Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

IMPRENSA EM QUESTãO > ÁTOMOS & BITS

A imprensa sobreviverá à internet?

Por Venício A. de Lima em 24/06/2008 na edição 491

Qual poderia ser a questão recorrente em um Seminário sobre os ‘200 anos da Imprensa no Brasil’?

Qual preocupação seria capaz de aparecer em praticamente todas as discussões reunindo alguns dos principais nomes do jornalismo brasileiro?

Qual questão seria capaz de ‘costurar’ os debates em torno de uma temática dominante incluindo desde o jornalismo local, a história, a formação de opinião, a liberdade de imprensa, a legislação até o jornalismo contemporâneo?

A resposta, certamente, não será surpresa para muitos: a internet.

Sem desconhecer a contribuição específica e a estatura profissional de cada um dos mais de 20 convidados, quase todos, direta ou indiretamente, acabaram referindo-se à internet ou respondendo perguntas a ela relacionadas durante os quatro dias de debates promovidos pela Fundação Joaquim Nabuco em Recife, de 17 a 20 de junho.

No seminário que homenageou Barbosa Lima Sobrinho e teve como objetivo refletir sobre a história do jornalismo brasileiro, o que predominou mesmo foi certa perplexidade sobre o momento de transição pelo qual passa o jornalismo impresso e, sobretudo, a indefinição sobre o seu futuro e o das profissões a ele vinculadas.

Questões sem resposta

O que acontecerá com os jornais impressos diante do jornalismo online? Os jornais conseguirão sobreviver publicando hoje o que ‘todo mundo’ já sabe desde ontem? Sobreviverão com o formato atual? Com o mesmo modelo de negócios? Serão gratuitos?

Os blogs de notícias reproduzem o jornalismo da grande mídia? O que os blogueiros fazem é jornalismo? Como fica a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão no espaço-livre da internet?

Quais as implicações dos e-mails, sites interativos, comunidades virtuais etc. para a sociabilidade humana? Como fica a preservação da memória nos tempos do jornalismo online? É possível construir com segurança a memória do ‘espaço virtual’?

Afinal, quantas pessoas têm acesso à internet no Brasil? Qual a distribuição dos internautas por classe, escolaridade, níveis de renda, padrões de consumo? A internet é elitista e excludente?

A internet tem algum poder de influência no resultado eleitoral no Brasil? E em outros países? Existe alguma forma de se controlar a propaganda eleitoral na internet? Esse controle é feito em outros países? Qual a avaliação que se pode fazer das decisões do TSE sobre o assunto no Brasil?

Qual a distribuição comparativa do investimento publicitário na internet? Quais as projeções para os próximos anos? Quem controla a internet?

Evidentemente, não há respostas consensuais sobre essas questões nem elas surgiram no seminário de Recife.

A crise dos jornais

A Fundação Joaquim Nabuco certamente não pretendeu reduzir o debate ao jornalismo impresso. As condições históricas do nosso país sempre fizeram com que os jornais tivessem tiragem reduzida e circulassem quase exclusivamente no espaço público de uma elite letrada. É verdade que nos últimos anos o ligeiro crescimento da tiragem dos jornais brasileiros expressa a entrada no mercado das ‘novas’ classes C e D. Apesar disso, não há dúvida que o rádio e a televisão são os dois veículos de maior penetração na população brasileira.

O que vem acontecendo aos jornais impressos, no entanto, não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. Ao contrário. Pesquisas recentes indicam que, nos Estados Unidos, por exemplo, somente 19% da população entre 18 e 34 anos se declara leitora de jornais – que, aliás, desde 2004, ocupam o último lugar entre as fontes de notícia preferidas pelos leitores mais jovens. Esses dados não são novidade para aqueles que acompanham o setor, como não é novidade que a principal causa apontada para explicar a situação presente é o surgimento e o vertiginoso crescimento da internet. Daí porque a presença da internet como questão recorrente em um seminário sobre ‘imprensa’ não chega a ser surpresa.

Riscos da concentração

Um dos riscos que se corre, no entanto, foi apontado pelo professor Sérgio Amadeu, da Fundação Casper Líbero, um dos especialistas convidados. Ele mostrou a contradição existente entre as duas principais tendências que dominam a consolidação das chamadas ‘sociedade em rede’: a redistribuição do poder comunicacional que a digitalização possibilita através das novas tecnologias de informação e comunicação (TICs) e a concentração e o controle de toda a infra-estrutura necessária nas mãos de poucas corporações globais.

Será que as promessas democratizantes da internet correm o risco de se frustrar pelas mesmas razões que têm provocado, por exemplo, a contaminação de coberturas jornalísticas – o chamado ‘jornalismo sitiado’ produzido dentro de megaestruturas empresariais e, portanto, permanentemente sujeito às interferências diretas ou indiretas de interesses (não-jornalísticos) de seus controladores?

De qualquer maneira, o importante é que as questões sejam propostas e debatidas. E é isso que eventos como o promovido pela Fundação Joaquim Nabuco oferecem: oportunidade para se buscar e, eventualmente, encontrar diretrizes para uma imprensa e uma internet livres e democráticas, a serviço apenas do interesse público.

******

Pesquisador sênior do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política (NEMP) da Universidade de Brasília e autor/organizador, entre outros, de A mídia nas eleições de 2006 (Editora Fundação Perseu Abramo, 2007)

Todos os comentários

  1. Comentou em 25/06/2008 Fernando Meiras

    Me desculpe, Venício, mas fezes por fezes, nem internet nem imprensa.

  2. Comentou em 24/06/2008 Antonio Queiroga

    Acho que há um problema de foco aqui: jornalismo é um determinado tipo de informação, não exatemente o produto jornal que historicamente foi o seu primeiro suporte. Assim, na minha modesta opinião de atento observador, não existe sociedade sadia sem um bom jornalismo, seja ele feito para este ou aquele suporte. Portanto, a demanda pelo que o bom jornalismo produz vai continuar a existir; seja para uma elite esclarecida, seja para os que entenderem o valor da informação de qualidade. A democracia, em princípio, está fortalecida com a possibilidade de mais acesso à informação e com um canal livre para expressão individual. Os jornalistas serão cada vez mais importantes para a contextualização do infinito de informação disponível . No entanto, já perderam a exclusividade de dizer o que deve ou não ser publicado; o que não é necessariamente ruim. O cidadão comum, nós todos podemos agora ter alguma voz, podermos nos expressar via rede, mesmo que seja para ninguém. A rede é o que mais próximo podemos ter hoje da ágora grega. Nao acredito na visão apocaliptica, nem na sua oposta. Algumas perguntas do texto podem ter respostas, como por exemplo: os bloqueiros fazem jornalismo quando o que escrevem seguem certos parâmetros que conhecemos; a questão do diploma é algo superado tendo em vista a liberdade do html e, mais não falo pois o espaço tá acabando e tenho muitas provas para corrigir

  3. Comentou em 24/06/2008 Antonio Queiroga

    Acho que há um problema de foco aqui: jornalismo é um determinado tipo de informação, não exatemente o produto jornal que historicamente foi o seu primeiro suporte. Assim, na minha modesta opinião de atento observador, não existe sociedade sadia sem um bom jornalismo, seja ele feito para este ou aquele suporte. Portanto, a demanda pelo que o bom jornalismo produz vai continuar a existir; seja para uma elite esclarecida, seja para os que entenderem o valor da informação de qualidade. A democracia, em princípio, está fortalecida com a possibilidade de mais acesso à informação e com um canal livre para expressão individual. Os jornalistas serão cada vez mais importantes para a contextualização do infinito de informação disponível . No entanto, já perderam a exclusividade de dizer o que deve ou não ser publicado; o que não é necessariamente ruim. O cidadão comum, nós todos podemos agora ter alguma voz, podermos nos expressar via rede, mesmo que seja para ninguém. A rede é o que mais próximo podemos ter hoje da ágora grega. Nao acredito na visão apocaliptica, nem na sua oposta. Algumas perguntas do texto podem ter respostas, como por exemplo: os bloqueiros fazem jornalismo quando o que escrevem seguem certos parâmetros que conhecemos; a questão do diploma é algo superado tendo em vista a liberdade do html e, mais não falo pois o espaço tá acabando e tenho muitas provas para corrigir

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