Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

IMPRENSA EM QUESTãO > JULGAMENTO DE LEWIS LIBBY

Ari Fleischer: o porta-voz que não sabia de nada

31/01/2007 na edição 418

Secretário de Imprensa da Casa Branca de 2001 a 2003, Ari Fleischer passava a imagem de que sabia de tudo o que acontecia no governo Bush, mas revelaria à imprensa apenas o que quisesse. Tal imagem ruiu no depoimento de Fleischer no julgamento de Lewis Libby, ex-chefe de gabinete do vice-presidente Dick Cheney, no início desta semana. Libby é acusado de perjúrio e obstrução à justiça no caso do vazamento da identidade secreta da agente da CIA Valerie Plame.


O ex-secretário de Imprensa revelou, em seu testemunho, que sabia apenas das informações que as figuras poderosas do governo escolhiam contar a ele – e, muitas vezes, as informações eram escassas. De vez em quando, contou Fleischer no tribunal, ele falava publicamente com grande certeza e autoridade sobre a posição do governo em relação a determinado assunto e descobria, logo depois, que a tal posição havia mudado e ninguém o havia informado.


O pior lugar


Em 2003, após ter passado meses defendendo uma frase dita pelo presidente Bush durante o discurso do Estado da União – assegurando que o Iraque havia comprado urânio enriquecido na África para a produção de armas nucleares –, Fleischer diz ter recebido ordens para não mais repetir que as informações da frase eram corretas. Que posição ele deveria tomar dali a diante? Seus chefes ainda não sabiam. ‘O pior lugar para ficar como secretário de Imprensa é onde o chão está cedendo’, afirmou durante o depoimento. ‘Você não pode dizer que sim nem que não’. Na ocasião, quando pressionado pelos repórteres, Fleischer diz que, basicamente, chutava respostas.


Se, durante os mais de dois anos em que ficou no posto na Casa Branca, Fleischer evitou dizer as palavras ‘eu não sei’ para os jornalistas, agora, testemunha em um tribunal, ficou claro que ele normalmente não sabia das coisas. O trabalho de porta-voz do governo o colocava em um lugar solitário no meio da imprensa e dos políticos. Às vezes, chegou a sugerir, não era respeitado por nenhum dos lados.


Gargalhadas no tribunal


Os repórteres que cobrem a Casa Branca, afirmou Fleischer, costumavam ou desafiá-lo no que ele dizia ou ignorá-lo completamente. O ex-secretário de Imprensa contou de uma viagem presidencial a Uganda, onde chamou dois correspondentes para passar uma informação: Joseph Wilson, o ex-embaixador que estava atacando o governo ao questionar as justificativas para a guerra contra o Iraque, havia sido enviado ao Níger (para descobrir se o Iraque realmente comprava urânio daquele país) não por Dick Cheney, como havia sido sugerido por Fleischer anteriormente, mas por sua própria mulher, Valerie Plame, que trabalhava na CIA. Os dois jornalistas, David Gregory, da NBC News, e John Dickerson, então na revista Time, não se importaram com a notícia. ‘Eles nem pegaram seus blocos de anotação. Não me fizeram perguntas. Foi um grande ‘e daí?’’, conta. ‘Como muitas coisas que eu falei para a imprensa, essa parece não ter tido nenhum impacto’, continuou, provocando gargalhadas dos repórteres presentes no tribunal – entre eles Dickerson, que hoje trabalha na Slate.


A descrição de Fleischer de sua experiência como porta-voz da Casa Branca seguiu, de certo modo, a mesma linha do depoimento de Cathie Martin, secretária de Imprensa de Cheney de 2001 a 2004. Cathie afirmou que ela e outros membros da equipe de comunicação do governo eram excluídos de algumas discussões, como a que decidiu como o então diretor da CIA George Tenet tomaria para si a responsabilidade pela tal frase do discurso de Bush sobre a compra de urânio. Em outra ocasião, afirmou, Cheney mandou que Libby, e não ela, falasse com certos repórteres. Informações de Scott Shane [The New York Times, 30/1/07].

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