Domingo, 22 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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IMPRENSA EM QUESTãO >

A vida de um fuçador de notícias

Por Kevin Baker em 17/05/2011 na edição 642

Ele conhecia todo mundo e ia para toda parte. Foi confidente de presidentes, mentor de dois dos mais influentes jornalistas da história dos Estados Unidos, amigo de industriais, artistas, militantes políticos, comunistas e boêmios. Dizia que passara o resto de sua vida pós-universitária ‘desaprendendo’ tudo o que lhe haviam ensinado. Ele percebia todas as falsas aparências, os ardis e as mentiras – mesmo as que contava a si próprio – até que, no final, foi enganado pela maior de todas.

Atualmente, Lincoln Steffens não é muito lembrado, embora a envolvente biografia de Peter Hartshorn – I have seen the future – deixe claro por que deveria ser. Como um dos fuçadores originais, Steffens escrevia revelações para jornais e revistas que davam ao jornalismo um novo objetivo, uma voz na democracia norte-americana para lá da simples aceitação de um lado ou do outro.

Nascido em 1886, filho de um empresário rico – uma das residências da família viria a ser a mansão do governador da Califórnia –, Steffens passou uma infância idílica explorando os arredores de Sacramento montado em seu querido pônei. Foi educado, desde cedo, nas coisas do mundo, descobrindo que as corridas de cavalos em que seu pai apostava eram ‘arranjadas’ para se tirar vantagem dos otários. Embora gostasse de seu pai, ‘não dava a mínima para otários’ – e decidiu que jamais seria um deles.

No lugar certo, na hora certa

Após conseguir a graduação (e uma noiva secreta) em Berkeley – ‘É possível conseguir educação numa universidade. Isso já foi feito; mas não é comum’ – Steffens persuadiu seu pai a mandá-lo à Europa para três anos de estudo de filosofia, ética, história da arte e ciência. Aplicado, lia de tudo e estudou em universidades da Alemanha e da França. Mas, também aqui, ficou frustrado com seus professores: ‘Eles não concordavam sobre o que era o conhecimento, nem sobre o que era bom ou ruim, nem porquê.’ De volta aos Estados Unidos com um baú cheio de roupas inglesas, ‘um ensaio do tamanho de um livro sobre ética’ uma jovem (e secreta) esposa e vagas intenções de se tornar um empresário, o jovem Steffens, de 26 anos, tomou um susto ao receber uma carta de seu pai com cem dólares e a ordem de ‘ficar em Nova York e se virar’ até aprender o ‘lado prático’ da vida.

Foi assim que ele se fez. Virando-se desesperadamente, orgulhoso demais para dizer à família que tinha casado, descolou trabalho como repórter do New York Evening Post, onde aprendeu as manhas de Wall Street e das favelas de imigrantes do Lower East Side e ganhou a amizade de um jovem e truculento corregedor de polícia chamado Theodore Roosevelt. Aprendeu a escrever e investir e, em nove anos, transformou-se no editor administrativo da McClure´s, uma das mais populares e respeitadas revistas do país.

Como sempre, estava no lugar certo, na hora certa. O volúvel Sam McClure estava transformando a publicação que trazia seu nome numa revista que iria rip the veil da vida norte-americana, forçando os leitores a se confrontarem com a corrupção que encharcara todos os cantos de sua democracia. Apenas a edição de janeiro de 1903 trazia um capítulo de Ida Tarbell sobre a história revolucionária da Standard Oil Company; uma matéria de Ray Stannard Baker sobre uma greve de mineiros na Pensilvânia; e uma investigação do próprio Steffens sobre corrupção política em Mineápolis.

Um homenzinho delicado e cômico

Nunca ninguém fizera esse tipo de jornalismo. McClure abordou os monopólios das corporações e as engrenagens políticas, as péssimas condições em que vivia e trabalhava a maioria dos norte-americanos, a comida infecta e a água contaminada que comiam e bebiam. O público devorava a revista, ainda que reclamando por matérias mais ‘positivas’. (Mas não era o caso. Um livro que Steffens escreveu especificamente sobre campanhas de reformadores, Upbuilders, vendeu toda sua tiragem de 684 exemplares no primeiro ano.)

Steffens queria ir além da simples ideia de que ‘os males políticos se deviam a algum tipo de homens maus e eram sanáveis se estes fossem substituídos por homens bons’. Trabalhando constantemente, viajando sem parar, ele visitou uma cidade após outra, tentando decifrar como todo o sistema funcionava – tanto por que ele era corrupto, quanto como. Se pôs ao trabalho com uma inteligência penetrante, uma grande solidariedade humana e um jeito especial para criar frases; seria possível escrever livros inteiros com seus aforismos: ‘Nunca mais fui confundido com um homem honesto por um malandro’; ‘As pessoas pedem aos políticos para serem honestos; eu peço-lhes que sirvam o público’; ‘Nada dá mais errado que o sucesso’; ‘Você não pode estuprar apenas um pouco’.

Naqueles tempos maravilhosos, antes dos especialistas em relações públicas, ele tinha a fascinante habilidade de conseguir que qualquer pessoa se abrisse com ele, inclusive os seus objetivos – o barão madeireiro Frederick Weyerhaeuser, assim como o chefão da Tammany Richard Croker, ou o magnata dos jornais William Randolph Hearst, o qual, segundo Hartshorn, disse que Steffens foi ‘o entrevistador mais eficiente que teve pela frente’. Havia algo de irresistível neste homenzinho delicado, cômico e que, segundo Malcolm Cowley, ‘parecia a versão de um cartunista de um artista dândi francês’.

‘Eu vi o futuro e ele funciona’

Ele consegui manter a amizade com Roosevelt e, depois, Woodrow Wilson, mesmo quando lhes disse que estavam errados – o que não é pouca coisa. Seus afilhados incluíam John Reed e Walter Lippman; seus amigos, o ator James Cagney e James Joyce. Ele sempre parecia estar onde as coisas aconteciam: com boêmios mais jovens no salão Mabel Dodge, na Greenwich Village; ou com os expatriados da geração perdida na França, após a I Guerra Mundial. Quando Hadley Richardson perdeu todos os manuscritos que pertenciam a seu marido, Ernest Hemingway, ela os tinha levado para Lausanne, para uma leitura minuciosa por parte de Steffen.

Nessa época, ele já lamentava seu passado. Os fuçadores haviam conseguido coisas fantásticas: as investigações que Steffens fizera em Wall Street, por exemplo, haviam conduzido a nada menos que o sistema do Federal Reserve (Banco Central norte-americano). Mas isso não era o suficiente. Steffens se desiludira pela pouca duração que conseguia com dados bem fuçados, pela rapidez com que reformadores eram varridos do governo, ou as reformas eram negligenciadas assim que o últimos escândalo tivesse passado. Por algum tempo, encontrou uma resposta no cristianismo – ‘A doutrina de Jesus Cristo é a propaganda mais revolucionária que encontrei até hoje’ – embora se lamentasse – ‘Nunca ouvi a pregação de um sermão numa igreja.’ Ainda mais desiludido com a contínua violência entre trabalho e capital, com a matança da I Guerra Mundial e com a colcha de retalhos que foi o tratado de paz de Versalhes, ele retomou sua velha busca pela certeza, por ‘fatos de valor científico’ que resolvessem todos os problemas sociais.

E ele fez sua escolha. A política ‘científica’ estava disponível entre as duas guerras. Intrigado com Mussolini, Steffens foi cativado por Lênin, que ele entrevistou rapidamente durante a revolução. Tornou-se um dos primeiros daquele triste bando de intelectuais ocidentais a cair de joelhos diante da União Soviética. Ao contrário da maioria deles, não negou os relatos de atrocidades que vazavam do paraíso proletário. E pior: ele simplesmente achava isso necessário para gerar as grandes mudanças que viriam. Nunca recuou de sua primeira e infame impressão da URSS: ‘Eu vi o futuro e ele funciona.’ Vivendo uma vida confortável com o dinheiro que ganhava de ações aplicadas, insistia que ‘nada deve abalar nossa perfeita lealdade ao partido e a seus líderes’ e que ‘a noção de liberdade é falsa, é uma ressaca da nossa tirania ocidental’.

Uma biografia prodigiosa

Essa posição olímpica revelava um traço frio em sua natureza calorosa, algo que também estava presente na forma emocionalmente sádica com que tratava as mulheres. Quando procurava um apartamento para dividir com Steffens, uma de suas amantes ficou chocada ao encontrá-lo fazendo precisamente a mesma coisa – com outra mulher. ‘Será que eu sou amoral? Não sei. Mas tenho certeza de que posso ser cruel com as pessoas que me amam’, confessou a um amigo. ‘Não consigo compreender a mim mesmo.’

Revelações desse tipo talvez o tenham informado que nenhum sistema – científico ou de qualquer outro gênero – mudaria a natureza da essência humana. Mas, como qualquer otário, Steffens não conseguia se livrar de seus delírios. Tinha a sorte de poucos lhe darem atenção. Hartshorn avalia que seu apoio cego aos comunistas, embora revoltante, não deveria divergir ‘da influência significativa que ele teve tanto na profissão de jornalismo, quanto na natureza do governo nos Estados Unidos’. Ele não só tem razão, como, em apoio a essa opinião, produziu uma biografia prodigiosamente pesquisada, fantasticamente interessante e extremamente bem escrita. Steffens teria ficado gratificado com a forma pela qual Hartshorn o virou pelo avesso.

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