Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

IMPRENSA EM QUESTãO > MÍDIA NÃO CRITICA A MÍDIA

Acordo de ‘cavalheiros’ favorece a pilantragem

Por Alberto Dines em 23/01/2006 na edição 365

Quando Mauro Malin, editor do Observatório da Imprensa no rádio, cobrou da ANJ (Associação Nacional de Jornais) uma defesa do jornalista Lourival Sant’Anna, ouviu esta pérola de cinismo: os jornais de Tanure já não fazem parte da entidade, portanto ela desobriga-se de pronunciar-se sobre os seus comportamentos.


Mas a Fenaj (Federação Nacional de Jornalistas) também não fazia parte da ANJ e, no entanto, esta entidade empresarial não poupou a entidade profissional na delirante aventura do Conselho Nacional de Jornalismo.


A ANJ não representa apenas os leitores dos jornais associados, representa os interesses dos cidadãos que desejam uma imprensa livre e sem vícios. Doce ilusão: uma das cláusulas pétreas nas negociações para a fundação da ANJ (1979-1980) foi o compromisso de não brigar em público. Estava decretado o pacto de silêncio: adeus controvérsias, adeus polêmicas, adeus diversidade e pluralidade. Sócios dos country clubs só brigam através de bolas pretas e brancas, ninguém fica sabendo.


Graças ao pacto, passou em brancas nuvens o assalto de Ary de Carvalho a O Dia. Graças ao pacto, ficou sem conseqüências o manifesto público assinado pelos parceiros GloboFolha para liquidar a Gazeta Mercantil e em seu lugar criar o Valor. Graças ao pacto, ficam trancafiadas as grandes discussões capazes de oxigenar o panorama jornalístico brasileiro.


Trecho esquecido


Mas por que razão o Estado de S.Paulo e Veja reagiram no sábado (21/1) às manipulações da IstoÉ na última pesquisa eleitoral do Ibope? Simplesmente porque descarregaram a culpa no patrocinador da pesquisa, o ex-governador Anthony Garotinho. O Jornal Nacional divulgou candidamente a sondagem na quinta-feira (19), mas só veio a denunciar a supressão das perguntas relativas ao segundo turno no sábado, duas edições depois. E apontou Garotinho como culpado. O cúmplice – o veículo que serviu à manipulação – foi razoavelmente poupado.


E aqui chegamos ao ponto crucial da questão: a primeira instância da crítica da imprensa deve ser a própria imprensa. Quando ela cumpre integralmente o seu compromisso de fiscalizar tudo o que acontece (inclusive no seu âmbito) não sobra espaço para pilantragens. Submetida a esta estranhíssima solidariedade corporativa, a imprensa brasileira abre mão do princípio básico da livre-iniciativa – a concorrência. De bico calado para as suas próprias mazelas, abandona a esfera de instituição republicana e assume-se apenas como lobby, grupo de interesses. Lavra desta maneira seu atestado de inidoneidade.


Exemplo maior deste pacto de silêncio e dos seus maléficos efeitos sociais é o descaso de toda a imprensa com o perigoso relacionamento da Opus Dei com os meios de comunicação ibero-americanos. Este Observatório vem chamando a atenção para os aspectos brasileiros do problema há quase uma década até que a revista Época resolveu explorar o assunto.


Mas nos últimos 10 dias tudo o que se escreveu sobre a força do opus-deismo no Brasil relaciona-se com a disputa eleitoral. Ficou esquecida a parte da matéria de Época que flagrou a ligação Opus Dei & Associados com a mídia. Falar nela é tabu – incomodará alguns grandes veículos. Incomodará sobretudo a própria ANJ.


***


Em tempo


Cinco dias depois da divulgação da pesquisa Ibope/IstoÉ a mídia começa a procurar os culpados pela manipulação. Na terça-feira (24/1), a Folha de S.Paulo (pág. A 8) saiu em defesa do semanário (‘Revista nega ter beneficiado Garotinho’), enquanto o Estado de S.Paulo foi na direção contrária num pequeno box – ‘IstoÉ: 2º turno não tem interesse jornalístico’ (pág. A 4).


A esta altura a grande imprensa já deveria estar em condições de exigir uma sindicância da Justiça Eleitoral. Se neste início da temporada eleitoral afrouxarem os controles sobre a divulgação de pesquisas, mais tarde será impossível.

Todos os comentários

  1. Comentou em 27/01/2006 Luiz Moraes

    Caro Alberto,
    Admiro seu trabalho como jornalista no OI, inclusive por detestar Diogo Mainardi e quaisquer pretensas reencarnações de Paulo Francis que não têm sequer uma parcela da cultura geral de que este último era dotado. Ou seja, escrevem meramente pela controvérsia e pelo prazer egocêntrico da discussão que seus ‘artigos’ podem suscitar, discorram eles a respeito de temas fúteis ou não, pondo em cheque, aos olhos do leitor menos desavisado, seu real (ou inexistente) talento como jornalistas.
    Qual não foi a minha surpresa quando descobri que o também desesperado por atenção Reynaldo Azevedo anda seguindo o mesmo caminho, ao escrever o seguinte artigo:
    http://www.primeiraleitura.com.br/auto/entenda.php?id=6895
    Só para demolir em uma frase o texto em questão, ao se definir como ‘inatual’, na minha opinião o diretor de redação do Primeira Leitura põe em dúvida sua competência, como jornalista; e seu talento, ao calcar uma matéria, justamente, no fato de desconhecer o assunto sobre o qual trata e, conseqüentemente, traçando uma coleção de disparates inaproveitáveis.
    Não por acaso, acredito, fontes seguras me informam que o autor tem falado quase que diariamente com Diogo Mainardi. Sou levado a crer que o verme está dando cria.
    Perdoe-me por colocar a coisa de forma tão grosseira, mas esse tipo de ‘jornalismo’ é um câncer que deve ser estirpado, pelo bem-estar mental e senso-crítico do leitor comum.
    Grande abraço, e saiba que indico o OI em meu blog, definindo-o como grande reserva crítica de jornalismo coerente e de qualidade, e me felicita saber que amigos de diversas faixas etárias passaram a lê-lo regularmente após isso.
    Grande abraço,
    Luiz

  2. Comentou em 25/01/2006 Bruno Silveira

    Num artigo de 06/12/2005 (Ataques à imprensa. Ruim com ela, pior sem ela) o Dines escreveu:
    “O artigo do jornalista Mauro Chaves condenando a complacência da imprensa ao aceitar uma pessoa despreparada para assumir a presidência da República (Estado de S.Paulo, 26/11, pág. 2) e a delação do parajornalista Diogo Mainardi sobre a infiltração lulista nas redações (Veja, 7/12, pág. 181), embora diametralmente opostos em matéria de quilate, mostram a dimensão deste frenesi antijornalístico no seio do jornalismo. Aqui não se trata de autocrítica coletiva, mas de tentativas sistemáticas de certas facções em denunciar uma parte da imprensa para tomar conta do bolo inteiro. Neste confronto de interesses antijornalísticos quem perde é a instituição jornalística.”.
    Agora, Dines diz que a mídia não critica a mídia. Fiquei um tanto confuso, mas acho que não há contradição. Pelo pouco que entendi a mídia não critica a mídia para que ela melhore (coletivo). A mídia critica a mídia por interesses individuais (de cada órgão de comunicação). Ora, a mídia, então, age como os políticos! Esse corporativismo é típico da política. A mídia não critica a mídia, a não ser por interesse próprio. Político não critica político, a não ser por interesse próprio. A mídia critica os políticos. Os políticos criticam a mídia. Os políticos não respeitam os eleitores. A mídia não respeita os leitores. Olha, ainda estou confuso.

  3. Comentou em 24/01/2006 Iara Falcão deAlmeida

    Quero apenas reforçar o fato de a reportagem da revista Época sobre a Opus Dei não ter dada a mesma ênfase à ligação da mesma com a imprensa. É de estranhar o enfoque político mas não é de estranhar o quase silêncio sobre a grande influência na mídia. Aliás eu gostaria de saber mais. Quem vai levantar o véu?
    Iara

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