A agenda pobre dos jornais | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
Menu

IMPRENSA EM QUESTãO > NOTÍCIAS DO BRAZIL

A agenda pobre dos jornais

Por Luciano Martins Costa em 23/05/2008 na edição 486

O prêmio Nobel de Economia de 2001, o americano Michael Spence, declarou que o Brasil vai liderar o surgimento na América Latina de um período de alto crescimento sustentado. A notícia ganhou mais espaço em boletins eletrônicos de bancos e corretoras do que nos jornais de papel ou em seus sites na internet.


A declaração do economista foi na quarta-feira (21), em Londres, durante a apresentação de um relatório sobre estratégias de crescimento sustentável e desenvolvimento inclusivo. O evento não despertou o menor interesse da imprensa brasileira. Pois deveria.


O estudo resumido por Michael Spence situa o Brasil numa encruzilhada que pode definir se entra definitivamente no rol das nações desenvolvidas ou se vai ficar mais um século olhando para algum ponto no futuro.


A Comissão de Crescimento e Desenvolvimento, um centro de estudos independente formado por especialistas, empresários e representantes de governos, é considerada uma provável sucessora do Clube de Roma, fórum criado em 1968 para debater a solução de roblemas mundiais. Sugiu em 2006, dirigida pelo próprio Spence, mas ainda não entrou na agenda dos editores brasileiros.


O que mostra o estudo é que o Brasil é um dos países com maior capacidade para produzir surtos de crescimento rápido, devido a determinadas características de sua economia, de seu território e de sua população. No entanto, historicamente, o país não tem sido capaz de manter por longos períodos esse crescimento, por motivos que não são difíceis de avaliar.


Políticas públicas


O relatório observa, por exemplo, que o Brasil foi um dos primeiros países a produzir um crescimento alto e sustentado no pós-guerra, acelerando sua economia nos anos 1950, mas perdeu seu ímpeto nos anos 1980, por causa do alto endividamento e inflação elevada.


Michel Spence ressalta que, neste início do século 21, o Brasil tem a inflação sob controle e resolveu o problema da dívida, criando condições para investimentos em infra-estrutura e para a formação de uma poupança sólida, condições importantes para a sustentabilidade do seu crescimento.


Essas observações são essenciais para o entendimento do noticiário econômico que recebemos todos os dias, e também para a formação de uma opinião do cidadão sobre as políticas públicas que são discutidas pela imprensa. Mas a agenda dos jornais é bem mais pobre.


Uma floresta no caminho


O debate sobre desenvolvimento na imprensa brasileira ainda está longe de amadurecer. Basta folhear os jornais, mesmo os especializados em economia, para observar que a imprensa ainda fala em ‘crescimento econômico’, como se ignorasse a tendência mundial de identificar o desenvolvimento sustentável como objetivo estratégico.


A conciliação entre crescimento econômico, preservação ambiental e resgate social é a síntese dessa tendência, que a imprensa nacional parece ignorar ou desprezar.


Uma frase publicada na sexta-feira (23) no jornal O Estado de S.Paulo resume claramente o que pensam dirigentes públicos e, por conseguinte, o que sai na imprensa. Ela foi dita pelo governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, ao afirmar que não vai ceder policiais para a anunciada criação da Força Nacional de Segurança Ambiental.
Maggi disse: ‘Já tenho pouco efetivo para cuidar do povo, não tenho soldados para proteger a floresta’.


Maggi, como a maioria dos políticos brasileiros e a imprensa, entende que a proteção da floresta não tem relação com a defesa da população. Mais grave: ele e muitos outros dirigentes públicos acham que a floresta é um entrave no caminho do desenvolvimento.


Essa parece ser a principal limitação do noticiário que recebemos todos os dias: o debate sobre a questão ambiental vem separado do noticiário econômico, que parece não ter nada a ver com a política, onde amadurecem as políticas públicas que definem a economia.


As notícias sobre a questão ambiental, que envolve o destino das populações indígenas, chegam apartadas do noticiário sobre os conflitos agrários e a política agrícola – e não se pode formar uma opinião adequada sobre um tema sem levar em conta os demais.


O noticiário fragmentado também faz com que a imprensa não preste atenção em novos indicadores econômicos que não cabem nas planilhas tradicionais dos economistas. A visão dos jornais ainda se prende à superada relação custo-benefício financeira. Nessa conta, quem perde é o leitor.

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/05/2008 Marco Antônio Leite

    De que maneira seremos uma nação desenvolvida se temos um povo que continua no século 16, ou seja, no puro e ridículo subdesenvolvimento. Uma nação desenvolvida não se faz com a quantidade de produtos de consumo que se fabrica, mas com educação e cultura, bem como com condições melhores de vida para todos, não apenas para um seleto grupo de pessoas como acontece atualmente. Senhor escriba, os jornais estão certos ao não noticiar tal falácia, pois a relação custo-benefício financeiro é o que interessa isso porque vivemos num sistema capitalista canibal e, esse tipo de noticia não chega à maioria do povo brasileiro. Portanto, não tem nenhum valor que possa agregar no cotidiano do homem comum.

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem