Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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IMPRENSA EM QUESTãO >

A velha mulher de sempre

Por Adriano de Paula Rabelo em 23/10/2007 na edição 456

No último fim de semana, num salão, enquanto esperava vez para cortar o cabelo, coloquei a mão no cesto de revistas típicas nesses estabelecimentos e puxei uma delas a esmo. Tratava-se de Nova. O título da publicação já é bastante programático: pretende-se apresentar – e ter como público-alvo – a mulher dos novos tempos, sintonizada com todas as liberdades e emancipações pós-revolução sexual. Entretanto, pelo que as páginas da revista oferecem, me pareceu que a nova mulher de Nova é apenas a reatualização de uma senhora velhíssima e esclerosada já bastante conhecida de todos na sociedade patriarcal. Apenas seus comportamentos ‘ousados’ seriam supostamente mais adequados aos tempos contemporâneos.

Lá estão os temas e seções clássicos desse tipo de revista: sexo, amor, beleza, moda, saúde, aconselhamento, etiqueta, decoração, trabalho, horóscopo, culinária, cartas das leitoras. E a linguagem meio coloquial, carregada de imperativos sugestivos e pretensos ‘femininismos’. Os testemunhos pessoais e o parecer incontestável de especialistas também lá estão para garantir a identificação da leitora e sua persuasão.

Pode-se constatar, pelo conteúdo dos textos, uma proposta básica de que a mulher atual deve se modernizar, abandonando o âmbito doméstico e ganhando o mundo, trabalhando fora e exercitando seu direito ao máximo de prazer. A mulher tradicional e submissa ao marido é transfigurada, tornando-se autônoma, sensual, dinâmica, alguém que sabe o que quer. O sexo associado à reprodução é substituído pelo sexo como fonte de inefáveis delícias, estando agora associado à obrigação de gozar.

Uma emancipação mais difícil

Pelo que se pode depreender, no entanto, o fulcro da existência da nova mulher de Nova continua sendo o seu homem, aquele que deve ser conquistado ou mantido através de determinados procedimentos de sedução, de surpresas para apimentar o cotidiano, de tratamentos de beleza e organização do ambiente que alimentem o desejo e o interesse masculino. Assim, essa nova mulher não mudou em sua essência, permanecendo um ser-para-o-seu-homem. A despeito da ditadura do prazer a qualquer custo, que a leva mesmo à ‘ousadia’ dos relacionamentos fortuitos, ela parece agir diante de um pano de fundo romântico em que a realização maior é o grande amor, a chegada do homem com quem, enfim, encontrará a plenitude, seja transitória, seja permanente.

Claro que a revista feminina não é a criadora da mulher que preconiza. Seu corpo editorial apenas detecta tendências em voga e organiza um sistema de prescrições sobre como ser a mulher ‘moderna’, transformando-a num produto comercialmente bem-sucedido que tem como público consumidor justamente aquelas que se identificam com seu ideário.

Mas não somente nas revistas femininas podem ser encontrados os avatares da nova mulher. Eles estão, por exemplo, nas novelas, nas canções popularescas e nos filminhos digestivos – nos quais uma figura feminina bela, atualizada, dinâmica, ‘independente’, arrojada e sensual tem como finalidade última de sua existência agradar seu parceiro através de sua aparência e seu comportamento. Se as mulheres consideradas modernas – auto-proclamadas herdeiras máximas dos movimentos de emancipação ocorridos no século passado – são isso aí, resta-lhes agora uma emancipação talvez mais difícil que a do jugo patriarcalista: falta-lhes se emanciparem de si mesmas.

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Professor, doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo, Divinópolis, MG

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