Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > THE CLINIC

A mais famosa e irreverente revista chilena

Por João Paulo Charleaux em 12/09/2011 na edição 659

Reproduzido do Opera Mundi, 29/8/2011; título original “The Clinic: a inacreditável história da mais famosa e irreverente revista chilena”, intertítulos do OI

Dizem por aí que bom jornalismo é coisa séria. E quanto mais investigativo, mais denso e carrancudo tem de ser o repórter. Tudo isso pode até ser verdade. Desde que você não trabalhe para a revista mais lida do Chile.

O satírico The Clinic é hoje a publicação semanal mais influente do país mais tradicionalista e conservador da América Latina. O negócio é redondo como um pote de ouro no fim do arco íris: dá dinheiro, tem prestígio, é influente e está recheado de mulher pelada. É pouco? Acrescenta aí: um enorme bar de três andares num dos bairros mais boêmios de Santiago leva o nome da revista e reúne todos os dias em suas mesas o que, sem maior cuidado, poderia ser chamada de a nata da mocidade local.

Para o padrão brasileiro, é como se o Pasquim renascesse e roubasse o lugar da Veja como a revista mais vendida do país – só que menos panfletária, mais leve, antenada. Toda semana, você veria nas bancas, na primeira página, alguma montagem grotesca de photoshop ironizando as figuras mais sisudas de Brasília. Dentro, haveria um ensaio fotográfico de alguma beldade capaz de revelar segredos de alcova de meia dúzia de figurões do mundinho empresarial. Tudo produzido por um bom time de repórteres investigativos. Junte-se a isso o bar de três andares, lembra dele? É uma espécie de bunker estiloso da boemia, erigido na esquina da Vila Madalena com os Arcos da Lapa. E, de uns anos para cá, rendendo rios de dinheiro.

Noves fora

O Opera Mundipassou uma manhã de outono com um dos donos deste improvável negócio, o empresário e escritor chileno Patricio Fernández. A entrevista foi feita na redação do semanário, que funciona no alto de um edifício antigo, na zona central de Santiago, de frente para o imponente Museu de Belas Artes.

“Pato”, como é conhecido, instalou no meio desta zona nobre uma verdadeira metralhadora giratória. Camuflado entre as folhas que em junho caem como chuva em Santiago, ele e sua turma de 25 jornalistas miram e acertam entre os olhos das mais sólidas instituições chilenas: as Forças Armadas, o Partido Comunista, a Igreja, as igrejas, os fãs de Allende e de Pinochet, os mineiros soterrados em Atacama, as famílias de nome e sobrenome, os populistas e os adoradores de pobres de vitrine.

“Sinceramente? Sempre achamos que o próximo número seria o último. Mas a coisa foi fazendo sucesso sem que planejássemos nada. Hoje, vendemos 35 mil exemplares nas bancas, toda semana”, diz Pato, enquanto ajeita os óculos de Woody Allen no rosto. “Isso não era pra ser sério”, pontua num volume mais baixo, quase se desculpando.

No Brasil, 35 mil exemplares podem até não ser muito. Mas o Chile inteiro cabe dentro de São Paulo. Noves fora, é como se 1 em cada 85 lares chilenos tivesse um exemplar do The Clinic.

Mal da humanidade

A revista nasceu em 1998, como um jornalzinho de quatro páginas distribuído de graça, sem publicidade. Era, na época, o material mais irreverente e depravado jamais editado em papel jornal na história do Chile.

O país vinha saindo de uma ditadura militar sangrenta. Entre o golpe de 1973, liderado pelo general Augusto Pinochet, e o fim da ditadura, em 1990, foram mais de 3 mil mortos e desaparecidos num espaço de 17 anos, sem contar os milhares de exilados políticos e a geração de chilenos que nascia no exterior, desarraigados de qualquer idéia de lar. O ambiente não era para piada.

A geração que gerou o The Clinic havia passado maus bocados na mão dos militares. Tanta juventude contida só podia mesmo desaguar numa catarse coletiva com o fim da ditadura. Sátira, crítica mordaz e um pouco de autodepreciação serviram de vetor para o jornalismo que emergia das profundezas de um caldo escuro, composto por densos rancores da censura, perseguição, brutalidade, moralismo, tortura e uma paranóia permanente, que custava passar.

“Na verdade, acho que nem se tratava de jornalismo. Éramos apenas um grupo de amigos, jornalistas, artistas, intelectuais, pintores, gente criativa que juntava material e punha o panfleto para circular”, conta Pato.

No ano de nascimento do The Clinic, o juiz espanhol Baltasar Garzón havia conseguido impor o primeiro constrangimento político e legal ao intocável general Pinochet. Ao deixar o Chile para buscar tratamento médico numa clínica de Londres, o ex-ditador acabou detido pela Scotland Yard no dia 16 de outubro daquele ano. A polícia londrina britânica agia com base num pedido internacional de busca e extradição movido pelo jurista espanhol. Era inacreditável que isso pudesse acontecer com quem, por quase duas décadas, havia exercido poder absoluto de vida e de morte contra todos os chilenos.

Pinochet permaneceu 503 dias em prisão domiciliar, na clínica londrina. Todos os dias, várias vezes ao dia, as TVs chilenas emitiam boletins ao vivo, transmitidos por repórteres que tinham atrás de si um letreiro que dizia “The Clinic”. O nome da revista chilena nasceu daí. Sua alma, entretanto, vinha sendo gestada há muito tempo.

A gênese do The Clinic foi obsessivamente anti-pinochetista. Era como se o ditador encarnasse sozinho todo o mal da humanidade. Mas sua morte, em dezembro de 2006, mostrou que a publicação havia consolidado identidade própria.

Ida e volta

Com o tempo, a revista comandada por Pato foi achando o tom. “Esse negócio de fazer piada com coisa séria é coisa séria”, pondera. “Na dúvida, sempre nos guiamos pela receita do poeta Nicanor Parra, que nos dizia sempre: entre o vulgar e o pedante, prefira sempre o vulgar. É como se equilibrar num precipício todo dia”.

Apesar do enorme desafio, o The Clinic nunca foi alvo de nenhum processo. “Acho que o pessoal sabe que, se nos processar, a piadaria vai comer solta. Talvez seja melhor deixar passar”, diz Pato.

Uma das maiores mostras de que o semanário prefere a vulgaridade ao pedantismo está no concurso de nudismo promovido em 1998. O primeiro campeonato chileno de strip-tease terminou com um vencedor inusitado: o operário da construção civil que ficou de botas e completamente nu diante dos jurados, num dos principais teatros de Santiago. O vencedor preferiu trocar o prêmio oferecido pelo The Clinic – uma passagem aérea de ida e volta para o Rio de Janeiro – por dinheiro.

***

[João Paulo Charleaux é jornalista]

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