Terça-feira, 19 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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IMPRENSA EM QUESTãO > CARTÕES CORPORATIVOS

A pista que a imprensa deixou escapar

Por Luciano Martins Costa em 21/05/2008 na edição 486

Foi um verdadeiro pastelão a sessão da CPI dos cartões corporativos que ouviu, na terça-feira (20/5), os depoimentos dos assessores envolvidos no vazamento de informações sobre gastos pessoais do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.


André Fernandes, assessor parlamentar do senador Álvaro Dias, do PSDB, e José Aparecido Pires, ex-secretário de controle interno da Presidência da República, falaram separadamente e sustentaram uma história difícil de ser engolida. Fernandes afirmou que recebeu o documento de Pires, que não se lembra de tê-lo enviado.


Do bate-boca que durou oito horas os jornais escolheram o que quiseram e é isso que sustenta o noticiário político de quarta-feira.


Imaginado como entretenimento, o episódio até poderia ajudar a gastar o tempo do público diante da televisão. Mas a descrição que aparece nos jornais de quarta apenas reforça a idéia generalizada de que o Congresso Nacional anda ocupado demais com questões de importância relativa. Até mesmo a amizade entre os dois funcionários públicos foi motivo de ironias e anedotas grosseiras entre deputados e senadores. No fim, ficou no ar a tese de que André Fernandes recebeu um arquivo que Aparecido Pires não enviou. E que o conteúdo compõe um ‘banco de dados seletivo’.


Para a oposição, trata-se de um dossiê.


Para o governo, apenas um relatório burocrático e rotineiro.


Curiosidade nenhuma


Mas houve um momento em que a sessão da CPI ameaçou trazer à tona informações interessantes. Foi quando o assessor parlamentar afirmou que teria revelações graves a fazer, mas exigia a realização de uma sessão fechada. Seu pedido foi negado e ele também evitou sair do seu roteiro. Em determinado momento afirmou que recebeu a lista de despesas como uma tentativa de intimidação. E se referiu à CPI do Banestado, que foi arquivada em 2004, dizendo que na ocasião havia ocorrido um episódio semelhante.


Afirmou indiretamente que, também naquela época, quando se investigava uma fraude que tinha como suspeitos mais de uma centena de políticos, empresários e outras personalidades, havia recebido um documento que poderia configurar uma chantagem.


Nenhum parlamentar, do governo ou da oposição, manifestou curiosidade por saber mais sobre esse episódio. No entanto, a CPI do Banestado foi o processo de investigação do Congresso Nacional que chegou mais próximo de esclarecer como funciona o sistema da corrupção que domina os negócios públicos no Brasil há décadas.


Como se sabe, acabou sem um relatório conclusivo, deixando no ar muitas questões sobre o destino de mais de 1 bilhão de reais desviados para contas no exterior.


Os jornais de quarta-feira contam em detalhes a pantomima protagonizada na terça em torno de uma lista de despesas. Nenhum jornalista parece ter ficado curioso com a revelação de que a CPI do Banestado pode ter chegado ao fim por conta de uma chantagem.

Todos os comentários

  1. Comentou em 22/05/2008 Rogério Ferraz Alencar

    Durante a sessão, sobressaiu a tentativa dos demos-tucanos de impedir qualquer questionamento a André Fernandes, assessor do vazador-confesso Álvaro Dias, embora a Folha diga que o vazador é Aparecido Pires. Álvaro Dias, aliás, não parava de falar, com o beneplácito da tucana-presidente, Marisa Serrano. O vazador, a toda hora, dizia que havia sido citado, e se valia do “artigo 14”, para se defender. Mas como ele não seria citado? Mas o pior mesmo foi a Globo, no Jornal Nacional e no Jornal da Globo. No JN, William Bonner entonou a voz para a ironia e fez a chamada: “Assessor diz que enviou dossiê por engano”, enquanto, na tela, a imagem de Aparecido surgia sobre a expressão “Ops!”. Detalhe: o assessor, em nenhum momento, disse ter mandado um dossiê. Na matéria, Julio Mosquera disse que o dossiê foi “montado para intimidar a oposição”, e mostrava Álvaro Dias. No Jornal da Globo, a desfaçatez foi tanta que colocaram Aparecido falando antes de André. Aparecido dizendo ter mandado o arquivo sem querer, e o repórter, em off: “O assessor tucano retrucou”. E mostrou André Fernandes dizendo que Aparecido era “político”, e diria qualquer coisa para se defender. Só que o tucano não poderia retrucar, pois depôs antes. A passagem lembrou a montagem do debate Collor x Lula, em 1989.

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