Domingo, 21 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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A Veja que não vê

Por César Fonseca em 07/04/2009 na edição 532

André Petry, de Nova York, para a Veja, na edição 2107 (02/4), ‘Os primeiros tijolos’, a propósito da reunião do G-20, em Londres, diz, lá pelas tantas, um despropósito anti-jornalístico. Marx, diz, sugeriu que ‘o capitalismo carregava em si mesmo o germe de sua própria destruição. Ao proletarizar as massas, o capitalismo, na teoria marxista, engordaria o exército inimigo, que acabaria por derrubá-lo. Deu-se o contrário. As massas estão mais prósperas, ainda que o cortejo de pobreza no mundo esteja longe de ser satisfatório’.

Nem parece que o repórter de Veja está nos Estados Unidos, onde, durante a semana, as autoridades divulgaram a existência de 5 milhões de desempregados em seis meses de crise de realização da produção no consumo. Há prosperidade no desemprego?

Sem dúvida, depois de prescindir do trabalho, para se reproduzir na mera especulação sobre a moeda fictícia sem lastro, descartando as práticas vigentes no século 19, sob padrão ouro, que, no século 20, deu lugar à moeda estatal inconversível, moeda papel, dólar derivativo, o capitalismo, como Lênin já havia descrito magistralmente em Imperialismo, etapa superior do capitalismo, passou a depender da renda especulativa para promover a reprodução ampliada do capital até que a implosão emergisse brutalmente com os títulos hipotécarios derivados da segurança ficticiamente assegurada pela moeda americana.

A renda keynesiana, produzida na moeda, deixou, com a grande crise em curso, de proporcionar as vantagens aludidas, com entusiasmo, por André Petry. Ele, evidentemente, não entra na discussão dos meandros da transferência estrutural do sistema do valor-trabalho para o valor-financeiro, como dínamo do capital, com a ajuda dos governos ao desregulamentarem totalmente as regras financeiras, de modo a permitir a reprodução do capital, ampliando os filhos derivativos do dólar. Estes, por sua vez, promoveriam, nos últimos vinte anos, no leme do Consenso de Washington, as bolhas financeiras, até que tudo fosse para o espaço, deixando tremendo buraco negro.

Montanha de créditos podres

Petry não consegue desbancar Marx, com toda a sua pretensão. O que se vê é justamente a confirmação de Marx. Os desempregados estão sendo expulsos porque a incompatibilidade entre o desenvolvimento das forças produtivas e as relações sociais da produção, sob acumulação especulativa, evidenciou-se, claramente, entrando em cena, para demonstrar a grande contradição capitalista, cantada em prosa e verso pelo autor de O Capital, escrito com a ajuda da Ciência da Lógica, de Hegel, como confessa o próprio Karl.

A prosperidade da massa, referenciada por Petry, parece ser, nos escritos do repórter historicamente mal formado nos ensinamentos da dialética, um fator definitivo, e não um fato histórico social sujeito às mudanças impostas pela lógica da acumulação capitalista que, num pólo, gera sobreacumulação, e em outro, exclusão, cuja interatividade antagônica, em movimento, caminha para sua superação dialética.

Os milhões de desempregados que a crise produz, na Europa, nos Estados Unidos, nos países asiáticos e na periferia capitalista da América do Sul, viram sua prosperidade demonstrar ser efêmera como efêmera demonstrou ser a moeda especulativa que estava bombando tal prosperidade até que implodisse a montanha fantástica de créditos podres, responsável por dinamizar o capitalismo sem o concurso preferencial do trabalho, visto que este fora ultrapassado pela especulação na tarefa de reprodução ampliada do capital.

Única certeza é a mudança

Marx já previra que o capitalismo desenvolveria ao máximo as forças produtivas, entraria na senilidade e passaria a desenvolver as forças destrutivas, na guerra, mediante moeda papel alavancada não mais pelas reservas de ouro, mas na confiança abstrata do poder do Estado, que passa a ser, com a moeda que emite, capital, poder sobre coisas e pessoas. É essa moeda abstrata que dinamizou o mundo tortuosamente, em meio às guerras, durante todo o século 20, até demonstrar a emergência de suas contradições em forma de fantásticos déficits cuja expansão gerou desconfianças generalizadas.

A reunião do G-20 demonstrou a disposição dos governos reconhecerem seus limites e, por isso, convocaram o FMI para endividar-se e promover a inflação desenvolvimentista no lugar deles, para evitar, nos respectivos Estados nacionais, falidos financeiramente, a explosão da luta de classes como resultado da incompatibilidade levantada por Marx de descontinuidade dialética entre o desenvolvimento largo das forças produtivas, impulsionadas pela ciência e a tecnologia, a serviço da produção, e as relações sociais da produção, articuladas para atender interesses estreitos de classe.

As massas, pelo andar da carruagem, parecem não estar satisfeitas, com a sua prosperidade interrompida, em perceberem que são frutos do progresso histórico social – que não é petryficado, mas dinâmico. A única certeza é a mudança. ‘Tudo muda, só não muda a lei do movimento, segundo a qual tudo muda’ (Hegel). Confirma-se a previsão que Petry não quer ver. O pior cego… Viva a Veja que não vê.

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Jornalista, Brasília, DF

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