar aos brasileiros que elle voltou, com toda sua graça, charme e veneno.


Collor perdeu a compostura, outra vez, pela tensão da campanha alagoana, onde a Justiça Eleitoral acaba de proibir o jingle onde faz uma geléia geral misturando velhos adversários para surfar na onda de popularidade do presidente da República: ‘É Lula apoiando Collor/ e Collor apoiando Dilma/ pelos mais carentes/ e os três para o bem da gente’, diz a letra da música vetada pelos juízes.


O valentão Collor cerrou o punho contra o jornalista porque, numa edição anterior, Marques ouviu a ex-mulher do senador, Rosane Malta, dizer entre outras coisas que o ex-marido sonegava impostos. Collor, qualificado por Rosane na entrevista como ‘prepotente e arrogante’, fica especialmente injuriado diante de jornalistas altivos e independentes.


Porta dos fundos


Um ano atrás, ele cometeu um dos mais inacreditáveis discursos da história do Senado. Incomodado com um artigo do colunista da revista Veja Roberto Pompeu de Toledo, um dos mais respeitados profissionais da imprensa brasileira, Collor tomou o microfone para confessar ao país, em termos indecorosos, o que vinha fazendo: ‘Eu tenho obrado em sua cabeça nesses últimos dias, venho obrando, obrando, obrando em sua cabeça’.


Ninguém, na Mesa Diretora ou no complacente plenário do Senado, exigiu a imediata assepsia do texto − e a escatológica frase expelida pela cabeça desarranjada de Collor ficou depositada, para sempre, nos anais daquela Casa do Congresso.


No desbocado telefonema para o repórter da IstoÉ, Collor diz que ele é um ‘mau jornalista’, prova de que, além de mal educado, o senador é mal informado. Hugo Marques é um excelente repórter, com passagens por algumas das principais redações do país.


A coragem que Collor bravateou pelo telefone lhe faltou, em 1992, quando o Senado aprovou o impeachment pelas malfeitorias pilotadas em seu meteórico governo pelo ex-tesoureiro PC Farias. Momentos antes do julgamento, Collor tentou renunciar à presidência para escapar à sentença pela porta dos fundos. O Senado obrou em sua cabeça, manteve a sessão e concluiu o juízo político que o manteve oito assépticos anos longe da política.


Força bruta


Se os eleitores de Alagoas agora o deixarem só, como temia no auge da crise do impeachment, Collor voltará ao Senado para concluir seu mandato. Ali certamente terá a oportunidade de cruzar casualmente com o repórter Hugo Marques, que tem no Congresso também o seu espaço de trabalho.


Collor poderá enfim consumar sua fanfarronice e meter a mão na cara do repórter. Mas terá que fazer o mesmo com todos os outros jornalistas, colegas de profissão de Marques, que compartilham com ele sua dignidade, sua independência, sua altivez.


Na democracia brasileira, não deve existir espaço para valentão que acredita na força bruta e que desacredita da boa educação para afirmar suas idéias, até as malcheirosas. O bravo povo das Alagoas tem agora a chance de enfiar o seu voto na cara de Fernando Collor.


Educadamente. Democraticamente.


***


E dona Diva, Collor?


Reproduzido do Conversa Afiada, 4/8/2010


Este Fernando Collor é uma figuraça! Na terça-feira (3/8), ele assomou no vetusto plenário do Senado Federal transvestido na sua melhor fantasia. Envergando um terno bem cortado, escandindo as palavras com voz firme e grave, exibindo a autoridade moral de um catão da República, Collor nem de longe lembrava a figura colérica que cinco dias antes telefonara para a sucursal da revista IstoÉ, em Brasília, para desancar o repórter Hugo Marques:


− Se eu lhe (sic) encontrar, vai ser para enfiar a mão na sua cara, seu filho de uma p.! – deblaterou o elegante pró-homem das Alagoas.


O azar de Collor é que a conversa foi gravada, e seu castiço linguajar ganhou o mundo via internet. Baleado por sua própria incontinência verbal, Collor ressurgiu ante os senadores, humilde e educado, no papel de vítima. Reconheceu que a ‘altercação’ é um dos traços de sua personalidade e, refugiado em termos exóticos garimpados com solércia nos escaninhos mais recônditos de um dicionário recém-descoberto, decidiu atacar o jornalista, definido por ele como ‘apedeuta’ (indivíduo sem instrução, ignorante). Com uma calculada amnésia, renomeou Hugo como ‘Bruno’, que ele imagina talvez ser ofensa tão grave quanto confundir Fernando com Pedro.


Discurso malcheiroso


Autonomeado ombudsman da imprensa, Collor tratou de lamentar os ‘rufiões’ (brigão, individuo que vive às custas de prostituta) do jornalismo que atuam para ‘forjicar’ (maquinar, forjar) apenas pelo prazer do ‘doesto’ (insulto, vitupério). E sapecou no seu inconfidente uma variegada penca de adjetivos: ‘jagodes’ (pessoa importuna, apalermada), ‘sicofanta’ (delator, patife), ‘cáften’ (proxeneta, gigolô), ‘sicário’ (pistoleiro, malfeitor).


Depois de reinventar o idioma, Collor tratou de repaginar a Constituição, que de fato preserva a liberdade de pensamento e, no inciso XII do seu Art. 5, garante a inviolabilidade do sigilo telefônico. Collor reclamou que Hugo (ou Bruno) gravou sem ordem judicial e sem o seu conhecimento uma ‘conversa telefônica de cunho estritamente particular’. Sabe-se agora que o elegante Collor de retórica ensaiada e vocabulário comportado ao microfone do Senado é, no particular, um desbocado e grosseiro detrator, que só se revela por inteiro, à socapa e à sorrelfa, na intimidade do seu tosco linguajar.


Mais grave do que seu estilo privado é seu flagrante apedeutismo legal. Qualquer um pode gravar a sua conversa com alguém. Quem diz isso, como deveria saber o apedeuta Collor, são as duas maiores cortes judiciais do país. Em novembro de 2000, julgando o habeas-corpus 14.336, o ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Edson Vidigal, afirmou: ‘A jurisprudência desta Corte tem afirmado o entendimento de que a gravação de conversa por um dos interlocutores não configura interceptação telefônica, sendo lícita como prova no processo penal’. Vidigal seguia decisão exarada em setembro de 1998 pelo então ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Nelson Jobim, hoje ministro da Defesa do Governo Lula que Collor tanto defende para alavancar sua campanha a governador em Alagoas.


‘É lícita a gravação de conversa telefônica feita por um dos interlocutores, ou com sua autorização, sem ciência do outro, quando há investida criminosa deste último. É inconsistente e fere o senso comum falar-se em violação do direito à privacidade quando interlocutor grava diálogo com sequestradores, estelionatários ou qualquer tipo de chantagista’, sentenciou o ministro Jobim no habeas-corpus 75.3381RJ. A jurisprudência firmada pelo Supremo protege, portanto, qualquer um que se sinta ameaçado, como ficou explícito no furioso telefonema de Collor, prometendo enfiar a mão na cara de Hugo (ou Bruno). Em agosto do ano passado foi Collor quem enfiou a cara na lama ao elaborar, no Senado, um fétido discurso em que revelava estar ‘obrando, obrando e obrando’ na cabeça de um articulista da revista Veja que ele não conseguia digerir. A obra acabou depositada, para sempre, nos anais da Casa.


Não merece


Obrando, Collor continua a desfazer da paciência e da inteligência dos brasileiros. Não se espera que ele chegue ao ponto de se desculpar pelo que obrou como presidente e pelo que agora obra como senador. Muito menos se imagina um ato de contrição pelo que disse ao injuriado Hugo (ou Bruno).


Mas Collor bem que poderia se desculpar com a personagem mais humilde e decente dessa história, e que nunca se prostituiu.


Dona Diva, uma honrada e respeitável senhora de 70 anos que ainda hoje trabalha como cabeleireira em Brasília, é a mãe de Hugo Marques.


Dona Diva não merece, Collor!

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem