Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Acordo de ‘cavalheiros’ favorece a pilantragem

Por Alberto Dines em 23/01/2006 na edição 365

Quando Mauro Malin, editor do Observatório da Imprensa no rádio, cobrou da ANJ (Associação Nacional de Jornais) uma defesa do jornalista Lourival Sant’Anna, ouviu esta pérola de cinismo: os jornais de Tanure já não fazem parte da entidade, portanto ela desobriga-se de pronunciar-se sobre os seus comportamentos.


Mas a Fenaj (Federação Nacional de Jornalistas) também não fazia parte da ANJ e, no entanto, esta entidade empresarial não poupou a entidade profissional na delirante aventura do Conselho Nacional de Jornalismo.


A ANJ não representa apenas os leitores dos jornais associados, representa os interesses dos cidadãos que desejam uma imprensa livre e sem vícios. Doce ilusão: uma das cláusulas pétreas nas negociações para a fundação da ANJ (1979-1980) foi o compromisso de não brigar em público. Estava decretado o pacto de silêncio: adeus controvérsias, adeus polêmicas, adeus diversidade e pluralidade. Sócios dos country clubs só brigam através de bolas pretas e brancas, ninguém fica sabendo.


Graças ao pacto, passou em brancas nuvens o assalto de Ary de Carvalho a O Dia. Graças ao pacto, ficou sem conseqüências o manifesto público assinado pelos parceiros GloboFolha para liquidar a Gazeta Mercantil e em seu lugar criar o Valor. Graças ao pacto, ficam trancafiadas as grandes discussões capazes de oxigenar o panorama jornalístico brasileiro.


Trecho esquecido


Mas por que razão o Estado de S.Paulo e Veja reagiram no sábado (21/1) às manipulações da IstoÉ na última pesquisa eleitoral do Ibope? Simplesmente porque descarregaram a culpa no patrocinador da pesquisa, o ex-governador Anthony Garotinho. O Jornal Nacional divulgou candidamente a sondagem na quinta-feira (19), mas só veio a denunciar a supressão das perguntas relativas ao segundo turno no sábado, duas edições depois. E apontou Garotinho como culpado. O cúmplice – o veículo que serviu à manipulação – foi razoavelmente poupado.


E aqui chegamos ao ponto crucial da questão: a primeira instância da crítica da imprensa deve ser a própria imprensa. Quando ela cumpre integralmente o seu compromisso de fiscalizar tudo o que acontece (inclusive no seu âmbito) não sobra espaço para pilantragens. Submetida a esta estranhíssima solidariedade corporativa, a imprensa brasileira abre mão do princípio básico da livre-iniciativa – a concorrência. De bico calado para as suas próprias mazelas, abandona a esfera de instituição republicana e assume-se apenas como lobby, grupo de interesses. Lavra desta maneira seu atestado de inidoneidade.


Exemplo maior deste pacto de silêncio e dos seus maléficos efeitos sociais é o descaso de toda a imprensa com o perigoso relacionamento da Opus Dei com os meios de comunicação ibero-americanos. Este Observatório vem chamando a atenção para os aspectos brasileiros do problema há quase uma década até que a revista Época resolveu explorar o assunto.


Mas nos últimos 10 dias tudo o que se escreveu sobre a força do opus-deismo no Brasil relaciona-se com a disputa eleitoral. Ficou esquecida a parte da matéria de Época que flagrou a ligação Opus Dei & Associados com a mídia. Falar nela é tabu – incomodará alguns grandes veículos. Incomodará sobretudo a própria ANJ.


***


Em tempo


Cinco dias depois da divulgação da pesquisa Ibope/IstoÉ a mídia começa a procurar os culpados pela manipulação. Na terça-feira (24/1), a Folha de S.Paulo (pág. A 8) saiu em defesa do semanário (‘Revista nega ter beneficiado Garotinho’), enquanto o Estado de S.Paulo foi na direção contrária num pequeno box – ‘IstoÉ: 2º turno não tem interesse jornalístico’ (pág. A 4).


A esta altura a grande imprensa já deveria estar em condições de exigir uma sindicância da Justiça Eleitoral. Se neste início da temporada eleitoral afrouxarem os controles sobre a divulgação de pesquisas, mais tarde será impossível.

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