Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > MÍDIA & ELEIÇÕES

A zebra da boca-de-urna

Por Carlos Castilho em 09/11/2004 na edição 302

Os blogs estavam preparados para um grande show de vitalidade jornalística durante as eleições presidenciais americanas do dia 2 de novembro, mas o esforço acabou ofuscado completamente por uma embaraçosa trapalhada na divulgação antecipada dos resultados das pesquisas de boca-de-urna.

Ao meio-dia do dia da votação, um grupo de blogs teve acesso extra-oficial a resultados de sondagens feitas nos locais de votação pelo National Electoral Pool, consórcio eleitoral nacional (http://www.exit-poll.net/pool.html), uma organização formada pelas mais importantes cadeias de TV e pela agência Associated Press com o objetivo de uniformizar os procedimentos técnicos sobre as pesquisas de boca-de-urna. As projeções indicavam uma vitória do democrata John Kerry por 51% dos votos.

As revistas online Slate (http://slate.msn.com/) e Drudge Report (http://www.drudgereport.com/) , bem como três dos mais influentes blogs políticos dos Estados Unidos foram rápidos no gatilho e anunciaram a derrota de George W. Bush com base em dados do NEP, sem que até hoje se saiba como eles os conseguiram.

O vexame se configurou logo depois, quando as apurações mostraram que a boca-de-urna estava completamente errada, especialmente nos estados da Flórida, Ohio e Michigan, considerados chaves para a definição do pleito.

O curioso foi que as cinco redes de televisão e mais a Associated Press não divulgaram imediatamente o resultado da pesquisa de boca-de-urna feita pelo NEP, apesar de terem acesso exclusivo aos números. A explicação oficial foi de que o grupo estava escaldado pelos fiascos de antecipações equivocadas feitas nas eleições de 2000 e 2002, nos Estados Unidos, e preferiu esperar um pouco antes de anunciar um possível ganhador.

Surgiram também boatos de que, para não serem furados, os compradores da pesquisa de boca-de-urna teriam deixado vazar resultados falsos para enganar os concorrentes e blogs. É a teoria da casca de banana que, independentemente de sua veracidade, acabou funcionando.

Água gelada

As grandes redes de televisão primeiro protestaram e, depois, tripudiaram sobre o erro dos blogs. Frank Barnako, comentarista econômico da rede CBS (http://cbs.marketwatch.com) , gozou as desgraças alheias afirmando que ‘os blogs tiveram nas eleições da semana passada uma importância igual à do candidato independente Ralph Nader – ou seja, nenhuma’.

Ironias à parte, a trapalhada da boca-de-urna repercutiu na Bolsa de Nova York, que sofreu uma queda inesperada em conseqüência da boataria gerada pela suposta reviravolta eleitoral de John Kerry.

Para os jornalistas e não jornalistas que editam blogs nos Estados Unidos, a experiência não foi nada agradável porque ficaram expostos ao ridículo e tiveram sua credibilidade questionada.

Com ou sem maquiavelismo no vazamento dos números errados da boca-de-urna, o certo é que os blogueiros profissionais e amadores experimentaram na própria carne os efeitos da pressa, da improvisação e da irresponsabilidade informativa na tentativa de furar os concorrentes.

Foi um balde de água fria também nos leitores de blogs político-eleitorais, que correram em massa para sites de fofocas políticas como o Wonkette (www.wonkette.com) e para o conservador National Review Online (http://www.nationalreview.com/), cujos servidores entraram em colapso por causa da avalancha de visitas no dia da eleição presidencial americana. O blog liberal Daily Kos (www.dailykos.com) chegou a receber cinco milhões de acessos em pouco mais de uma hora.

Prova de recuperação

O interessante é que não houve coloração ideológica entre os blogs americanos na repartição das culpas pelo episódio da divulgação dos equívocos sobre a boca-de-urna. Os liberais, como o Daily Kos e o Talking Point Memo (http://www.talkingpointsmemo.com) foram tão apressados quanto os conservadores Instapundit (http://instapundit.com/), Power Line (http://www.powerlineblog.com/) e National Review, que a contragosto aderiram à correria pelo privilégio de furar a grande imprensa.

A propósito, os blogs conservadores deram um grande pulo no ranking de popularidade divulgado pelo The True Laid Bear (http://www.truthlaidbear.com/mt-tb.cgi?__mode=view&entry_id=1570). Entre os cinco mais acessados encontram-se três pró-Bush, entre eles o Instapundit, campeão absoluto de visitas, e dois pró-Kerry.

A zebra da boca-de-urna nas eleições americanas tirou um pouco do charme de um novo meio de comunicação que, mesmo depois do tropeço, ainda é considerado o fenômeno jornalístico de 2004. Mas, em vez de festejar, os blogueiros que trabalham com notícias terão que fazer uma prova de recuperação na disciplina credibilidade, principalmente no quesito responsabilidade social da informação.

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Jornalista e pesquisador de mídia eletrônica (ccastilho@gmail.com)

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