Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1024
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A voz das ruas

Por Luciano Martins Costa em 07/08/2009 na edição 549

Chama-se Breno Santa Cruz Freitas, é funcionário do Banco Central e tem 37 anos, segundo o Globo, o cidadão que foi detido pela polícia do Congresso por haver chamado o senador José Sarney de ‘ladrão’. Ele pode ser indiciado por injúria e desacato a autoridade.


Breno se encontrava no corredor quando o presidente do Senado passava entre seu gabinete e a entrada do plenário, por volta das 18h20 de quinta-feira (6/8), logo após o espetáculo de troca de ofensas entres os senadores Renan Calheiros e Tasso Jereissati. Sarney teria ouvido o xingamento e pediu que os seguranças detivessem o servidor.


Convém guardar bem esse nome. Quando os políticos voltarem a se entender e as baixarias desta semana se transformarem em rapapés entre suas excelências, Breno poderá ser registrado como o único condenado em todo esse escândalo que já ocupa mais da metade do ano legislativo.


‘A natureza floresce’


As editorias de Política dos jornais de sexta-feira (7/8) se ocupam quase exclusivamente da discussão entre Renan e Tasso, que por pouco não degenerou em briga de rua. O resto do espaço é ocupado pelas mesmas denúncias, requentadas, que se acumulam contra José Sarney. Mas não há fatos novos que indiquem qualquer possibilidade de mudança no cenário.


A cada debate, a cada troca de insultos, o eleitor vai sendo informado de que as irregularidades não se restringem a este ou aquele partido, e se vai consolidando a sensação de que a mais importante instância do Poder Legislativo já não honra as tradições republicanas. A tese do fechamento do Senado ganha força entre os analistas da cena política.


O senador José Sarney não parece preocupado com essa questão. Em seu artigo desta semana na Folha de S.Paulo, que o mantém como colunista às sextas-feiras, ele emite sinais sobre o que pensa da política, dizendo não acreditar no conceito de classes sociais. Afirma que ‘a democracia representativa já era’, desdenha do que venha a ser ‘a voz das ruas’ e observa que o conflito político passou da guerra de classes para a guerra da mídia, onde o maior poder está na internet.


Para se ter uma idéia do estado de espírito do presidente do Senado, basta observar como ele encerra seu artigo: ‘Enquanto discutimos essas coisas, a natureza floresce e Brasília está linda, os paus d´arco em flor’.


Se não crê na ‘voz das ruas’, talvez Sarney devesse prestar atenção na voz de Breno Santa Cruz, que, segundo consta, o chamou de ladrão.

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