Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > CASO CISCO

A mídia cobre mal o crime corporativo

Por Luciano Martins Costa em 23/10/2007 na edição 456

O escândalo envolvendo a multinacional de informática Cisco Systems é mais um exemplo de como o jornalismo de negócios e o jornalismo econômico andam distantes dos novos paradigmas do capitalismo. Em um mundo agitado por mudanças, com a premência de processos de produção limpos, responsabilidade social empresarial e transparência na gestão, a imprensa ainda segue antigos padrões, avaliando as companhias quase unicamente por seus resultados financeiros, posicionamento no mercado e inovação tecnológica.

O próprio noticiário relativo aos crimes de que são acusados dirigentes da Cisco deixa de lado elementos importantes do contexto em que se deu a investigação da Polícia e da Receita Federal, que se referem ao sistema de importação e distribuição de produtos de informática na chamada periferia da economia global. A utilização dos chamados ‘canais’ – nome pelo qual são chamados os revendedores de produtos de alta tecnologia – há muito deveria estar atraindo a atenção da imprensa, pela extrema vulnerabilidade do sistema ao risco de fraudes.

Os grandes jornais e, especialmente, as publicações especializadas em Tecnologia da Informação, mantêm repórteres quase setorizados nessa área da economia, que cresce exponencialmente e também empurra outros setores, como o de telecomunicações e o de automação industrial. No entanto, a maioria desses jornalistas não recebe capacitação para desenvolver uma visão sistêmica dos negócios que devem cobrir. Quase sempre, o noticiário se refere a novidades tecnológicas, grandes negócios e mudanças nos rankings.

Perversidades da globalização

Em suas comunicações institucionais, quando se dirigem diretamente ao mercado, as empresas de tecnologia procuram ressaltar aspectos relacionados aos novos paradigmas do sistema global de negócios, que destacam a necessidade de padrões éticos na concorrência, esforços pela inclusão social e busca incessante de produtos ecoeficientes. Mas, na mediação dos fatos de negócios, a imprensa ignora esse tipo de notícia, por considerar que não é bom jornalismo oferecer informações favoráveis às companhias. No entanto, não demonstra qualquer constrangimento em reproduzir de forma laudatória dados de balanços e declarações sobre os sucessos financeiros das mesmas empresas.

Seria razoável esperar que, não se dispondo a noticiar informações sobre bons procedimentos das empresas nos aspectos ambiental, social e ético, a mídia cuidasse, ao contrário, de abordar as vulnerabilidades do ambiente de negócios quanto a desperdício de energia, irresponsabilidade social e outras práticas negativas, como concorrência desleal e risco de fraudes.

Assim como não tem disposição ou habilitação para esse tipo de cobertura, a imprensa também revelou não possuir recursos para ir além do que liberam as autoridades policiais, no presente escândalo. A cobertura não informa aspectos relevantes do esquema criminoso revelado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público que ajudariam o leitor a entender certas perversidades do sistema econômico globalizado.

A constatação do observador é que a imprensa, sempre animada para desvendar a delinqüência de indivíduos e a corrupção nas instituições públicas, não sabe e não quer saber como cobrir o crime corporativo.

Deslumbramento e poder

No caso da Cisco, a demissão inesperada de um alto executivo, ocorrida há cerca de um ano, foi noticiada burocraticamente pela imprensa especializada, embora muitos jornalistas comentassem sua estranheza sobre o fato. Este executivo foi posteriormente vítima de boatos maledicentes no meio jornalístico, mas nem mesmo os blogs se dispuseram a investigar as razões de sua demissão. Estava ali, provavelmente, um fio da meada que conduziria ao escândalo. Esse executivo, cujo nome não consta na lista de dirigentes da Cisco presos e indiciados, pode ser um dos informantes das autoridades. Poderia ter sido a fonte de jornalistas, se houvesse disposição e recursos para o jornalismo investigativo.

Uma diversidade maior de informações está disponível em outras fontes, como os sites e blogs ultra-especializados, como gigaom (www.gigaom.com), onde se pode obter, por exemplo, o depoimento de um ex-funcionário da Cisco e de outras pessoas do ramo, e revelações sobre como os sistemas de importação e venda de produtos de informática são passíveis de defraudações.

Assim como um certo deslumbramento com a tecnologia parece cegar a mídia, o inegável encantamento com o poder das empresas produz a adesão irrestrita de não poucos jornalistas ao universo de interesses relativos ao capital. Essa parece ser uma das razões pelas quais a imprensa não se mostra capaz de fazer a crítica do sistema, nem mesmo quando o sistema, por si, gera novos paradigmas e enfrenta o desafio de ter que buscar a sustentabilidade.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 27/10/2007 Antonio Olintho

    Chamo atenção de vocês para o fato de não ter saído uma linha em nenhuma das publicações da Abril, nem na Veja nem na Exame. Concorrentes da Cisco já tinham reclamado da quase impossibilidade de ter matérias sobre eles na InfoExame.

  2. Comentou em 24/10/2007 Sérgio Troncoso

    Grandes empresas são como as pessoas,algumas mais abertas outras menos,mais honestas outras nem tanto,outras ecoeficientes,têm programas para desenvolvimento social no seu entôrno,outras nada,e isso não tem nada a ver com seus balanços,embora tôdas tenham que ter eficácia financeira,Mas o nosso jornalismo fica restrito aos depoimentos de diretoria,de delegados,de políticos ou passando fofoquinhas de executivos,do tipo ‘tal empresa paga melhor seus executivos,graças a boa governança corporativa'(geralmente arrocho nos fornecedores e nos salários e o danadão dobrando o seu salário indexado ao resultado).O jornalismo econômico,ao menos no Brasil,tem um discurso único e egemônico,e quando aparece alguma coisa que não caiba em suas afirmações,é simplesmente esquecido ou diminuído até desaparecer.A linha é a mesma da adotada para o noticiário político,onde não se procura e nem se quer consensos,o contraditório é sempre demonizado e/ou ridicularizado,e na falta disto,houve apenas um engano.

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