Sexta-feira, 22 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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IMPRENSA EM QUESTãO >

A voz da moderação

Por Matías M. Molina em 27/06/2011 na edição 648

Na noite de 8 de novembro de 1832, Evaristo da Veiga, redator de A Aurora Fluminense, estava na livraria de seu irmão João Pedro, depois do jantar, conversando com amigos, quando foi alvejado por tiros de pistola. Um pedaço de chumbo atingiu-lhe o rosto, “pouco abaixo do olho esquerdo”. Outras três pessoas ficaram feridas, uma delas com “dois quartos de bala na cabeça”, outra com 14 bagos de chumbo e outra recebeu “duas feridas no peito, outras duas numa mão e sobre o olho”. Segundo Evaristo, “os tiros não aprofundaram, talvez em razão de ser a pistola carregada em demasia”. Ferido, ele pediu um livro e disse: “Bom, não estou cego, ainda posso ler.” O atentado causou consternação no Rio.

Mas não em alguns jornais. O Martelo, folha vinculada aos irmãos Andradas, lamentou a má pontaria do atirador:

“Deu-se um tiro no Evaristo,

No livreiro deputado,

Muito mal feito foi isto!

Foi tiro muito mal dado!”

No mês anterior, O Martelo chamara Evaristo de “insolente”, “atrevido”, “livreiro energúmeno e desprezível”, lamentando que ainda houvesse “incautos a quem ele, com seus escritos hipócritas e contraditórios, arraste, como carneiros, para o lado que segundo seus interesses particulares e os da sua súcia moderada lhe convém”. Não se sabe quem escrevia o jornal. Seu redator “ficou hidrófobo quando pretenderam descobrir-lhe a identidade”, diz Gondim da Fonseca.

Alvo de insultos

Evaristo da Veiga foi o alvo predileto dos insultos e ameaças dos conservadores, principalmente dos jornais próximos aos irmãos Andradas. O Caramuru, outro jornal ligado aos Andradas, também lastimou que Evaristo tivesse escapado e tentou pôr a culpa do atentado na própria vítima: “Fora o mesmo sr. Evaristo quem o mandara perpetrar, recomendando que o fizessem de forma que o não ofendessem a fim de ter também uma razão para alegar contra os partidos que diariamente têm sido assassinados pelos jacobinos.” Acrescentava que Evaristo “não respeita a honra, nem as virtudes, nem o saber”. A seguir, dizia que “parece observar-se um geral sentimento em não se haver cumprido o assassínio!” (…) e que em quase toda a população “se tem desenvolvido indignação contra os que prenderam o assassino!” (Assassino, na linguagem da época, era sinônimo de criminoso.) Em outro número, o jornal afirmou que o descomedimento e mesmo insolência da Aurora Fluminense “lhe devem ter ganhado o ódio e indignação de muitos, como de fato acontece”. Antes do atentado, O Caramuru tinha dito de Evaristo que era “livreiro mal encarado, com olhar de porco”.

O autor do atentado, um sapateiro, foi preso e indicou o coronel Ornellas, amigo de José Bonifácio, como a pessoa que o tinha contratado indiretamente. Instaurado o processo, o advogado do coronel foi o desembargador Japiassu, o mesmo envolvido no assassinato de Libero Badaró. O processo não deu em nada.

Evaristo, que era a figura mais importante do Partido Moderado, nos primeiros anos da Regência, durante a minoridade de d. Pedro, e seu jornal, o mais influente do período, foi o alvo predileto dos insultos e ameaças dos “caramurus”, os conservadores, principalmente dos jornais próximos a José Bonifácio de Andrada e Silva e seus irmãos Martim Francisco e Antonio Carlos. Os indícios, aparentemente, apontavam para os irmãos como mandantes do atentado. Evaristo não acreditou na cumplicidade de José Bonifácio: “Não o temos por feroz e perverso. (…) Mas o sr. Martim Francisco, cuja alma rancorosa todos conhecem, temos mais de uma razão para suspeitá-lo.” Segundo Octávio Tarquínio de Sousa, essas suspeitas tinham pouco fundamento. O assunto foi logo esquecido. O episódio é um indício da violência da vida política e da linguagem sem freios da imprensa da época.

Hino à Independência

Evaristo Ferreira da Veiga era filho e irmão de livreiro. Seu pai, Francisco Luís Saturnino da Veiga, morou um tempo em Vila Rica, a capital de Minas Gerais, e teria tido algum contato com os inconfidentes. No Rio, abriu uma livraria. Evaristo aprendeu latim, francês, inglês e italiano, mas não chegou a estudar em Coimbra, como sonhara. Sua “universidade” seria a livraria do pai. Numa referência maliciosa à sua falta de estudo superior, O Martelo escreveria: “Possuímos um Franklin, a quem só falta o título de doutor.” O pai ajudou Evaristo e seu irmão maior a abrir outra livraria, a João Pedro da Veiga & Comp., em 1823. Ele teria seu próprio negócio, a Evaristo da Veiga & Comp., em 1827, ao comprar a livraria Bompard, que se tornaria a maior do Rio de Janeiro.

Como Hipólito José da Costa, a quem foi comparado, Evaristo defendia a união do Brasil e Portugal e combateu a Revolução de Pernambuco de 1817. Depositou grandes esperanças nas mudanças liberais iniciadas com a Revolução do Porto em 1830, mas as resoluções das Cortes de Lisboa, que fariam o Brasil voltar à condição de colônia, foram decisivas para levá-lo à construção de um ideário segundo o qual, politicamente, o país deveria ter como pilares a monarquia constitucional, a liberdade individual e a liberdade de imprensa.

Evaristo, que era poeta bissexto, foi autor, em agosto de 1822, do “Hymno Constitucional Braziliense”, conhecido como “Brava gente brasileira”. D. Pedro fez uma das músicas; o maestro Marcos Portugal, outra. Atualmente, é conhecido como Hino à Independência. Foi o Hino Nacional até 1922 – exatamente um século depois de Evaristo ter escrito a letra –, quando foi oficialmente substituído pelo atual, com música de Francisco Manuel da Silva e letra de Joaquim Osório Duque Estrada.

Fim da escravidão, reforma agrária e educação

O papel da Aurora Fluminense, com sua apreciação serena do período, foi crucial para se evitarem graves conflitos e a desintegração do país. O visconde de Cairu, sempre disposto a agradar à realeza, afirmou que o autor da letra do hino fora d. Pedro, ao que Evaristo respondeu dizendo que “esse hino é saído do humilde balcão e produção mesquinha de nossa mocidade”.

Segundo Juarez Bahia, Evaristo interessou-se pelo jornalismo ao visitar, ainda menino, as oficinas da Impressão Régia. A Aurora Fluminense foi fundada em 21 de dezembro de 1827, como folha política e literária, por José Apolinário de Moraes, José Francisco Sigaud, médico francês, e Francisco Valderato. Evaristo da Veiga juntou-se mais tarde ao grupo fundador, como redator principal e depois único. O jornal esperava que o estilo e a imparcialidade da linguagem lhe assegurassem um porvir estável. Mas, assim que saiu à rua, foi atacado pela Gazeta do Brazil como uma “fedorenta sentina da demagogia e do jacobinismo”. Como disse Octávio Tarquínio de Sousa, a imprensa do Rio era, quase sem exceção, a mais deplorável possível, pelo feitio pasquineiro, pelo desmando da linguagem. A Aurora destoava. Desde o começo, envolveu-se em polêmicas com os jornais absolutistas Diário Fluminense, Courier du Brésil, Analysta e Jornal do Commercio.

A Aurora tinha no começo quatro páginas, passando a seis a partir de 1830. Em 1827 era bissemanal, circulando às segundas e sextas-feiras. Em 1828, já trissemanal, saía às segundas, quartas e sextas. Custava 80 réis e a assinatura trimestral, 2 mil réis. Era impressa na Typographia do Diário do Rio, depois na Officina de R. Ogier, na Typographia Americana e, finalmente, na Imparcial, de Francisco de Paula Brito. Embora chegasse a ser, de 1831 a 1833, no período da Regência, o jornal de maior circulação do Rio, tinha poucos anúncios. O próprio Evaristo da Veiga e seu irmão, donos de livrarias e de uma tipografia, não anunciavam na Aurora, mas no Jornal do Commercio e no Diário do Rio de Janeiro. A Aurora fora concebida como um órgão de doutrinação política, não como uma folha de anúncios. Defendia o fim da escravidão, a reforma agrária e a educação. Foi continuadora – ou uma extensão, como escreve Juarez Bahia – do Correio Braziliense. Ambos fizeram uma apreciação serena de um período conturbado e de mudanças, optando pela moderação num momento em que a predominância das ideias extremas poderia levar à deflagração de graves conflitos e à desintegração do país.

Equilíbrio entre conservação e progresso

Bahia diz que A Aurora era um jornal mais simples e mais eficiente que seus concorrentes, tinha menos pretensão bacharelesca, e que a linguagem elegante, repassada de ironia, contribuiu para um padrão de estilo até então desconhecido na imprensa. Segundo Moreira de Azevedo, “em vez de divagações indiscretas e insulsas, que pejavam nos periódicos da época, lia-se naquele jornal uma linguagem expressiva, porém comedida, uma ironia frisante, porém branda, precisão e fluidez no estilo, beleza e riqueza de ideias”. Num pequeno jornal da época, Dois Compadres Liberais, pode ler-se: “Eu gosto d´Aurora, porque seu autor, além de ser muito liberal, tem firmeza de caráter em sustentar o que escreve.”

Se A Aurora seguiu uma linha independente, sem vínculos com nenhuma das facções que lutavam pelo poder, era, ao mesmo tempo, um jornal pragmático. Via a monarquia como o instrumento político que manteria o país unido, com um regime liberal. “Nada de jacobinismo de qualquer cor que ele seja. Nada de excessos. A linha está traçada – é a da Constituição. Tornar prática a Constituição que existe sobre o papel deve ser o esforço dos liberais.” E pregava: “Queremos Constituição, não queremos Revolução.”

Para Antonio Candido, Evaristo “não via outra bússola para a nação recém-criada, nem outro meio de instituir a parte de razão em face dos movimentos irregulares da sociedade em mudança”. E que ele representava, “graças a seu apego ao constitucionalismo, a forma mais adequada de transição – um dos segredos da unidade nacional”. Em relação aos liberais exaltados, afirmava: “Confundem alguns a violência, o furor com a energia, estão persuadidos que a moderação é indício de fraqueza (…) Nada mais perigoso do que semelhante doutrina, especialmente nos tempos de mudanças políticas.” Octávio Tarquínio de Sousa disse de Evaristo que era “fundamentalmente moderado, uma natureza que abomina os extremos; um indivíduo fadado à posição de equilíbrio entre a conservação e o progresso, entre a tradição e a novidade”.

Conceito de “povo”

Num dos comentários mais felizes sobre Evaristo, Antonio Candido diz que “foi o herói das virtudes medianas e ninguém justifica melhor o dito de Leopardi, segundo o qual a paciência é a mais heroica das virtudes justamente por não ter aparência alguma de heroísmo.”

Nos primeiros anos, A Aurora não atacou o imperador diretamente, mas, consequência da visível inclinação de d. Pedro por um retorno ao absolutismo e da ascensão da influência do Partido Português, houve uma polarização da vida política e um aumento da virulência da linguagem na imprensa. A Aurora não ficou alheia a essa radicalização. Depois da Noite das Garrafadas, aderiu ao movimento que pedia a abdicação de d. Pedro. Mas se opôs simultaneamente tanto aos jornais áulicos e defensores das prerrogativas dos portugueses como à imprensa dos ultraliberais.

Os portugueses tinham enorme influência na sociedade e na vida pública. Ocupavam grande número de importantes cargos públicos, dominavam parte do comércio, interferiam na política, controlavam jornais. Tudo isso talvez fosse inevitável num país que acabava de conseguir a independência. Mas predominava, entre os brasileiros, a sensação de que agiam com insolência.

Para A Aurora, o conceito de “povo” não era abrangente. Nele não se encaixava toda a população. Às vezes, é possível perceber em suas palavras um eco das ideias de seu inimigo, o reacionário visconde de Cairu. Como transcreve Marcello Basile, da Aurora e de outros jornais moderados: “Quando dizemos povo, claro que não falamos da massa ignorante, ou destituída de interesse na ordem social, que demagogos adulam, e de que fazem o objeto de suas especulações; mas sim, dos homens pensantes, honestos, e que nada tendo a ganhar na anarquia, olham todavia com justo receio para qualquer ensaio de despotismo.”

Boatos da volta de d. Pedro

Diz Basile que seu ideal de nação era um meio-termo entre o absolutismo e a anarquia, rejeitando preceitos sociais igualitários. Evaristo também relutava em aceitar a ideia de uma federação: “Os argumentos que se leem em vários jornais a favor da federação não nos parecem convincentes, nem razoáveis.” O prestígio de Evaristo se estendeu por todo o país, ao ponto de ser eleito deputado pela província de Minas Gerais, onde nunca tinha estado; na verdade, nunca tinha saído do Rio.

O confronto e a radicalização levaram o imperador a abdicar, em 7 de abril de 1831, e a retornar a Portugal. Evaristo escreveu, já sem amarras para criticar d. Pedro: “O perjuro abdicou – que se vá em paz gozar os frutos de suas traições. (…) A Constituição seja o nosso Norte; com ela tudo venceremos: prudência, concidadãos, moderação, ordem e respeito a todos os nossos chefes.”

Com a abdicação de d. Pedro e seu retorno a Portugal houve um período de indecisão e incerteza sobre o rumo que o Brasil iria tomar. Os radicais mais exaltados queriam abolir a monarquia e instalar um regime federativo e republicano, que conduziria a uma divisão do país e à instalação de várias repúblicas, como já tinham tentado fazer em 1824. Evaristo mostrava seu temor: “A república virá talvez, mas não a única da França de 1793, nem a federal da América do Norte; porém, a múltiplice, nominal, regida por inumeráveis pequenos chefes militares.” Temia repetir-se o que acontecera na América espanhola.

Os conservadores, “caramurus”, associados ao grande contingente português, formaram o Partido Restaurador, que defendia o retorno do imperador ao Brasil. Essa possibilidade não era irreal. A pressão pela volta aumentava e tinha o apoio dos Andradas. Segundo Joaquim Nabuco, a maioria do povo era caramuru. Mais de uma vez espalhou-se o boato de que d. Pedro embarcaria para o Brasil sob a proteção da esquadra inglesa e correram boatos de que ele já tinha colocado o pé no país. O espectro do retorno pairou sobre o Brasil. A Aurora escreveu que “a restauração seria ensanguentada, horrível, efêmera”. O perigo só desapareceu quando d. Pedro morreu, em dezembro de 1834. Evaristo, que tanto o combatera, foi generoso ao lembrar o monarca: “Se existimos como corpo de nação livre, se nossa terra não foi retalhada em pequenas repúblicas inimigas (…) devemo-lo muito à resolução que ele tomou de ficar entre nós, de soltar o primeiro grito de nossa independência.”

Comunhão exaltada

Ante o vazio legal e político que se abrira com a abdicação de d. Pedro, Evaristo decidiu “apoderar-se da revolução”, como escreve Octávio Tarquínio de Sousa, para impedir que “se perdesse nos abismos da dissolução social”. Ele participou ativamente da formação da Regência em suas várias etapas e apoiou o governo conservador de Feijó para garantir a manutenção da ordem. “Não consiste a liberdade – dizia – em abater por tal modo o governo que ele não possa preencher os fins para que foi instituído.” Transformou-se no líder do Partido Moderado e foi o principal articulador político durante a Regência. Dizia-se que governava o Brasil do balcão da livraria. Ele afirmava que a sua preponderância era moral e podia ser exercida por qualquer outro cidadão.

Vários líderes moderados eram ideologicamente republicanos, mas sacrificavam esse ideal para tentar instalar a ordem e manter a unidade do Brasil. Achavam que isso só seria possível com a monarquia constitucional. Antonio Candido diz que Evaristo aceitou a dinastia de Bragança para conciliar a liberdade com a exigência da ordem. E acrescenta que seu drama foi ser, no fundo, um republicano paralisado pelo reconhecimento dessa necessidade básica num momento de crise. Gondim da Fonseca acredita que sem Evaristo o Brasil poderia ter-se esfacelado: “Evaristo soldou o Brasil, que, sem ele, teria talvez se desfeito em cacos depois de 1831.”

Até 1831, A Aurora tinha defendido a centralização do poder. Era contrário a estabelecer-se uma federação, por achar que poderia levar à separação das províncias, transformadas em repúblicas independentes; houve momentos em que federalismo era sinônimo de republicanismo. Mas, a partir daquela data, aceitou a federação, devido à disseminação da ideia e à sua aceitação geral.

Ao adotar uma posição moderada, de centro, Evaristo foi combatido pelas duas facções. A Aurora foi o alvo predileto dos insultos dos jornais conservadores. Mas participou também dos excessos da época. Numa espécie de autocrítica, Evaristo escreveu: “A maior parte dos jornais que possuímos (e nesta parte também nos confessamos culpados ou arrastados pela força da torrente) mais invectivam que argumentam os nomes próprios e não as doutrinas enchem quase todas as páginas. Conhecemos que esse vício é ainda mais notável nas folhas que pertencem à comunhão exaltada, porém não são isentos de tal censura os periódicos da moderação.”

“Oráculo do poder”

Gondim da Fonseca chega a comentar que a moderação de Evaristo foi tão violenta quanto a exaltação dos exaltados. E transcreve, como exemplo, um artigo de ataque da Aurora, em 1832, ao imperador, cujo retorno era esperado pelos caramurus: “Queréis ver os brasões de D. Pedro e sua gente? Lembrai-vos: a traição da Praça do Comércio; iníquas perseguições de muitos patriotas; a dissolução da Assembléia, o desterro de alguns, e insultos em um Decreto a todos os deputados; a usurpação do poder soberano e constituinte da nação; sangue derramado em quase todo o império por meio das comissões militares; os estragos da guerra sobre muitas províncias; o assassinato jurídico de Radcliff encomendado a seus algozes de toga.” Continua com uma longa lista de acusações, entre as quais “o extermínio de mais de três mil recrutas do infeliz Ceará; a mortandade de presos do Ceará em porões de navios”, e entra na vida pessoal do imperador, ao mencionar “os tormentos e morte da virtuosa Imperatriz Leopoldina; o adultério, a violação, a mais nojenta prostituição em seus palácios”. Conclui: “Eis uma resumida resenha dos títulos que tem D. Pedro à nossa gratidão.”

Numa curiosa visão de suas responsabilidades como jornalista e como deputado, Evaristo explicou que, em certa ocasião, escrevera como jornalista contra um determinado político, em função de rumores e boatos, com base nos “diz-se”, “conta-se”, mas que, como legislador, necessitava “de provas e não de simples suspeitas” contra ele e que só poderia decidir com provas, testemunhos e documentos. Explicava que “onde há sistema representativo e imprensa livre, os periódicos ainda os mais seguidos são órgãos dos boatos acreditados e podem emitir com toda a franqueza o seu voto singular, a opinião de deduzirem das aparências das coincidências, das possibilidades”, e reconhecia: “Nunca tive aquela certeza que deve ter o juiz, o legislador.” Evaristo via sua função na imprensa como um analista e comentarista de informações de domínio público – às vezes, de origem duvidosa –, não como um repórter preocupado com a precisão da informação.

Nesse período, A Aurora era o jornal mais vendido no Rio e o mais influente. Joaquim Nabuco disse que “Evaristo, na imprensa, fez a Regência e Ruy fará a República”. E também que Evaristo exercia então uma ditadura da opinião, com o que concorda Gondim da Fonseca, acrescentando que “a exercia pela coação do talento”. Para Homem de Mello, ele foi “oráculo do poder, quase árbitro da situação”.

“Evaristo morreu de uma paixão generosa”

De novo, um membro da família real, desta vez o menino de cinco anos Pedro de Alcântara, o futuro imperador, personificava “o símbolo da união e da integridade” do Brasil. Gondim da Fonseca considera Evaristo o maior jornalista brasileiro, pela ação que desenvolveu naquele período, ao combater sem ódio e sem transigência de princípios os homens da extrema-esquerda e da extrema-direita, “e batendo-se corajosamente contra os que incitavam certos vagabundos a matá-lo”.

Em 1833, Evaristo não conseguiu se reeleger. Atacado por vários lados, cansado, fechou A Aurora. A última edição, número 1.136, circulou em 30 de dezembro de 1835 com um artigo assinado por ele, o primeiro desde que o jornal fora fundado. Escreveu: “Mas se os nossos juízos, uma ou outra vez têm sido inexatos ou apaixonados, nunca (e em voz alta o dizemos), nunca tivemos a intenção de caluniar ainda os mais rancorosos inimigos, jamais descemos a lançar mão desse meio abominável, e que nenhumas circunstâncias justificam. Nas polêmicas contra o Aurora Fluminense se tem sustentado, a nossa vida privada, os nossos hábitos externos, as nossas relações mais queridas, foram dilaceradas por um modo indigno e que não podia deixar de exacerbar o coração mais frio. Nunca pagamos na mesma moeda.”

Foi eleito deputado em 1836. Morreu antes de completar 38 anos. Para o Correio Official, ele foi o “Franklin brasileiro”. E o Jornal de Debates escreveu: “Evaristo morreu de uma paixão generosa”. Segundo João Ribeiro, “de todos [os órgãos da imprensa], porém, aquele que maior influxo exerceu foi A Aurora Fluminense, de Evaristo da Veiga, o maior de nossos antigos escritores de imprensa”.

***

[Matías M. Molina é jornalista e autor de Os Melhores Jornais do Mundo]

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