Quinta-feira, 21 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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IMPRENSA EM QUESTãO > GUERRA COM A BOLÍVIA

Acabou o gás da cobertura da imprensa?

Por Luciano Martins Costa em 23/05/2006 na edição 382

Analistas do mercado de capitais, quem diria, encerraram a semana recomendando ações da Petrobras. A empresa anunciou antecipação de investimentos na exploração de jazidas próprias de gás no Espírito Santo, e revelou o patenteamento de uma nova tecnologia para produção de óleo tipo diesel a partir da soja. Foi o que bastou para que a percepção de imagem da empresa apresentasse uma completa revolução, elevando suas ações a perspectivas absolutamente inversas às que a imprensa nos apresentou logo após as medidas de expropriação alardeadas pelo novo presidente da Bolívia, Evo Morales.


A seguir na observação da sucessão das notícias e seus efeitos reais na economia, teríamos que cobrir de ridículo todo o circo armado pela mídia sul-americana nos últimos dias. Mas é tão flagrante a falta de credibilidade da imprensa entre os poderosos que decidem o destino do dinheiro disponível no mundo, que alguns analistas não chegaram a dedicar mais do que um parágrafo à crise provocada pela Bolívia. As manchetes dando conta de nova guerra no fim do mundo foram quase completamente ignoradas ao fim de poucos dias.


Os números outra vez falaram mais alto. Alguém mais ousado chegou a considerar que ‘a Petrobras é um Estado mais poderoso que a Bolívia’. O relatório semestral de economia emitido regularmente pelo FMI em abril, dissecado nas planilhas dos analistas, mostrava uma previsão de crescimento mundial maior – de 4,5% para 4,9% – para este ano, em relação à projeção anterior. Crescimento exige energia, e a Petrobras joga esse jogo.


Preço de face


Como o principal fator de risco no contexto internacional continua sendo o preço do petróleo, a habilidade da Petrobras em ocupar o noticiário com uma estratégia agressiva, mas serena, composta de ações afirmativas, acaba por colocá-la em posição privilegiada entre as alternativas do capital internacional. Acrescente-se a isso o fato de que o semestre revela tendência a uma maior distribuição no fluxo dos investimentos, e poderemos concluir que, na verdade, a estatal brasileira de energia nunca esteve nem mesmo nas proximidades do apocalipse que nos foi pintado pela imprensa.


Os investidores seguem protegidos, uma vez que têm suas próprias e privilegiadas fontes de informação. E o cidadão comum, aquele que ainda pensa na Petrobras como um patrimônio da nacionalidade – sentimento exacerbado pela imprensa no auge da crise com a Bolívia –, como fica? Certamente, vai acordar um dia destes se sentindo idiota, revendo toda indignação a que foi induzido e lentamente se dando conta de que seus sentimentos cívicos foram manipulados.


A capa da revista Veja na qual o presidente da República foi retratado com a marca de um sapato no traseiro, vai representar o quê, daqui a umas semanas? Vai significar algo mais, nas bibliotecas das escolas, daqui a alguns anos, do que puro lixo? E os destemperos do presidente do PFL, Jorge Bornhausen, a exigir a guerra contra os bolivianos, e o rosto sempre afogueado do senador do PSDB amazonense Artur Virgílio, elevados a personagens de destaque nas escolhas dos editores, o que terão retratado?


Se entrarmos pelo viés econômico do noticiário, vamos dar no beco da irrelevância. Analistas costumam dizer que, para os negócios, o noticiário político não vale hoje mais do que 5% dos fatores a serem considerados. Se entrarmos pela política, vamos nos dar conta de que a imprensa compra pelo preço de face o circo das disputas partidárias, e o transfere para qualquer editoria, seja a economia, seja a seção policial ou o caderno de esportes.


O que importa saber


A política externa do atual governo é vulnerável a muitas críticas, e parecem ter razão os especialistas quando alertam que questões fundamentais para o país não podem permanecer tão dependentes da conversa ‘maneira’ do presidente Lula da Silva. No entanto, em algum momento a imprensa deveria reconhecer que a atitude de serenidade e firmeza mantida pelo governo – evitando o confronto e tomando medidas para reduzir a dependência do gás boliviano no curto prazo – acaba dando resultados que nunca seriam alcançados com as retaliações exigidas nas bravatas da oposição assumidas pela mídia.


Por último, convém registrar o vareio de bola que os gestores de crise da Petrobras deram na imprensa. Uma seqüência inteligente de press releases, declarações espontâneas e entrevistas bem planejadas levou à opinião pública, por iniciativa da diretoria de comunicação da estatal, os elementos essenciais para esvaziar o cenário de guerra que se armava. Expostas as armas da Petrobras, a imprensa perdeu o gás e mudou de assunto.


Ainda estamos longe de uma solução definitiva para a crise do gás. Mas, segundo analistas, as ações da Petrobras devem ganhar sustentabilidade nas próximas semanas, por conta da apresentação de melhores perspectivas de médio e longo prazos, que é o que os investidores querem saber. Quem se apavorou com as manchetes e se livrou de suas ações, perdeu.


Ganham os de sempre.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 24/12/2008 wagner lucio dos santos ramos ramos

    kero sa b oe bom pra prabalha gostaria de sa b si vc? tem ipregopara min isto sem trabalha temho 3 irmao para da de kume

  2. Comentou em 28/05/2006 Angélica Matos

    Para Leandro – ZUMBI E CHUHU – O PROGRAMA DE GOVERNO a ser apresentado pelo PSDB nas campanhas das próximas eleições, segundo divulgado por membros do partido, resume-se, apenas e tão somente, a “SANGRAR os candidatos do PT”. O trunfo do PSDB é SABER que os candidatos dele NÃO TEM SANGUE NAS VEIAS.

  3. Comentou em 25/05/2006 Carlos Benalves

    Se nossa imprensa estivesse realmente interessada em informar com pertinência, poderíamos até esperar um pouco mais da sua atuação nessa crise do gás.
    Mas como bem sabemos de seus interesses ligados sempre ao setor de finanças, já era de se esperar essa situação.
    O fato é que existem gases que costumam incomodar bem mais do que essa atitude de Evo Morales incomodou a Petrobrás e têm bem mais impacto do que a atitude da mídia, que diante da sua ‘indiferença’ vira gás e ‘VAZA’.

  4. Comentou em 24/05/2006 Arnaldo Mansur

    Voces querem ver o que é imprensa livre neste país, observem o seguinte:
    Esses jornalistas em sua maioria subordinados ao grande capital, leia-se jornal, televisão e cinema; não fazem outra coisa que não seja desqualificar qualquer um que não esteja afinado com o politicamente correto. Faça voce um comentário contundente, baseado em argumentos contrários a esse estado de coisas; que voce não terá espaço para que outros tomem conhecimento de suas observações; inclusive aqui neste observatório.
    Então deixemos que pensem que somos igonorantes, mal informados, e que não temos outras fontes mais decentes de informação.

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