Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

IMPRENSA EM QUESTãO > JACK ANDERSON

Arquivos de jornalista investigativo na mira do FBI

19/04/2006 na edição 377

Ao longo de sua carreira, Jack Anderson, um dos nomes mais importantes do jornalismo investigativo americano, divulgou diversos escândalos governamentais e chegou a ter seu nome na ‘lista dos inimigos’ do ex-presidente Richard Nixon por causa de suas denúncias. Embora tenha morrido em 2005, aos 83 anos, devido a complicações causadas pelo mal de Parkinson, parece que o jornalista continua a incomodar as autoridades.


O Federal Bureau of Investigation (FBI) planeja reaver os documentos arquivados por Anderson, a fim de eliminar material confidencial que ele possa ter acumulado em quatro décadas de prática jornalística em Washington, noticia Scott Shane [The New York Times, 19/4/06]. A família do jornalista, entretanto, não autorizou a procura nas 188 caixas de documentos guardados por ele ao longo de sua carreira – na qual divulgou planos da CIA para matar Fidel Castro, tramas sobre acordos de troca de fornecimento de armas por reféns com o Irã e má conduta de diferentes gerações de membros do Congresso.


Kevin, filho de Anderson, afirmou que permitir que os agentes do governo fiquem com os papéis de seu pai seria uma traição a ele. A família do jornalista diz que está disposta a ir para a prisão a fim de proteger a coleção de Anderson. ‘É o legado do meu pai. Ele achava que o público era o empregador dos funcionários do governo e, portanto, tinha o direito de saber o que eles faziam’.


Proteção de fontes vs. Lei


O FBI alega que a disputa sobre os papéis, que serão catalogados pela Universidade George Washington, é simplesmente uma questão de cumprimento da lei. ‘Está determinado que entre os papéis existem inúmeros documentos secretos do governo americano’, afirmou Bill Carter, porta-voz do Bureau. ‘Sob a lei, nenhuma pessoa física pode manter documentos confidenciais que foram entregues a ela ilegalmente. Estes documentos são de propriedade do governo’, justificou.


O confronto, que parece ter começado com um esforço do FBI para encontrar provas relacionadas a um caso criminal contra dois lobistas pró-Israel, rapidamente se transformou em um novo teste realizado pela administração Bush para avaliar a proteção de segredos governamentais e a habilidade dos jornalistas em divulgá-los. Agentes do FBI investigam diversos vazamentos de informações confidenciais, incluindo detalhes de escuta ilegal feita pela Agência de Segurança Nacional americana e as prisões secretas para suspeitos de terrorismo administradas pela CIA.


Os dois lobistas em questão, ex-empregados do Comitê Israelense-Americano de Assuntos Públicos (AIPAC, sigla em inglês), grupo de pressão pró-israelense no Congresso dos EUA, serão julgados em maio pelo recebimento de informações confidenciais, em um caso criticado por defensores de direitos civis como uma tentativa de criminalizar a troca rotineira de informação interna. ‘Eles [agentes do FBI] primeiro entraram em contato com minha mãe, falando sobre o caso AIPAC e afirmando que meu pai tinha alguns documentos confidenciais, nos quais eles queriam ver as impressões digitais para identificar possíveis fontes. Mas eles também disseram que queriam olhar todas as caixas a fim de ver se encontravam informações secretas’, lembra Kevin, afirmando que não achava que seu pai havia escrito sobre o AIPAC e que isto era apenas um pretexto do Bureau para ter acesso a outros documentos.


Recentemente, a organização National Archives suspendeu um programa baseado na lei de liberdade de informação para acesso a arquivos confidenciais do governo porque agências de inteligência retiraram milhares de documentos históricos do acesso público por considerar que eles ainda devem ser considerados confidenciais.


Caso sem precedentes


Mesmo com os esforços do governo Bush para proteger informações confidenciais, a busca por documentos vazados anos atrás para Anderson parece algo inédito, afirmam analistas. O bibliotecário da Universidade George Washington, Jack Siggins, afirma que a universidade se posicionou contra a tentativa do FBI de remover qualquer material do arquivo de Anderson. ‘Nós certamente não queremos que ninguém vasculhe este material. Achamos que Jack Anderson representa algo importante para a cultura americana ao ter tentado responder a pergunta: ‘como o nosso governo trabalha?’’, diz ele.


Anderson escreveu até os 81 anos para a coluna sindicalizada Merry-Go-Round, parando somente depois de ficar muito doente. Ele foi contratado pelo fundador da coluna, Drew Pearson, em 1947. Seus arquivos ficaram guardados por anos na Universidade Brigham Young antes de serem transferidos para a George Washington, a pedido do próprio jornalista.

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