Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

IMPRENSA EM QUESTãO > NEGLIGÊNCIA OU OMISSÃO?

A greve de fome ‘escondida’ de frei Luiz Cappio

Por Eduardo Lima dos Santos, Ezequiel Lima Cunha, Fábi em 11/12/2007 na edição 463

Dois anos depois da primeira greve de fome através da qual o bispo dom Luiz Flávio Cappio, conhecido entre o povo apenas como ‘Frei Luiz’, manifestou-se contra o projeto de transposição do rio São Francisco, novamente está o bispo em greve de fome, decidido a mantê-la até o fim, caso o governo não interrompa as obras, tocadas pelo Exército brasileiro. A pergunta que se faz é: porque uma notícia que obteve imenso destaque quando da primeira greve de fome, desta vez está praticamente silenciada quase pela integralidade da mídia?

Dom Luiz Flávio Cappio tornou-se uma espécie de líder da corrente contrária ao projeto de transposição do rio São Francisco, tido como o principal do atual Ministério da Integração Nacional, a ponto de muitos afirmarem tratar-se de um ministério ‘de um projeto só’. Entre as críticas sofridas pelo projeto, está o custo-benefício do mesmo, o seu poder de alcance (diverge-se acerca do número de pessoas que poderiam ser beneficiadas), acusações de beneficiamento do agronegócio exportador em detrimento do bem-estar das populações ribeirinhas e do meio-ambiente e a indisposição governamental em avaliar projetos alternativos por muitos defendidos como melhores e mais baratas soluções para o problema da seca nordestina.

Cobertura de um tema relevante

O atual ministro, Geddel Vieira Lima, anteriormente contrário ao projeto, quando ainda não ministro, hoje diz-se favorável a ele, defendendo-o de forma convicta. Opinando acerca da atitude do bispo em novamente fazer greve de fome, disse pensar que ‘a postura do bispo vai contra ensinamentos da Igreja, vai contra o que eu aprendi a respeitar desde muito jovem, como saber que é pecado atentar contra a vida’. Defende-se o bispo Cappio, dizendo que ‘exatamente porque a minha vida não pertence a mim, e sim Deus, pois a ele já a entreguei há muito, é que a ofereço pela vida de muitos’.

O que gera indagações é o motivo pelo qual o assunto está sendo tão pouco comentado pela grande mídia, com destaque para os canais de televisão, estes não tendo até agora praticamente noticiado a respeito. Dando nome aos bois, pôde-se ver, por exemplo, no primeiro dia da greve de fome, ser questionado o presidente Lula, durante entrevista coletiva ao vivo no Jornal da Record, acerca da questão, sendo essa uma das poucas menções a respeito do caso na televisão. Na primeira greve de fome, podia-se ver praticamente todos os dias, nos jornais, notícias, entrevistas e opiniões de comentaristas a respeito do tema, obtendo o fato grande destaque inclusive na mídia internacional.

Neste sentido, causa no mínimo estranheza que jornais de grande audiência, como Jornal Nacional, Jornal da Record, Jornal do SBT e até o Jornal da Cultura, não estejam dando ao assunto a cobertura que este mereceria, tratando-se de um tema tão relevante e novamente tendo-se em conta a disparidade da importância a ele dada dois anos atrás.

Formação da opinião popular

Freqüentemente alvo de críticas e acusações de manipulação por parte do poder político e econômico, inclusive dos governos e corporações internacionais, a mídia brasileira preocupa-se em consolidar uma imagem de credibilidade e independência. Neste sentido, cabe a pergunta: será possível que a mídia brasileira – nomeadamente os grandes jornais impressos, televisivos, os programas de debates e as emissoras de rádio – acredite que possa sair intacta de críticas e acusações sobre seu silêncio acerca do assunto, arriscando-se, no limite, até ao descrédito ante o povo brasileiro?

Espera-se pelo bom senso dos editores e controladores da grande mídia brasileira para que invertam a tendência ao silêncio e passem a dar ao assunto a cobertura e a importância merecidas, noticiando o assunto e coordenando debates em torno dele que possibilitem a formação da opinião popular acerca do tema.

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Respectivamente vendedor, auxiliar de loja, estudante de Direito da USP e metalúrgico; São Paulo, SP

Todos os comentários

  1. Comentou em 15/12/2007 Carlos Fochesatto

    Concordo plenamente com o Rogerio de Fortaleza. No ano passado o bispo foi usado de forma subliminar na campanha contra a reeleição de Lula. Hoje o bispo sendo apoiado pelo MST então? A midia esquece. Na minha opinião o bispo dedeveria ouvir mais as populações afetadas.

  2. Comentou em 12/12/2007 Augusto Silva

    Todo dia sai notícia sobre a tal greve de fome. O que querem mais? A maioria esmagadora dos cearenses, potiguares, paraibanos e pernambucanos apóia a transposição e não vai ser o bispo que vai impedir que isso aconteça.

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