Quinta-feira, 25 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Achegas sobre a crise dos jornais

Por Muniz Sodré em 31/03/2009 na edição 531

São interessantes, mas em nada surpreendentes, a informações recentes sobre o desaparecimento de vários jornais impressos nos Estados Unidos, como conseqüência da grande crise financeira. Na verdade, a crise apenas acelera o que vêm prevendo há algum tempo, ou seja, a substituição do papel pelo ciberespaço: o conteúdo do impresso em extinção permanecerá online. Talvez não haja grande coisa a se lamentar, exceto pelo fato de que ainda não se tem uma forma modelar de jornalismo na rede, entendendo por isto uma técnica de transmissão da informação pública pactuada entre editores eletrônicos e suas comunidades de recepção. A rede eletrônica, apesar da febre dos blogs e de numerosas experiências de jornalismo informativo, ainda é por demais anárquica para que se possa falar de um jornalismo à altura da complexidade em que hoje se revela a atualidade.


Ao olhar analítico, essa complexidade é uma noção-chave: a idéia de jornalismo como uma forma de conhecimento próprio, voltado para a atualidade do fato, é por muitos considerada o segredo da especificidade dessa prática profissional. Como se sabe, o pressuposto do jornalismo como visibilização pública de um singular rege, em última análise, a forma da estrutura do seu produto básico, a notícia. Por meio dela, a informação individualiza a situação ou fato apresentado, procurando, em seguida, quando for o caso, demonstrar o quanto de universal existe, contextualizando-a na realidade circundante (espacialidade) e pontuando-a com a realidade histórica que a constitui (temporalidade).


Espelho concêntrico


Mas não parte apenas do próprio campo profissional essa reivindicação de um jornalismo consolidado como forma aprofundada de conhecimento do atual. Desde o começo do século 19, a atividade jornalística se associava à racionalidade discursiva que, no século anterior, caracterizava a ‘esfera pública’, materializada em cafés, clubes e revistas. E tudo isso podia ser descrito pelo termo genérico de ‘literatura’, uma vez que esta designação ainda não tinha se fixado definitivamente como uma ‘expressão de subjetividade’ concretizada em romance ou poesia.


A imprensa de que fala Thomas Carlyle (autor de A Revolução Francesa e um dos expoentes intelectuais da Inglaterra oitocentista) é o espaço onde se movimenta o ‘homem de letras’, entendido como escritor profissional, mas também como um indivíduo investido de uma autoridade ideológica análoga à do sábio. Comenta o crítico cultural Terry Eagleton:




‘Carlyle escreve sobre o poder que tem a imprensa de difundir a palavra do parlamento (`a literatura é igualmente nosso Parlamento´) e sobre o fato de a imprensa ter substituído tanto o púlpito quanto o senado.’


Essa concepção de imprensa, que abrangia jornais, revistas e livros e se destinava a consolidar criticamente a opinião pública burguesa, não é a mesma que tinha, já em meados do século 19, um crítico vigoroso da atividade jornalística, como Honoré de Balzac. Ele localizava o núcleo da crise precisamente na identificação de ‘publicismo’ com jornalismo:




‘Publicista, este nome outrora atribuído aos grandes escritores como Grotius, Puffendorf, Bodin, Montesquieu, Blakstone, Bentham, Mably, Savary, Smith e Rousseau, tornou-se o de todos os escrevinhadores que fazem política. De generalizador sublime, de profeta, de pastor das idéias que era outrora, o publicista é agora um homem ocupado com os compassos flutuantes da atualidade. Se alguma espinha aparece na superfície do corpo político, o publicista a coça, a desdobra, a faz sangrar e tira dele um livro que, quase sempre, é uma mistificação. O publicismo era um grande espelho concêntrico: os publicistas de hoje o quebraram e têm todos um pedaço que eles fazem brilhar aos olhos da multidão’ (em Os Jornalistas – monografia da imprensa parisiense).


Mito de necessidade histórica?


O jornalista, em todas as suas variedades, seria um desses ‘pedaços’, mas Balzac fazia uma ressalva positiva para o ‘pedaço’ identificado como panfletário, tido como o lugar da oposição, do polemista talentoso, eventualmente mais poderoso do que o jornal. Disto tornou-se paradigma o escritor Émile Zola, ao publicar o texto intitulado ‘J´accuse’ (L´Aurore, janeiro de 1898), em defesa de André Dreyfus, oficial do exército francês, de origem judaica, injustamente condenado por traição. A atuação de Zola, que comoveu civicamente a nação e mudou os rumos do processo, foi reconhecidamente superior à dimensão pública do jornal.


A valorização do polemista no jornal é ratificada um século depois pelo escritor e filósofo francês Jean-Paul Sartre, ao se pronunciar sobre o jornalismo. Em pleno século 20, a lógica da produção de mercadorias já havia provocado a divisão do trabalho intelectual que separaria o jornalismo da genérica ‘literatura’, instituindo a notícia como uma commodity, isto é, um produto da indústria textual, sujeito às regras de um campo profissional relativamente autônomo, a corporação jornalística. Mas Sartre destacava explicitamente, além da função polêmica do jornal, a notícia formatada como fait divers (o acontecimento miúdo, às vezes escandaloso), recomendando aos jornais de esquerda que se dedicassem à ‘análise sociológica da sociedade a partir dos faits divers‘, para não deixar a ‘imprensa de direita’ solta em sua exploração ‘da bunda e do sangue’.


Tudo isto é razoavelmente conhecido por historiadores e analistas da imprensa. A questão de agora, por aparente aceleração da passagem do modelo consolidado em papel para a rede eletrônica, é a seguinte: o jornalismo ainda dispõe de condições culturais para sustentar o mito positivo de sua absoluta necessidade histórica? Mas é preciso frisar essa ‘aparente aceleração’, porque, aqui entre nós, está sendo cada vez mais comprado o jornal de papel a 50 centavos – ao inteiro revés de Balzac e de Sartre, claro.

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Jornalista, escritor e professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro

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