Quinta-feira, 15 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Apontamentos sobre a ‘imprensa golpista’

Por Sandro Vaia em 03/07/2007 na edição 440

É comovente a riqueza de argumentações do séqüito do professor Caroni, que forma a sua claque neste Observatório. Seu artigo é grande, maravilhoso, definitivo, lição de ética, massacre argumentativo, nocaute, banho, tsunami, barba-cabelo-e-bigode, alegria para a grande família progressista, demolidor, chapéu, drible elástico, bola no meio das pernas, matou a cobra e mostrou o pau, macho, não deixou pedra sobre pedra, direto no queixo. Já a minha resposta (‘O vale-tudo contra o jornalismo‘) é discurso corporativo, coisa de reaça, direita raivosa,presunçoso,cheio de aleivosias,grosseiro, desespero da direita.

Não inventei nada. Está tudo lá, nos comentários. Tudo muito substantivo, como se vê. Muito raciocínio, argumentação sólida, irrespondível.

Na sua réplica da semana passada (‘O jornalismo vale-tudo – II‘), o professor Caroni se faz de desentendido e tenta sair pelo acostamento da discussão ao apelar para a interpretação dos sonhos de Freud.

A discussão não é sobre se o jornalismo brasileiro é ou não ‘judicativo no campo onírico’, ou o que pensam os editorialistas quando escrevem. A discussão é apenas esta: por qual razão publicar notícias que não agradam a uma determinada corrente política transforma a imprensa em ‘golpista’? Vamos dar às palavras o sentido que as palavras têm, sem tentar tergiversar. O professor Caroni é eloqüente quanto a isso. Quem maneja as palavras, diz ele, tem por dever de ofício ‘manejar as palavras com precisão e clareza’.

Golpista é alguém que defende um golpe de Estado, ou seja, defende a derrubada de um governo legitimamente eleito por meio de um putsch anticonstitucional, um golpe de força. Portanto, continuo perguntando: noticiar que o irmão do presidente da República foi acusado pela Polícia Federal de ser lobista (ou de tentar ser, coitado, pois ao que parece falta-lhe capacidade para tanto) é golpismo? Noticiar os malfeitos deste ou daquele governo é golpismo?

Punição exemplar

Não me lembro de nenhum dos acusadores de hoje chamando a imprensa de golpista quando ela noticiou as falcatruas do então presidente Fernando Collor e seu tesoureiro PC Farias, até provocar, como conseqüência,seu impeachment.

Não me lembro de nenhum dos acusadores de hoje chamando a imprensa de golpista quando a Folha de S.Paulo publicou em 8 páginas a transcrição de um grampo telefônico da conversa do então ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, sobre a privatização das teles, que valeu a sua demissão e a de mais cinco pessoas no governo FHC.

Não me lembro de nenhum dos detratores de hoje chamando a imprensa de golpista quando um grande jornal publicou um artigo de Tarso Genro, alto dirigente do PT, defendendo a campanha ‘Fora FHC’ (mais golpismo que isso?), encampada por parte de seu partido logo depois da reeleição do então presidente.

Não me lembro de nenhum dos acusadores de hoje chamando a imprensa de golpista quando ela publicou as denúncias (falsas, como se comprovou depois) do procurador Luiz Francisco contra Eduardo Jorge Caldas, secretário do então presidente FHC.

A imprensa, então, só é golpista quando as notícias não agradam ao clube político do professor Caroni?

Mas parece que o professor Caroni, desta vez, resolveu tirar de campo a expressão ‘mídia golpista’ e recuou os seus zagueiros para uma retranca um pouco mais conservadora. E diz que não se opõe à liberdade de imprensa, mas que esse é ‘um tipo de liberdade que, para existir, precisa se sobrepor a outra, de capital importância para a cidadania: a liberdade de informação’. Bonito, mas inócuo. Quem se opõe à liberdade de informação é quem quer impor a ela a sua visão ideológica, é quem quer decidir o que pode e o que não pode ser publicado. E como, e onde, e quando deve ser publicado.

Ele escreve:

‘Movimentos sociais que se disponham a agenciar demandas de setores excluídos, a apresentá-los como sujeitos dotados de direitos são, a priori, não-notícia. A menos que sejam envoltos em prática de significação que rotule como baderneiros todos os que se apresentem como contra-poder às relações de expropriação e dominação, viabilizadas pelo ordenamento legal existente.’

Conclusão: a ‘liberdade de informação’, na visão do professor Caroni, é aquela que compra e passa adiante a premissa ideológica que ele já estabeleceu e que dá como a única válida. O contrário disso é mero concluio entre ‘a grande imprensa e o bloco de poder conservador’.

(Esse conceito de bloco de poder conservador tem validade eterna ou é um valor relativo? Renan Calheiros será do bloco de poder conservador ou passou a ser um progressista? José Sarney está conservador ou está progressista? Jader Barbalho estará progressista ou não ultimamente? E Fernando Collor de Mello, o desqualificado de ontem, hoje amigo do governo, é progressista ou conservador? E Joaquim Roriz, é outra vítima da imprensa golpista ou este fica de castigo, e continua sendo o que sempre foi?)

O professor passa depois ao relato do famoso episódio da parabólica do ministro Rubens Ricupero e dá ao destempero verbal dele o valor do testemunho inequívoco da existência do ‘conluio’ – que seria, no caso,o suposto apoio da Rede Globo à candidatura de Fernando Henrique à presidência da República. O então ministro se faz ‘instrumento’ unilateral desse apoio, vangloria-se de ser o maior trunfo do candidato, e seu crime (falta confessa de escrúpulos e desmedida vaidade) foi punido com a urgência que a sociedade e a imprensa exigiram. Ele foi demitido, como seria em qualquer sociedade democrática que se preze como tal.

Sob o tapete

No final, o professor Caroni apela, como não podia deixar de ser, a uma pesquisa do Iuperj para mostrar que ‘a grande imprensa e os grandes jornais tiveram comportamento muito enviesado contra a candidatura do presidente Lula’ nas eleições de 2006.

Comportamento ‘muito enviesado’ (palavras do cientista político e coordenador da pesquisa, Marcus Figueiredo), quer dizer o quê, exatamente? Os jornais mentiram, distorceram, inventaram escândalos que não existiam, atribuíram ao presidente coisas que ele não fez? Não, a pesquisa contou, no espaço que os jornais dedicaram aos candidatos, as notícias ‘negativas’, as ‘positivas’ e as ‘neutras’. Critérios para classificação? Mistério. Metodologia usada? Mistério.

O que é uma notícia negativa? Para Tony Blair – que, dez dias antes de deixar o cargo, criticou essa ‘besta-fera’ que é a imprensa – pode ser alguma notícia sobre o envolvimento da Grã-Bretanha na invasão do Iraque. Para Dick Cheney, o vice de Bush, pode ser a série de reportagens do Washington Post mostrando seus desmandos. Para Lula, o presidente, pode ser uma notícia do suposto envolvimento de sua base congressual na compra de apoio, ou uma tentativa de partidários seus de comprar um dossiê contra adversários.

Não é tarefa da imprensa, num regime democrático, classificar as notícias de acordo com a utilidade que elas tenham ou deixem de ter para os interesses dos agentes políticos. Essa avaliação cabe aos administradores de imagem dos políticos, não aos jornalistas. A estes cabe zelar pela veracidade das notícias, e não pela utilidade que elas possam ter para o interesse dos políticos. Se o trabalho do Iuperj dividisse as notícias em ‘falsas’ ou ‘verdadeiras’ em vez de ‘positivas’ ou negativas’, a discussão podia ser mais consistente e menos passível de contaminação ideológica.

O próprio Marcus Figueiredo, num trecho transcrito por Caroni, tenta encontrar as razões para o ‘tratamento enviesado’ que ele denuncia, atribuindo-o, quem sabe, ‘a razões de várias ordens’ que podem incluir ‘desde a questão do ponto de vista moral, do ponto de vista das articulações políticas, por conta dos escândalos que ocorreram nos últimos dois, três anos’. E em seguida, por sua própria conta, dá a questão por resolvida, morta e enterrada:

‘Entretanto, essas são questões que fazem parte da política, que são resolvidas politicamente, que foram resolvidas institucionalmente, alguns dos principais assessores do presidente foram afastados, alguns foram punidos ou absolvidos pelo próprio Congresso, de forma que, do ponto de vista institucional, o presidente fez o que poderia ser feito’.

O presidente, ao varrer os escândalos – institucionalmente – para baixo do tapete, fez o que poderia ter feito. Mas a mídia , ao noticiar todos esses escândalos, é golpista.

Isso deve ser o que o professor Caroni chama de razão cínica como norte de ação.

******

Jornalista, Jundiaí, SP

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