Quinta-feira, 19 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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IMPRENSA EM QUESTãO >

A cidadania e a produção de informação

Por IHU Online em 01/04/2008 na edição 479

Em 8 de março, a Agência Carta Maior promoveu uma reunião para discutir a mídia nos nossos dias. Mais de quarenta jornalistas, professores de comunicação e ativistas da área de comunicação participaram do encontro que debateu a luta contra a hegemonia conservadora no âmbito da disseminação de informação no Brasil. Uma dessas pessoas é a professora Ivana Bentes Oliveira, doutora em comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde hoje é diretora da Escola de Comunicação.

Nesta entrevista, Ivana fala sobre as grandes corporações de mídia, do papel da imprensa alternativa, analisa os cursos de comunicação e a obrigatoriedade do diploma.

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Como a senhora, que já atuou em importantes veículos de comunicação e hoje trabalha na área acadêmica da comunicação, analisa a grande imprensa brasileira, tanto televisiva e radiofônica quanto impressa e on-line?

Ivana Bentes Oliveira – A primeira coisa que percebemos é uma redundância muito grande de pauta. A impressão, quando se abre todos os jornais diários, é que se tem as mesmas manchetes. Claro que há sempre os fatos do dia, mas o perfil dos jornais é muito parecido, o que leva a uma homogeneidade muito grande. Eu penso que seja preciso uma diversidade maior na grande imprensa. E, mais do que uma proposta editorial, ela deve vir da participação de segmentos de pessoas de grupos distintos, com visões políticas e de mundo diferentes, para combater essa homogeneidade entre os jornais e as linhas editoriais.

Uma outra questão que penso ser decisiva está relacionada ao fato de que as mudanças só são possíveis a partir do momento em que você rompe um pouco com esse modelo do jornalismo tradicional da grande empresa corporativa e passa a utilizar uma tecnologia como a internet ou outras possibilidades eletrônicas. Tudo isso abre um panorama para uma nova diversidade. Qualquer sujeito, hoje, pode se tornar um produtor de mídia. Esse me parece o horizonte da universalização dessa atividade que já foi pensada como uma atividade de especialista. Hoje, é uma demanda de cidadania a produção de informação, análise, interpretação. Além da diversidade em relação ao que é produzido.

E como a senhora analisa o papel da chamada ‘imprensa alternativa’ ou da ‘imprensa de esquerda’ no Brasil?

I.B.O. – Eu penso que ela se encontra num meio termo. Temos vários projetos interessantes de mídia independente hoje, principalmente em revistas e na própria internet. Então, a grande beneficiada com essa mudança de contexto tecnológico, e até econômico, com o barateamento dessas tecnologias, é a mídia independente. Ela sempre teve problemas históricos de sustentabilidade econômica, de visibilidade política, de mercado, mas sobreviveu, durante todo esse tempo, num trabalho de guerrilha: é singular e individual. Só foi a partir do próprio advento da internet que essa mídia independente passou a ter alguma visibilidade.

Então, agências como a Carta Maior, Carta Capital, Vermelho, e mesmo os sites de jornalistas, como os de Paulo Henrique Amorim – ligado a uma emissora, mas com uma marca de singularidade muito grande – e de Luis Nassif, que funcionam como formadores de opinião, com discurso de análise da própria mídia, fazendo uma espécie de não só observatório neutro da mídia, mas representando uma militância, um engajamento, trazem um trabalho um pouco parecido com os professores universitários que deveriam se debruçar ainda mais sobre essa mídia. Parece-me que estamos vivendo um momento de transição com essa possibilidade da explosão do que chamamos sempre de mídia independente – que sempre existiu, mas com extremas dificuldades.

Nós temos uma concentração não só econômica, mas alimentada pelo próprio campo público, com a má distribuição das verbas publicitárias que não incentiva a mídia independente. Esse é um quadro um pouco crítico, mas absolutamente produtivo, na medida em que essa crise tem produzido alternativas muito distintas de modos de produção de mídia que não têm relação simplesmente com essa mídia mainstreaming. Estamos num momento de transição de décadas de concentracionismo, de uma homogeneidade, de uma fórmula que está mais do que desgastada em termos de mídia, de produção de informação e uma descentralização. Além disso, temos uma fragmentação que, obviamente, precisa também ser analisada sob um olhar crítico, analítico, mas é extremamente interessante para todas as áreas. Essa transição de tecnologia e até de mentalidade amadureceu muito e deu alguns saltos nos últimos anos.

Alguns pesquisadores pensam a comunicação a partir dos processos midiáticos permitidos, principalmente a partir da década de 1990. Falam da importância de se pensar a comunicação, antes de tudo, para além do jornalismo. Qual é a sua análise dos cursos de comunicação brasileiros em relação não apenas ao fazer jornalístico, mas ao pensar jornalisticamente?

I.B.O. – Eu acredito que ainda seja um pensamento muito tímido, porque dificilmente vimos algum curso de jornalismo ou de comunicação intervindo politicamente nos fatos enquanto eles acontecem. Há uma dificuldade de intervenção, de uma análise ‘a quente’. Há uma tendência, nos cursos de jornalismo e comunicação, àquilo que chamamos de Profeta do Dia Seguinte, ou seja, de esperar que os fatos aconteçam, passem e só depois sejam comentados. Não há, nesse caso, muita importância de quem traz, por exemplo, um questionamento político depois que o momento quente passou. Há analistas da mídia, por exemplo, esses que vão para os congressos como Intercom e Compós, que fazem as análises já frias. Ou seja, eles não possuem nenhum poder de intervenção imediata no campo político.

Não que os pesquisadores precisem ser ativistas, mas é preciso haver uma relação mais orgânica de quem produz mídia com a realidade dos fatos. Deveria existir um trânsito maior com essa mídia independente, aliás com todos os tipos de produções midiáticas. E, sem dúvida, fazer a passagem da velha questão do jornalismo para a questão da comunicação, que é muito mais ampla. Hoje, de forma concreta, a experiência audiovisual desloca totalmente a função e o foco do jornalismo impresso, que continua sendo importantíssimo, mas precisa ser pensado nesse campo ampliado.

Temos grupos de mídias audiovisuais, de rádio comunitária, TV comunitária, blogs, sites, que são feitos inclusive por não jornalistas. Então, hoje eu defendo o seguinte: o campo jornalístico é importante demais para ficar só com os jornalistas, parafraseando um dito de que a guerra é importante demais para ser resolvida pelos senhores da guerra. Também penso que a comunicação seja importante demais para ficar só num nicho, num gueto de jornalismo. A comunicação sempre interveio na vida de todo mundo, mas hoje temos um consumidor de informação que virou, ao mesmo tempo, um produtor de mídia.

A questão da produção hoje, portanto, precisa ser pensada de forma ampliada. Os cursos de comunicação precisam mudar essa mentalidade. Precisamos sair da especificidade, pois, atualmente, a comunicação é um direito. Nós temos vários ativistas que trabalham com a questão do direito à informação. Desse modo, é preciso começar a pensar a informar esse produtor de mídia independente das formações. Parece-me que os cursos já estão pensando em seguir esse caminho, ou seja, apontar um trânsito maior entre as habilitações.

É preciso também repensar a formação. Por isso, alguns cursos já estão refazendo os seus currículos. No entanto, considero importante que essas reformulações de currículo sejam feitas por meio de um diálogo com quem está fora da universidade, sejam jornalistas, sejam movimentos sociais, seja o pessoal do midiativismo, porque me parece que a diversidade e o pensamento novo precisam ser elaborados em conjunto. Trata-se de uma discussão importante, mas que não pode ser feita só por professores. Assim, precisamos nos aproximar cada vez mais de quem está fora da universidade.

Possuímos uma quantidade enorme de produtores de mídia que não estão nas universidades e nem nas grandes empresas. É necessário incorporar essa produção, ajudar, qualificar e formar qualquer pessoa que vá trabalhar com mídia. Precisamos disputar esse novo produtor de mídia. É restritivo demais pensar só no jornalismo como centro da discussão midiática. Claro que ele tem suas especificidades, sobretudo o impresso. Entretanto, diante desse quadro, não é possível pensarmos em coisas mais instigantes sem ampliar seu campo.

Além dos cursos, algumas empresas jornalísticas estão incorporando aos seus meios de recursos humanos os métodos dos cursos de trainee para, de certa forma, ensinar e moldar o jornalista. Qual é a sua análise desse tipo de treinamento?

I.B.O. – Há um avanço sobre a formação. Estou falando de diversificação, de incorporar metodologias. A partir do momento em que você tem uma entrada muito cedo do mercado na vida do estudante, isso interfere na formação e se corre o risco de adestrar, limitar essa formação. Penso que seja preciso demonizar experiências, mas é também é necessário haver algum tipo de acompanhamento ou, em alguns casos, não aceitar esse tipo de gerência na formação. Caso contrário, nos cursos universitários, que representariam o último lugar onde você ainda teria essa formação ampliada, valorizando os discursos políticos, existirá um fechamento, trazendo constrangimentos, limites e formatações para o aluno, antes mesmo de ele sair do curso.

Talvez fosse muito mais interessante que as experiências de estágio nas empresas tivessem um acompanhamento qualitativo maior. É complicado se descobrir que nossos alunos estão sendo utilizados para trabalhar com telemarketing, vendas, distribuição de folheto. A saída do estudante dos cursos é um momento difícil, de crise, de mudança de vida, um momento de transformação, e os cursos devem estar atentos a isso também.

Qual é a sua opinião sobre o diploma de jornalismo hoje?

I.B.O. – Nesse item, a minha opinião é muito clara. Acredito que hoje o diploma represente uma reserva de legitimação dos sindicatos. É claro que os sindicatos tiveram uma importância histórica nas lutas políticas e vão continuar a ter, mas também considero que devemos passar por um momento de mudança dessa mentalidade, porque quem faz jornalismo hoje não é só jornalista. Nós temos vários outros grupos sociais produzindo jornalismo. A partir do momento em que os sindicatos exigem o diploma de jornalista, cuidam apenas daquele com carteira assinada e sindicalizado. Eles estão excluindo, deixando de prestar atenção num fenômeno global que é o cognitariado, que abrange as pessoas que trabalham com produção de conhecimento a partir da mídia, desse campo de comunicação, encontradas em diversas áreas.

Para mim, os sindicatos não podem cuidar apenas dos sindicalizados e dos que têm diploma de jornalista. Precisam é cuidar do freelancer, das pessoas com menos condições de inserção nas grandes mídias. Creio que o diploma já foi importante, mas não é mais. As escolas de comunicação precisam vender qualidade e não reserva de mercado para um determinado profissional.

Então, surge uma argumentação contrária, afirmando que isso é fazer o jogo das empresas. Vejamos que as empresas já burlam o diploma de todas as formas, como os colunistas. Sempre peço aos meus alunos para analisarem qual é o maior salário das redações e o resultado é sempre o mesmo: os colunistas. Quantos deles são formados em jornalismo? Quase nenhum! Os cronistas, os editores, os colunistas, isto é, os cargos mais nobres da redação são ocupados, geralmente, por não jornalistas. E isso há décadas! Eu considero muito saudável o fato de que sociólogos, antropólogos, filósofos, economistas e artistas escrevam nos jornais. O jornalista não tem mais aquele perfil fechado. Se a exigência do diploma acabasse amanhã, os cursos de comunicação continuariam iguais. Os cursos que fazem a diferença dentro da formação desse profissional continuam formando profissionais de qualidade. O que muda e o que acaba são os cursos que realmente vendiam apenas o diploma.

Recentemente, Luis Nassif, em seu blog, divulgou um dossiê sobre a Veja, que ele chama de o ‘maior fenômeno de antijornalismo dos últimos anos’. Qual é a sua opinião sobre o tipo de jornalismo que essa revista faz?

I.B.O. – O jornalismo da Veja já virou motivo de piada nos cursos de Jornalismo e comunicação. E é ótimo para dar exemplo porque é de tal forma deformado, repensado, direcionado que acaba se tornando uma caricatura do antijornalismo. Não existia isso no Brasil. A Veja veio para explicitar um pensamento conservador reativo que existia sem visibilidade porque as pessoas tinham vergonha de se posicionar dessa forma. Ela apresenta um jogo forte sendo feito e para isso lança mão de manchetes sensacionalistas, de uma constante criação de pautas. O que Nassif faz, em sua análise, é indicar a explicitação de uma linha editorial que existia de uma forma velada. É claro que todo mundo que leu a Veja, porque muita gente deixou de lê-la, tinha essa impressão de uma linha editorial conservadora. No entanto, o Nassif veio explicitar uma constatação em vários meios. A revista é muito estudada nos cursos dentro da linha de um jornalismo construído. Desse modo, é importantíssimo o que o Nassif vem fazendo, além de muito corajoso, pois está sendo criminalizado, interpelado judicialmente.

Atualmente, inclusive, precisa responder por questões que estão na boca de todos e que ele materializou. É preciso haver um movimento de apoio a ele, de apoio a uma analista contra uma corporação. Levar essa questão às escolas de comunicação e às mídias independentes é muito importante, além da divulgação desse dossiê. E, veja você, o Nassif é um economista que escreve em jornais e conseguiu por meio de um blog uma repercussão enorme no meio comunicacional. Perceba só o poder que apenas um indivíduo, sem uma relação com nenhum meio da grande imprensa, tem contra uma grande corporação.

Ainda no campo dos blogs, com o advento da internet, as formas de comunicar ampliaram, assim como o mercado de trabalho. O que há de novo dentro do fazer jornalístico depois da internet? E o que podemos prever para o futuro?

I.B.O. – É claro que há alguma crítica em relação à apuração, à falta da face-a-face. O que você descobre numa entrevista olhando no olho e criando um clima atmosférico pode ser bem diferente do que numa entrevista por e-mail, por exemplo, na qual as perguntas estão dadas e a interação não é tão grande. Sou a favor de sair para as ruas, do jornalista captador da atmosfera das ruas. No entanto, isso é circunstancial, porque há uma potencialização enorme desse fazer jornalístico nesse sentido, a começar pelo alcance que as tecnologias permitem. A internet acaba com a hierarquia da importância que precisa ser, em primeiro lugar, legitimada socialmente. Claro que as grandes corporações estão incorporando esses espaços, como os blogs, que são uma espécie de singularidade dentro daquele limite de espaço do horário nobre. Por outro lado, pensemos na eleição do Lula para o segundo mandato. Lembremos de toda aquela saraivada de denúncias feitas pelos meios de comunicação, uma campanha eleitoral por eles tentando intervir na eleição. Houve a reação, o contradiscurso, que surgiu nos blogs, nas listas de e-mails, dos sites, da mídia independente.

Tudo isso foi muito importante no momento em que aconteceu a difusão de uma contra-informação, com uma rapidez muito grande que seria impossível se não houvesse a internet. Essa possibilidade veloz de uma reação gera uma disputa midiática que não é possível não considerar relevante. O acesso à diversidade é absolutamente facilitada e, claro, a mídia independente precisa apostar nesses meios. No entanto, a tecnologia não faz milagre. Por isso, precisa haver um pensamento político por trás, além de políticas públicas e de se democratizar a internet no Brasil. É necessário existir um provedor público de graça para todos. Isso tudo aponta para uma mudança, para uma ruptura importante. É uma multiplicação da informação dentro de apenas um clique. 

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