Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

IMPRENSA EM QUESTãO > ECOS DO REFERENDO

A inexorável democracia do mal

Por Walter Falceta Jr. em 25/10/2005 na edição 272


1. Por que ‘referendo’ e não ‘decisão’, ‘escolha’ ou ‘plebiscito’? Quer dizer que, na limitação da cínica democracia representativa, fomos convocados apenas a confirmar algo que os parlamentares não tiveram coragem ou sapiência para transformar em Lei? Por que o tema eleito foi esse e não outro?


2. Não é necessário ter lido o ‘ornitorrinco’ de Umberto Eco. Qualquer cidadão de saudáveis razões percebeu a sintaxe estranha e torcida da indagação.


Na oitava série, um sujeito metido chegava para o pessoal da quinta série e disparava algo assim: ‘Rápido. Você não quer que eu deixe de não ter chamar de viadinho? Sim ou não?’


3. A resposta dirigida constituiu-se também em golpe contra a intuição. Sempre que o voto me é facultado, levo as crianças para um exercício para a cidadania. As duas assistiram perplexas ao ritual diante da urna eletrônica. Afinal, quem é ‘contra’ as armas deveria dizer ‘não’. Não é não, pai?


Como tributo à lógica e ao bom senso, esperava-se esta pergunta: ‘Você é favorável ao comércio de armas?’.


E eu responderia: ‘não’. Afinal, se fomos convocados, não deveríamos referendar nada, mas assumir uma posição convicta em favor dessa ou daquela idéia.


4. Num circo de propagandas destinadas à deseducação, o debate foi em torno da garantia de um suposto ‘direito’. Qual direito, cara pálida? Será que portar um aniquilador automático de vidas é realmente direito de alguém? Respondam aí, demiurgos de Veja… 


Se alguma filosofia faculta o acesso ao aniquilador, Saddam Hussein mereceria todo apoio em sua suposta tentativa de produzir armas químicas ou nucleares. Afinal, estaria apenas se defendendo daqueles que julga os bandidos da história.


Nesse sentido, o Brasil deveria seguir o conselho do deputado Enéas Carneiro (Prona-SP): enriquecer seu urânio e produzir seus artefatos da morte. Afinal, ninguém sabe o que passa pelas cabeças de argentinos, paraguaios e peruanos…


5. Se é direito de defesa, afinal, deveria ser irrestrito, posto que a vida segue teoricamente ameaçada em todos os momentos e lugares. Assim, o porte de armas deveria ser liberado em igrejas, bares e cinemas. Aliás, poucos anos atrás, um sujeito fez uso desse direito durante a exibição do filme Clube da Luta. Defendeu-se bravamente da terrível ameaça da sociedade. Exercendo um sagrado ‘direito’, mandou bala na perigosa platéia.


Interessante é que o cowboy paranóico encontrou-se na cadeia com outro batuta que se utilizara de arma de fogo para defender-se do destino injusto. O ‘jornalista’ Antonio Pimenta Neves empunhara a ‘ferramenta cidadã’ para defender seu ‘direito’ de ser amado por uma mulher que já não o tolerava.


A pena de morte expressa e a proteção de José Bufa


6. Entregar uma arma na mão de cada cidadão equivale a conceber cada um como alto e competentíssimo magistrado. Aliás, o poder que lhe é conferido supera aquele dos juízes do Supremo Tribunal Federal. Afinal, pelo menos no Brasil, esses não podem condenar ninguém à morte.


Garantir o tresoitão no bolso do cidadão lhe confere poder superior ao da polícia, superior ao dos tribunais. Conheço um tal de ‘José Bufa’, cujo verdadeiro nome aqui não revelo. É cidadão limpíssimo no papel, de modo que ninguém poderá impedi-lo de adquirir uma arma. José Bufa, entretanto, julga-se sempre agredido, ameaçado e injustiçado. Perde o controle com freqüência, especialmente quando exagera no conhaque. Já distribuiu (e recebeu) sopapos no bar do Pedro, na festa de aniversário da sobrinha, no jogo de futebol e até em casa. 


Agora, entretanto, depois de toda essa propaganda, José Bufa parece mais tranqüilo. Afinal, muito em breve, terá um arma para se proteger de todos os seus terríveis inimigos, para fazer-se finalmente respeitado e temido.


José Bufa está a ponto de explodir por causa da vizinha do 57, que insiste no alto volume do axé music todas as manhãs. Não suporta mais esses bacanas dos ‘carrões’, que costuram o trânsito e fecham o caminho de seu modesto 1.0. Não tem mais saco para aguentar as maledicências da jararaca da Dona Mercedes, a sogra, nem a cara-de-pau do cunhado, que não paga o que lhe deve. Para piorar, José Bufa, suspeita que a mulher, a bela Capitu, ande se engraçando com um colega de trabalho simpaticão. E isso, pensa ele, é humilhante e intolerável.


Agora, entretanto, a ‘democracia do mal’ veio em socorro de José Bufa, abriu seus olhos. Assistindo à propaganda do referendo, o honesto cidadão percebeu uma mensagem das Organizações Tabajara: seus problemas acabaram! José Bufa argumentará que necessita de uma arma para proteger o sitiozinho da família e, logo, terá direito a seu ‘dia de fúria’, quando poderá punir os ímpios e mudar o mundo.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 26/10/2005 Daniella Whitaker

    Magnífico e esclarecedor

    O leitor Paulo Bandarra aparentemente não percebeu que a análise do Sr. Walter Falceta mostra com elegância a patologia comunicativa que tomou conta do debate sobre o referendo, em especial no que se refere ao trabalho da imprensa. Nada mais correto que mostrar ao leitor do OI as distorções da mensagem passada ao eleitor, num desserviço enorme ao processo de construção da cidadania. Os exemplos são claros e ainda mais críveis porque são oferecidos após o pleito, sem qualquer interesse proselitista.

    Sempre pensei que o OI era de crítica da imprensa, e não de defesa de voto (mesmo que não vencedor). Walter Falceta Jr., neste seu desabafo de incoformismo por o Sim ter perdido no referendo, usa de uma série de figuras piegas para comover o eleitor após já ter deliberado. Não aceita a decisão, despreza sua opção livre. Como o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que saiu-se com esta insânia: ‘Espero que ao vermos uma tragédia na TV não nos arrependamos de ter perdido a oportunidade de banir as armas’. Lamentável a afirmativa vingativa do senador.

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