Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

IMPRENSA EM QUESTãO > COMO O OFF VIROU ON

A vingança das aspas

Por Alberto Dines em 17/02/2004 na edição 264

O presidente Lula estava em falta com a imprensa: em um ano de mandato apenas dois encontros formais no Palácio do Planalto e os desencontros nas sucessivas viagens ao exterior com os repórteres severamente vigiados pelos assessores de imprensa.

Premido pela insistência dos ‘nomões’ da crônica política e, talvez, inspirado pelo número de briefings que o presidente George W. Bush oferece aos repórteres que cobrem a Casa Branca, o presidente autorizou um encontro ‘informal’ com 15 jornalistas sediados em Brasília na noite de quarta-feira, 11/2.

Até aí, tudo bem. O resto dos procedimentos foram de mentirinha. A começar pela escolha do local. Não se sabe de quem a idéia estapafúrdia de que um briefing do presidente precisa ser obrigatoriamente realizado fora das dependências da Presidência.

Depois de descartar outros ambientes ‘neutros’, chegou-se à conclusão simplista que o briefing do presidente da República só poderia realizar-se na casa de um(a) jornalista, e escolheu-se a residência de Teresa Cruvinel, do Globo, seguramente pelos critérios de tamanho e conforto.

Sem discutir estes critérios e/ou a simpatia da anfitriã, o raciocínio não faz sentido algum. Mesmo num briefing a relação do jornalista com a fonte deve ser estritamente profissional. É o compromisso do jornalista em não utilizar as declarações como declarações que caracteriza a informalidade do encontro – e não a hora ou o local onde se realiza. E este compromisso é formalíssimo, protocolar, rigoroso.

É muito mais apropriado que um briefing oferecido por uma alta autoridade seja realizado nos ambientes onde esta autoridade opera do que forçar uma intimidade por todos os aspectos indesejável e imprópria.

Em grande estilo

A idéia dos comes & bebes foi igualmente desastrada e só contribui para aumentar o fingimento que envolve o episódio. Quem pagou a conta? A anfitriã ou foi uma ‘vaquinha’ repartida entre os jornalistas e suas sete empresas? E se a Presidência da República pagou a conta? Fica bem para os convivas? E os leitores, o que acharão deste faz-de-conta?

A verdade tarda mas não falha, como diz sabiamente o povo aos donos da verdade: a trapalhada da conversa informal autodesmascarou-se. Primeiro porque um briefing não deve ser noticiado. É um não-evento. E quando converte-se em fato público cria a obrigação de ser reportado integralmente, sem firulas ou disfarces.

O mais importante é que, por sua natureza, o briefing serve para oferecer referências e background, preservando-se a fonte e evitando-se as citações. Por isso, evitam-se gravadores e blocos de notas.

Mas tantos foram os truques daquela noitada que nas edições da sexta-feira pareceu a todos que o presidente, afinal, concedeu uma entrevista coletiva em grande estilo. Verdadeira festa declaratória, as aspas venceram todas as tentativas de suprimi-las e apareceram triunfais em todas as matérias. Menos no texto da anfitriã, que preferiu o travessão do texto falado e identificado. [Matéria fechada às 22 horas de 15/2]

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