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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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ENTRE ASPAS > DOMINGO, 13/04

Artistas fazem tributo
ao criador de Asterix

Por Luiz Antonio Magalhães (seleção de textos) em 14/04/2008 na edição 480


Leia abaixo os textos de domingo selecionados para a seção Entre Aspas.


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Folha de S. Paulo


Domingo, 13 de abril de 2008


HQ


Marco Aurélio Canônico


Artistas desenham Asterix em tributo ao seu criador


‘Semelhante à cena do filme ‘Uma Mente Brilhante’ em que os professores de Princeton reconhecem a genialidade do matemático John Nash dando-lhe suas canetas, 34 dos mais renomados artistas de quadrinhos do mundo cederam suas penas para homenagear Albert Uderzo, um dos pais de Asterix, em seu 80º aniversário.


O resultado, ‘Asterix e Seus Amigos’, chega agora ao Brasil (com Uderzo próximo de fazer 81, em 25 de abril), depois de ser lançado na Europa no ano passado. Cada artista convidado -gente como David Lloyd, Milo Manara (‘Clic’), Stuart Immonen (‘Superman’) e Vicar (da Disney)- criou uma história ou charge, de uma a quatro páginas.


‘Foi um grande privilégio contribuir com uma história em homenagem a um dos mais populares e mais habilidosos cartunistas do mundo’, disse à Folha o inglês David Lloyd (de ‘V de Vingança’), um dos participantes do álbum.


‘A influência de Asterix nos quadrinhos, como meio e como negócio, é algo que já dura anos e que sempre me impressionou profundamente.’


De fato, os personagens criados por Uderzo (desenho) e René Goscinny (texto) em 1959 tornaram-se ícones da cultura francesa e sucesso mundial -já foram vendidas 330 milhões de cópias dos 33 álbuns (nove dos quais criados apenas por Uderzo, após a morte de Goscinny, em 1977).


Os irredutíveis gauleses também extrapolaram o meio das HQs, gerando três filmes com atores, oito desenhos animados, jogos, brinquedos e um parque temático perto de Paris.


Embaixador infantil


À época do lançamento de ‘Asterix e Seus Amigos’ na Europa, Uderzo destacou sua importância social -a renda obtida é destinada à ONG francesa Defensoria das Crianças.


‘Transformar Asterix em embaixador dos direitos das crianças é uma honra para mim’, disse o autor ao jornal francês ‘Le Monde’.


‘As histórias de Asterix são divertidas, educativas, aventuras com uma moral, e vêm entretendo leitores de idades variadas há décadas’, afirmou Lloyd. ‘E também fazem o papel de embaixadoras das HQs, mostrando a extrema criatividade que o meio pode atingir.’


Criativos também foram alguns dos autores em suas homenagens, como o francês Hervé Baruléa, o Baru, que atualizou os personagens fazendo referência aos tumultos nos subúrbios parisienses, com seus carros queimados e confrontos com a polícia (no papel que cabe aos romanos no original).


O italiano Manara, por sua vez, fez uma divertida história em que coloca uma de suas célebres mulheres gostosas para vingar as incontáveis surras que a aldeia gaulesa de Asterix aplica nos romanos.


Asterix em Patópolis


Como costuma acontecer em coletâneas do tipo, o resultado final é misto -há histórias fracas, outras muito boas e idéias repetidas, como a de transformar Uderzo em personagem (Lloyd é um dos que utilizam essa tática, com referências ao seriado ‘O Prisioneiro’).


Uma das homenagens mais importantes veio do chileno Victor Arriagada Rios, o Vicar, que misturou as criações do francês às do homem que o inspirou, Walt Disney. Em ‘Asterix em Patópolis’, o baixinho bigodudo e seu forte amigo Obelix encontram-se com Donald e sua família, e os patos devolvem a deferência que Uderzo sempre prestou às criações de Disney.


Um bom complemento à obra está no endereço www.asterix.com/80ans, que tem uma animação francesa narrando a história de Uderzo, além de amostras do trabalho dos ilustradores no álbum.


ASTERIX E SEUS AMIGOS


Editora: Record


Quanto: R$ 25, em média (64 pág s.)’


Lucas Neves


Brasileiros reinventam personagens e exaltam destreza do inventor francês


‘As imagens que ilustram as laterais desta página são assinadas por oito desenhistas da Folha, convidados a reinventar os personagens de Albert Uderzo. Para eles, o apuro técnico dos traços do francês, casado ao humor fino de René Goscinny, explica por que o culto ao personagem se estendeu para além dos limites de sua aldeia gaulesa natal.


‘Uderzo tem um controle da qualidade de linha e de colorido que é maravilhoso. Faz um cartum, mas tem uma base muito sólida de desenho, noções claras de anatomia e perspectiva’, observa o ilustrador Fernando Carvall, de cuja pena saiu um ‘logotipo’ do personagem. ‘Não ia me aventurar a fazer um outro Asterix, né?’


O quadrinista Caco Galhardo, que trouxe o mirrado gaulês e Obelix para o universo de beldades gigantes de seu Chico Bacon (‘traçariam vários javalis juntos’), ressalta o alcance universal das histórias e imagina uma encarnação tupiniquim da dupla: ‘Seriam índios combatendo os ‘portugas’ e tirando uma onda com eles’.


O ilustrador Orlando Pedroso também vê na facilidade de identificação com as tramas a chave do sucesso de Asterix. ‘Aquela aldeia pode ser nosso bairro, cidade: inimigos, conflitos e alegrias têm a ver conosco. Toda a ambientação nos coloca em contato com aquele mundo’, diz ele, que chama as criações de Uderzo de ‘achados’.


Orlando e Carvall apontam, nos quadrinhos brasileiros, um ‘primo’ do gaulês marrento. ‘A Turma do Pererê’ [de Ziraldo] tem um pouco da picardia do Asterix’, diz o segundo.’


FUTURO DA MÍDIA


Gilberto Dimenstein


Comunicadores do futuro


‘ADOLESCENTES SE REUNIRAM num teatro em São Paulo, na segunda-feira passada, para contar como a mídia mudou a vida deles. Não falaram como ouvintes, leitores ou telespectadores. Eram todos comunicadores experimentais, e sua visão do mundo (e de si próprios) passou a ser influenciada pela produção de notícias.


Não participaram dessas experiências necessariamente para seguir carreira em comunicação, mas, em essência, para se encantarem com o prazer da descoberta de novidades e poder divulgá-las usando o rádio, a televisão, o jornal e a internet. Deixei o encontro convencido de que esses estudantes de São Paulo, do Rio, de Belo Horizonte, de Salvador e de Fortaleza poderiam ensinar aos professores como estudar pode ser mais interessante. Já seria uma aula e tanto, mas nada parecido em novidade com a lição que, talvez, consigam dar aos jornalistas.


Há uma chance de que tenham uma dica para ajudar os jornalistas a atrair a atenção dos jovens para as notícias, um dos grandes desafios da mídia em todo o mundo.


Eles não estavam reunidos para ensinar jornalistas a atrair leitores jovens, mas para relatar como o fato de produzirem notícias deixou-os diferentes. Sentem-se mais atentos e curiosos. Todos são de comunidades populares, vindos de escolas públicas de péssima qualidade; alguns deles não esconderam que detestavam estudar. A certeza de que estavam sendo sinceros sobre a evolução de seu desempenho nos estudos era visível pela fluência e pela precisão de suas falas, complexas, sem erros de português e com riqueza de vocabulário.


Em meio a seus depoimentos, eles revelaram que se tornaram mais interessados em ler e entender notícias, distanciando-se da imensa maioria de seus colegas.


Promovido pelo Unicef, aquele encontro tinha o propósito oficial de lançar em regiões metropolitanas um programa experimental em que jovens vão aprender a investigar e divulgar, usando os recursos da mídia, suas comunidades, a começar das escolas. A idéia é que se tornem construtores de capital social, a riqueza que surge da capacidade de os indivíduos se comunicarem e aceitarem desafios conjuntos.


Uma apuração feita pelo Ministério da Educação, divulgada no mês passado, mostrou que um dos segredos de escolas públicas, que, apesar de todas as dificuldades, vão bem é o capital social -essa habilidade associativa é também uma das estratégias para enfrentar a violência.


Para ser protagonista, é preciso conhecer sua realidade e saber se expressar, o que estimula o aprendizado da língua. As aulas de geografia e história não serão mais um amontoado de datas e fatos desconexos, mas informações que permitem entender melhor o dia-a-dia. As fórmulas de ciência serão instrumentos para compreender problemas como a deterioração do ambiente ou as doenças que infestam as comunidades pobres.


O grupo no teatro só estava lá para dizer, com a vivacidade de suas falas, que tudo isso não é teoria. Aqueles jovens estavam lá para dizer que pode existir uma nova linguagem a ser criada, na qual se mesclam educação e comunicação -esse campo de investigação, ainda incipiente no Brasil, é batizado nos meios acadêmicos de educomunicação.


A tecnologia de informação é apenas um detalhe -um mural com cartazes pode ser tão ou mais eficiente do que um site de última geração, com límpidos vídeos. Justamente por isso, o anúncio feito, na semana passada, em Brasília, de que as operadoras vão colocar banda larga em todas as escolas deve ser visto com cautela. O acesso à internet, por si só, não é suficiente para que os alunos se tornem bons leitores. As bibliotecas, muito mais antigas nos colégios, são pouco usadas -não só porque estão, muitas vezes, fechadas ou defasadas mas também porque não têm intermediadores de leitura. É sabido como há inúmeros laboratórios de informática também fechados.


A tradução da fala dos jovens naquele encontro é a seguinte: o que os seduz é a possibilidade não só de conhecer a sua realidade, mas de transformá-la e deixar nela uma marca pessoal.


Os pedagogos sabem, há muito tempo, que o estudante aprende melhor quando traduz a informação em seu cotidiano. Aqueles jovens estão dizendo que se vai mais longe quando essa tradução significa interagir com a realidade, gerando redes de colaboração na produção de conhecimento -aprender as artes da comunicação é um mecanismo de seleção do que é relevante. Não faltam pesquisas mostrando que, se os adolescentes reverenciam a abundância de informações facilitada pela era digital, eles demandam cada vez mecanismos de seleção.


Pode parecer estranho tanto aos professores como aos jornalistas, mas os jovens estão dando a dica de que, na era da interatividade, serão melhores alunos e leitores se as escolas se tornarem um pouco parecidas com as Redações, e as Redações se tornarem um pouco parecidas com as escolas. Enfim, se eles se sentirem também um pouco comunicadores e professores.


PS – Em 2006, a Prefeitura de Niterói decidiu convidar alunos de 21 escolas municipais a desenvolver projetos com todas as mídias )o programa foi tocado pela entidade ‘Bem TV’. No começo do mês, saiu a avaliação. Deu-se especial atenção a alunos mais desmotivados. Avaliação da experiência feita por pesquisadores da Universidade Federal Fluminense, concluída no início do mês: queda de 37% no índice de repetência. Coloquei no meu site (www.dimenstein.com.br) o detalhamento do programa.’


LITERATURA & JORNALISMO


Frei Betto


João & Joaquim (e outros imortais)


‘JOAQUIM MARIA Machado de Assis faleceu há cem anos. João Guimarães Rosa nasceu há cem anos. Os dois imprimiram dimensão estética ao enigma do feminino: Capitu, por Joaquim; Diadorim, por João. Os dois morreram no Rio, os dois em casa, os dois sozinhos. Joaquim, no Cosme Velho, viúvo; João, em Copacabana, a 19 de novembro de 1967, quando a mulher saíra para a missa.


Carioca, autodidata, fundador da Academia Brasileira de Letras, Joaquim construiu uma obra de inesgotável polissemia. Seu estilo revela a leveza da pena, graças às suas crônicas para jornais. Seus textos parecem, à primeira vista, ao alcance de qualquer leitor. Porém, exigem acuidade para serem captados em sua profusão de símbolos, subterfúgios, entrelinhas e aparentes tautologias.


Mineiro de Cordisburgo -’cidade do coração’-, poliglota, médico e diplomata, João reinventou a língua portuguesa, abrasileirou-a, potencializou-a, implodiu as regras da narrativa convencional, fez do sertão uma epopéia.


João observa o mundo pela cerca do pasto; Joaquim, pela janela do sobrado. O primeiro é rural; o segundo, urbano. João se solta nas águas límpidas dos grandes rios para pescar, nas profundezas, as metafísicas interrogações do humano. Joaquim é intimista, realista, encontra nos salões, numa conversa banal, a matéria-prima que lhe permite desvelar recônditos segredos da alma.


João encara o mundo de baixo para cima, situado no lugar social dos anônimos; pisa em bosta de vaca para descrever infinitudes. Joaquim é quase dândi, apresenta-se de luvas e cartola e, aos poucos, rasga-nos a fantasia, perfura a pele, escancara o coração, expõe as vísceras.


João é teólogo, apocalíptico; Joaquim, filósofo, irreverente. João é assombro; Joaquim, ironia. Este ergue seu bico de pena e penetra nos meandros de nossa inelutável insensatez; João mete a foice e desbasta, abre veredas em direções inesperadas.


Joaquim é cartesiano, explora a dúvida, o suspense, a ambigüidade, o contraditório. João é barroco, retorce a gramática, subverte a sintaxe, arranca o vocabulário de seu perfilar ordenado e o atira no corpo de baile dos entremeios do espírito.


Joaquim faz de sua literatura uma caprichosa renda; vista à distância, sua obra parece impecável toalha sobre a mesa, cuja beleza resulta de seus intrincáveis bordados, só apreciados pelo leitor arguto. João prefere juntar os cacos espalhados pelo chão da vida e expor o vitral de tantas sagas e aventuras.


Seu talento é inalcançável, pois se isolou num universo vocabular e semântico único, singular; melhor comparando, apagou o idioma da lousa e nos labirintos da sintaxe reconstruiu-o letra por letra, palavra por palavra, num tecido radicalmente local, esplendorosamente universal.


Nos dois, o domínio impecável da língua, o estilo cativante, o ritmo preciso. Os dois são inimitáveis. Joaquim nos convida a um jogo repleto de surpresas; João, a uma viagem através do misterioso sertão que cada um de nós traz dentro de si.


Este é um ano de muitas comemorações literárias. Há 400 anos nascia o padre Vieira (6/2/1608), que nos ensinou a reverenciar o idioma português, e, há 120 anos, Fernando Pessoa (13/6/1888), para quem ‘o poeta é um fingidor / finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente’. Há 60 anos nos deixava Monteiro Lobato, que encantou a minha infância e habituou-me aos livros.


Antonio Candido, o maior crítico literário vivo, autor do clássico ‘Parceiros do Rio Bonito’, faz 90 anos. E há 90 anos transvivenciou Olavo Bilac, que nos convida a ouvir estrelas. E Manuel Bandeira falecia há 40 anos, ele que nos induz a surfar na poesia: ‘a onda anda / aonde anda / a onda? / a onda ainda / ainda onda / ainda anda / aonde? / aonde? / a onda / a onda’.


CARLOS ALBERTO LIBÂNIO CHRISTO , o Frei Betto, 63, frade dominicano e escritor, é autor, de ‘Alfabetto Autobiografia Escolar’, entre outras obras. Foi assessor especial da Presidência da República (2003-2004).’


TELEVISÃO


Daniel Castro


Sensação de 2007, ‘Heroes’ desaba no ranking das séries


‘Seriado mais visto da TV paga brasileira no primeiro semestre de 2007, ‘Heroes’ desabou em 2008. O programa, em segunda temporada no Universal Channel, não está entre as 15 séries de maior audiência no primeiro trimestre deste ano.


O campeão do início de 2008 foi ‘House’ (Universal Channel), com média de 100.665 telespectadores por episódio.


Ambos do Universal Channel, ‘Law & Order: Special Victims Unit’ aparece em segundo lugar (89.631 telespectadores por episódio) e ‘Monk’, em terceiro (83.881).


O ranking, obtido com exclusividade pela Folha, traz apenas as 15 séries mais vistas do primeiro trimestre, entre todos os públicos e com mais de duas exibições no período.


No ar pelo AXN (antes era do Sony) desde 11 de fevereiro, a oitava temporada de ‘CSI’ ocupa a quarta posição, seguida por ‘Two and a Half Men’, ‘The Big Bang Theory’ e ‘Without a Trace’, do Warner.


Além de ‘Heroes’, outra grande ausência no ranking é ‘Lost’. Mas a série do AXN está, sim, com boa audiência. É que a quarta temporada do programa só estreou em 10 de março, o que prejudica sua posição em um estudo trimestral. Segundo o AXN, o seriado tem sido líder de audiência na TV paga em seu horário.


Bastante prestigiadas no Brasil, ‘Desperate Housewives’ e ‘Grey’s Anatomy’, do Sony, também não estão entre as 15 mais do primeiro trimestre. Ambas estrearam em meados de fevereiro. Já ‘Brothers and Sisters’ foi a 13ª mais vista.


A DONA DA BOLA


Para compor Ivonete, sua personagem em ‘Chamas da Vida’, próxima novela da Record, a linda Amandha Lee (foto) viu todos os filmes de Pedro Almodóvar. ‘Ela tem o peitoral e o gestual das mulheres dos filmes dele’, conta a atriz. O figurino foi inspirado no de Penélope Cruz em ‘Volver’. ‘São roupas muito coloridas, cinturas altas e saias-lápis’, diz. Ivonete será a antagonista da mocinha Carolina (Juliana Silveira), com quem disputará o bombeiro Pedro (Leonardo Brício). ‘Ela não é ruim. Só vai lutar pelo amor da sua vida. Seu bordão é ‘Entrou na minha área, eu derrubo’.’ Mas Ivonete não joga futebol.


50 ANOS DE MENTIRA


Em entrevista ao ‘Irritando Fernanda Young’ (GNT), Glória Maria revelou que começou a mentir sua idade ‘desde pequeninha’. A idade da jornalista é um dos grandes segredos da TV brasileira. ‘Adoro esse mistério. Comecei a mentir minha idade aos sete anos. Eu menti e vou mentir sempre, as pessoas preferem a ficção e eu também. Deixo as pessoas pensarem o que elas quiserem, pois elas já pensam mesmo’, disse. Glória também falou sobre sua luta pela longevidade. ‘Eu comecei a tomar cápsulas aos 18 anos. Tomo cápsula para não ter celulite, para não ficar velha, para tudo eu tomo cápsula’. Ela falou ainda que estava infeliz apresentando o ‘Fantástico’ (Globo) e que não sente nenhuma falta do programa. A entrevista vai ao ar no próximo dia 27.


ACABOU O RECHEIO


Apesar de a próxima novela das oito ter sido classificada para as 20h, a Globo não mudará a programação que desde terça envia para Estados do Norte e Centro-Oeste, por causa da obrigatoriedade de respeitar o fuso horário. Assim, Estados como o Amazonas continuarão vendo o ‘Jornal Nacional’ antes da novela das sete. A emissora quer evitar novas mudanças no hábito do telespectador.


TAPINHA


O SBT está apanhando para gravar programas com câmeras de alta definição. É que a nova tecnologia exige maquiagem caprichada (para esconder falhas na pele) e cenários mais horizontais. A emissora suspendeu o uso dessas câmeras nos programas de Silvio Santos.


HOMENAGEM


Fulvio Stefanini será o homenageado deste mês (dia 23) na série ‘Dramaturgias’, do Centro Cultural Banco do Brasil, em que atores consagrados são convidados a ler a peça de teatro de seus sonhos. Stefanini escolheu ‘Até que o Sexo nos Separe’, de Walcyr Carrasco.


Pergunta indiscreta


FOLHA – É verdade que você é quem realmente escreve ‘Revelação’, a novela de Íris Abravanel (mulher de Silvio Santos), prevista para estrear no SBT em maio?


YVES DUMONT (autor de novelas) – Não, não é verdade. Sou efetivamente o supervisor da novela. A Íris é quem escreve, com uma equipe de seis colaboradores. Eu apenas participo das reuniões de escaleta [em que são definidas todas as cenas de cada capítulo] e, depois de escritos, recebo os capítulos para uma supervisão.’


Márvio dos Anjos


Nem política pára ‘Law & Order’, que chega à sua 18ª temporada


‘Seriado mais longevo dentre os policiais, ‘Law & Order’ estréia amanhã, às 23h, no Universal Channel, sua 18ª temporada, com alterações no cast. Uma delas travou relação direta com a atual corrida presidencial nos Estados Unidos.


Tudo porque o senador e ator Fred Dalton Thompson, que chefiava a Promotoria na pele de Arthur Branch, tentou se dedicar à sucessão de George W. Bush, mas não teve chances nas prévias do Partido Republicano, que hoje aponta John McCain à Casa Branca.


A saída foi promover o personagem do promotor-assistente Jack McCoy (vivido por Sam Waterston) ao cargo, enquanto Michael Cutter (Linus Roache) iria aos tribunais para pôr réus na prisão.


A outra novidade é a entrada do ótimo ator Jeremy Sisto (que fez o bipolar Billy Chenowith nas cinco temporadas de ‘A Sete Palmos’) na fórmula da dupla de policiais do seriado, em substituição a Milena Govich. Jesse L. Martin continua como o policial Green.


Na pele do policial Cyrus Lupo, Sisto chega ao seriado quando seu irmão morre em suspeita de suicídio assistido. E o que parece um caso isolado acaba se conectando a outro suicídio, que envolve um médico em liberdade condicional e um repórter sensacionalista.


A crítica aos excessos da imprensa é uma constante na franquia e, numa só tacada, o episódio vai fundo nos limites da Constituição americana sobre direito à vida e liberdade da mídia. E Constituição lá é assunto sério, quase bíblico.


E assim se começam a traçar as tendências da temporada, em que Cutter surge como um promotor ainda menos ortodoxo que McCoy, enquanto Lupo, ao menos no início, terá que lidar com fantasmas familiares após a morte do irmão.


LAW & ORDER – 18ª TEMP.


Quando: estréia amanhã, às 23h


Onde: no Universal Channel’


Bia Abramo


Crime em ritmo de espetáculo


‘A ESTA altura, o chamado ‘caso Isabella’ já está solucionado. No momento em que esta coluna é escrita, a polícia diz ter 99% do caso resolvido. É quinta-feira, início da tarde, e, se estamos a apenas 1% da certeza às 14h30, é muito provável que a história completa esteja pronta a tempo de entrar na pauta dos telejornais noturnos.


Qualquer que seja o desfecho, qualquer que tenha sido o assassino, é daquelas histórias de sofrimento e dor insuportáveis -da menina espancada e socorrida ainda com vida, da mãe e do pai que perdem a filha ainda pequena, só para nomear as mais diretas-, portanto, mesmo que a gente acabe sabendo quem matou, não há bem ‘solução’ para o ‘caso’.


Na televisão, a morte da menina foi tratada em ritmo de investigação policial, com toque de comoção. Perícias foram feitas, gente foi presa, substâncias misteriosas (mas familiares para quem assiste às séries policiais norte-americanas) foram usadas, sangue e DNA foram testados; quase como em um episódio de ‘CSI’ ou de ‘Law & Order – SVU’, a toda esta movimentação deve seguir, como um corolário natural, o esclarecimento.


E, no entanto, não há nada de ‘natural’ nisso, pelo menos na experiência brasileira. Muitos crimes permanecem na obscuridade, pelas mais diversas razões, que vão do desinteresse em investigá-los aos interesses que obstruem o acesso à verdade. Entretanto, o imaginário da cultura de massa, numa genealogia comprida, que vai dos contos de Edgar Allan Poe (1809-1849) ao último seriado policial e às telenovelas, nos habituou a esperar a revelação do assassino, ainda por cima em casos espetaculares como o de Isabella.


Por outro lado, comoção, autêntica e fabricada. O assassinato, embora seja fato corriqueiro, é sempre um mistério; quando se assassinam crianças, soma-se a crueldade do mais forte contra o mais fraco ao inexplicável; daí a naturalidade da emoção. Mas nós, a mídia, também fabricamos essa emotividade, seja reiterando o assunto seguidas vezes, seja explorando os detalhes mais irracionais.


Por que é que um telejornal, de ordinário sóbrio como o ‘Hoje’, ilustra reportagens sobre as investigações com fotos da menina sorridente, os dentes-de-leite faiscando para a lente, a pose cheia daquela falsidade graciosa das crianças diante da câmera? Não há informação nenhuma na imagem, só o efeito de sussurrar aos nossos ouvidos: ‘Ela, esta criança tão bonitinha, está morta; revolvam seus sentimentos a respeito’.


Não há na mídia, em geral, nem na televisão, em particular, lugar para a simples tragédia.’


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O Estado de S. Paulo


Domingo, 13 de abril de 2008


TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO


Ethevaldo Siqueira


O legado de Sérgio Motta, dez anos depois


‘‘Num futuro muito próximo, você poderá comprar seu celular em lojas e até mesmo em postos de gasolina. Em poucos anos, o Brasil terá milhões de usuários e diversas operadoras em regime de competição. Em muitos casos, o assinante poderá receber o aparelho de graça, pagando apenas os serviços.’


Essa era a previsão que o ex-ministro das Comunicações, Sérgio Motta, fazia em 1996 para o futuro da telefonia celular brasileira, quando o País promovia o primeiro leilão de licenças de banda B, iniciando o processo de competição nesses serviços. Pouca gente acreditava na visão otimista do ministro que ousava quebrar os velhos paradigmas de um setor estagnado e quase sem futuro como eram as telecomunicações no começo dos anos 1990. A previsão de Serjão se confirmou e não surpreende mais a ninguém. O Brasil de 1996 tinha pouco mais de 2 milhões de celulares. Hoje tem 125 milhões. Pena que não tenha vivido para comemorar esses resultados e, em especial, os do modelo de privatização da Telebrás, pois faleceu no dia 19 de abril de 1998.


Como brasileiro, sinto-me no dever de relembrar um pouco do trabalho do ex-ministro, neste décimo aniversário de sua morte. Conheci-o nos tempos de nossa política universitária em plena ditadura. Embora distantes e sem muito contato pessoal, pertencíamos à mesma organização de resistência, a Ação Popular (AP). Reencontrei Sérgio Motta no final de 1994, logo que ele recebeu o convite para ser ministro das Comunicações do presidente eleito, Fernando Henrique Cardoso.


Embora fosse engenheiro e cidadão profundamente interessado nos problemas nacionais, Sérgio Motta não tinha experiência em telecomunicações. Por isso, ao formar o grande círculo de discussão do futuro do setor, me pediu para indicar os nomes dos melhores profissionais e especialistas que, em minha opinião, pudessem dialogar com ele.


Sérgio Motta tinha paixão pelo debate. Depois de mais de dois meses de discussão, convenceu-se de que, diante do esgotamento do modelo estatal, não havia outro caminho para o País do que privatizar. Foi assim que, com sua determinação e o apoio de Fernando Henrique, conseguiu fazer pelo País o que, talvez, nenhum outro ministro das Comunicações pudesse fazer.


Em pouco mais de seis meses, Sérgio Motta conseguiu convencer o Congresso a mudar o artigo 21da Constituição, que só permitia a exploração dos serviços de telecomunicações por empresas estatais. Em 1996, introduziu a competição no celular, com o leilão da banda B, que rendeu mais de R$ 8 bilhões.


‘Temos que fazer uma boa privatização, com uma lei geral, uma agência reguladora profissional e independente’, alertava. ‘Pior do que manter qualquer sistema estatal é fazer uma privatização desastrada.’


Para que o País aprendesse com a experiência internacional, enviou três assessores ao exterior para levantar em vários países os modelos mais modernos de privatização, de legislação e de agências reguladoras. Contratou consultorias internacionais para levantar o valor real da Telebrás e definir a melhor estratégia privatização. E, com sua experiência e sabedoria política, soube esquivar-se de todos os lobbies – de sindicatos, de empresários e de investidores. Em julho de 1997, depois de quase um ano de intensos debates, o Congresso brasileiro aprova a Lei Geral de Telecomunicações, então uma das mais modernas e completas do mundo, trazendo em seu bojo as linhas gerais do novo modelo regulatório, com a criação da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).


Em novembro de 1997, instala-se a agência, dirigida por cinco profissionais competentes e respeitados. Tudo caminhava muito bem com o projeto de reestruturação das telecomunicações, menos a saúde do ministro. Depois de recuperar-se de um enfarte em setembro de 1997, Sérgio Motta passou a lutar contra uma velha infecção pulmonar, que se agravou no início de 1998.


Poucos minutos antes de ser internado na UTI do Hospital Albert Einstein, em São Paulo – de onde não sairia com vida -, o ex-ministro Sérgio Motta encaminha ao presidente Fernando Henrique um fax com a mensagem manuscrita, em que praticamente se despede do amigo, agradece seu apoio ao projeto de reestruturação geral das telecomunicações e pede, no final: ‘Não se apequene, presidente. Cumpra o seu destino histórico. Coordene as transformações do país’.


Sem Sérgio Motta, a privatização da Telebrás foi conduzida pelo novo ministro, Luiz Carlos Mendonça de Barros. No leilão realizado no dia 29 de julho de 1998, a Telebrás e suas subsidiárias foram vendidas por R$ 22,26 bilhões, o que representa quase US$ 19 bilhões. Era a maior privatização de telecomunicações da década.


Para os que ainda duvidam do acerto da privatização das telecomunicações, bastam dois indicadores. Primeiro quanto ao número de telefones ou acessos fixos e móveis. De pouco mais de 24,5 milhões em julho de 1998, o Brasil passou para quase 170 milhões hoje, o que representou um crescimento físico de 600% e um salto na densidade, de 14 telefones por 100 habitantes para os 91 atuais.’


PROPAGANDA & MARKETING


Marili Ribeiro


Consumidor é o novo dono da festa


‘Existe uma categoria de eventos, há muito utilizada por marcas que buscam colar sua imagem ao glamour, que sempre chamou a atenção do homem comum, mas à qual ele nunca teve acesso. Esses encontros repletos de convidados vips acabavam divulgados por publicações e programas voltados às celebridades. Era essa a finalidade. Porém, cansadas de pagar caro por isso e ver sempre os mesmo vips nas festas, as empresas estão abandonando a tática de marketing. Ganha com isso o cidadão comum, que, agora, é o dono da festa.


‘Em vez de gritar na Caras, por que não falar ao ouvido do meu consumidor’, brinca o gerente de produtos Premium da AmBev, Ariel Grunkraut, para sintetizar o espírito do que sua empresa vem fazendo. ‘O problema de festas com vips é que hoje eles estão na da sua marca e amanhã estão na do concorrente’, pondera Eduardo Bendzius, diretor de marketing da Diageo, que tem no seu portfólio marcas como o uísque Johnnie Walker e a vodca Smirnoff.


A estratégia que vem sendo adotada pela líder do mercado cervejeiro para os seus rótulos voltados ao público de maior poder aquisitivo é a de promover eventos em que o consumidor da marca seja a estrela. ‘Num evento como o Boteco Bohemia ou Circuito Original não cabe uma ação de marketing como a de pagar para o Ricardo Mansur (jogador de pólo) posar com uma Bohemia ou Original na mão para sair em coluna social’, explica Grunkraut.


‘Nós aprendemos que o consumidor quer vivenciar suas próprias histórias e contar para o grupo de amigos. Não apenas ver um famoso na revista. Ao proporcionar essa situação para ele, multiplicamos os pontos de contato com a marca e temos mais retorno em vendas’, diz ele.


O Boteco Bohemia mobiliza milhares de paulistanos no Moinho Santo Antônio, um amplo espaço na zona leste da cidade, onde são apresentados os petiscos dos botecos eleitos em votação aberta ao público no portal da AmBev. Na escolha dos melhores do ano, há uma festa movida a roda de samba e música popular brasileira, sem nenhum espaço vip. A iniciativa deu tão certo que será reproduzida em Curitiba e Brasília ainda este ano.


No Circuito Original, a ação é bem menor e acontece nos bares clássicos da boemia cervejeira no Rio e em São Paulo. Neles a companhia promove shows de sambistas, jazzistas, chorões, sempre em petit comitê para um grupo de freqüentadores do lugar. ‘É uma experiência única que o consumidor vai partilhar com muitos amigos’, diz Grunkraut. O fato sequer é divulgado. Fica restrito ao mais legítimo boca-a-boca.


CINEMA NAS ALTURAS


Descrita como ‘experiência de marca’, essa onda cresce. A Diageo, em especial, vem se esmerando em patrocinar ações que apelam ao inusitado. Para a marca Johnnie Walker, criou o cinema nas alturas e o jantar às escuras. ‘A marca tem o compromisso global de buscar o pioneirismo em suas ações de marketing’, diz Bendzius. ‘Houve grande desgaste das fórmulas tradicionais. As mensagens que queremos passar não atingem mais o consumidor como antes, pois ele está mais crítico.’


A líder mundial no seu segmento de bebidas teve a idéia de convidar os nova-iorquinos para assistir à première de filmes no teto dos prédios sob o skyline da cidade. A proposta foi um sucesso em adesões. Trouxe a prática para São Paulo com boa aceitação.


‘É tão difícil poder se divertir em São Paulo ao ar livre. Sempre que vou ao cinema acabo trancado em alguma sala de shopping’, diz o médico Danilo Luciancencov, que foi com a namorada à estréia de Butterfly on a Wheel em São Paulo. O filme chegará às redes de cinema só em junho. ‘Mas assistir a um filme, no topo de um prédio, é o máximo. É um contato direto com a cidade. Lá de cima, ela fica linda. Sem contar que é tão difícil a gente parar para ver as estrelas que essa foi uma boa oportunidade.’


Em busca de surpreender um consumidor foi criada a Sala do Professor Buchaman’s, com encontros musicais onde os participantes aprendem sobre o que vão ouvir. O sucesso da idéia migrou para sessões de cinema no mesmo estilo.


O melhor dessas ações de marketing é que elas custam menos para as empresas, porque os ‘convidados’ pagam parte dos custos. A receita pode abater 40% do que é investido. ‘Armar a estrutura, desde alugar o espaço, levar os projetores para o prédio, além do coquetel, não custa barato’, destaca Bendzius.


Para assistir a um filme nas alturas basta garantir a vaga no site da empresa e desembolsar R$ 35. Já no jantar às cegas, com direito à degustação de uísques, que na primeira versão aconteceu no bistrô do Charlô, o consumidor que fez a reserva gastou R$ 90. E riu muito tendo de comer de olhos vendados, como diz a professora de inglês Ana Lúcia Souza. ‘Eu não acertava o garfo na boca e descobri que meu paladar precisa de MBA de tão desorientado sobre os sabores que provei.’’


***


Evento menor não exclui ação mais abrangente


‘O publicitário Geraldo Rocha Azevedo, da NeogamaBBH, lembra que eventos menores para conectar o consumidor com a marca não excluem as outras ações mais abrangentes na categoria. ‘Como a economia está bombando, há espaço para todas as ferramentas de marketing’, diz ele. ‘Há formatos adequados para cada público, desde os grandes eventos para massas até os pequenos para públicos mais focados.’ O importante é criar situação de engajamento com a marca. ‘Cada vez mais as marcas querem falar com a comunidade de simpatizantes’, diz Augusto Cruz Neto, presidente da agência de eventos Mood. ‘Não adianta causar impacto através uma lista de vips de uma promoter famosa, mas sem conexão com a marca. Fazer festa hoje dá mais trabalho.’’


ZIMBÁBUE


O Estado de S. Paulo


TV estatal do Zimbábue acusa oposição de ter fraudado eleição


‘Reuters – A TV estatal do Zimbábue acusou ontem a oposição de ter fraudado as eleições gerais do dia 29. A TV assegurou ter descoberto um documento secreto – escrito pelo secretário-geral do Movimento Pela Mudança Democrática, Tendai Biti, – no qual ele detalhava como o partido teria comprado agentes eleitorais para ‘aumentar os votos’ a favor da oposição. O MMD, que venceu as eleições parlamentares, assegura ter vencido a votação presidencial e rejeita um segundo turno.


O impasse nas eleições presidenciais no Zimbábue ‘não é uma crise’ e a comissão eleitoral precisa ter tempo para divulgar os resultados da votação, disse ontem o presidente sul-africano, Thabo Mbeki. Ele se reuniu por uma hora em Harare com o presidente zimbabuano, Robert Mugabe.’


TELEVISÃO


Patrícia Villalba


Um vespeiro aqui, outro acolá


‘Os mestres noveleiros sabem que novela boa não é necessariamente a que dá grande audiência, mas a que repercute. É aquela que, vendo ou não, a gente vai saber o que houve no capítulo da véspera. Pode ser a invasão da Portelinha ou a tentativa de linchamento promovida por evangélicos. De repercussão, o ex-jornalista e hoje autor Aguinaldo Silva entende bem. Tanto, que a sua Duas Caras dá a impressão de estar há um ano no ar, tantos foram os acontecimentos mirabolantes. Na reta final da trama, que termina no próximo mês, o autor fala ao Estado.


De todos os vespeiros que você tem mexido em Duas Caras, qual foi o mais difícil de tocar?


A história do que eu chamo de ‘novíssima família’, o triângulo amoroso entre Bernardinho, Dália e Heraldo. Eu esperava que a história merecesse rejeição imediata. Não foi o que aconteceu, todo mundo acha os três ‘uns fofos’.


Antes, os personagens de novela eram lineares. O que mudou para que chegássemos a uma estrutura como a de Duas Caras, onde os personagens são essencialmente ambíguos?


A própria vida. As pessoas até pouco tempo eram lineares, ou pelo menos se imaginavam desse jeito. A realidade, e o excelente trabalho realizado pela imprensa nos últimos anos no Brasil, mostrou que não é nada disso. As pessoas são boas ou más dependendo das circunstâncias, falham e se contradizem a toda hora.


Qual foi a maior dificuldade de escrever uma novela como essa, tendo personagens ambíguos como matéria-prima?


O folhetim, deixando de ser linear, torna-se bem mais complexo. O autor faz suas escolhas: quem será o próximo a mostrar sua segunda cara? E ele nunca sabe se vai dar certo. Às vezes, se surpreende. Vou citar um caso interessante. O site da novela vem fazendo uma enquete: ‘Com quem deve ficar Maria Paula?’ Claro, Ferraço é quem tinha a menor chance, mas eu precisava fazer com que Maria Paula casasse com ele, e então passei a manipular a história para que o público não a rejeitasse. Pelos meus cálculos, Ferraço assumiria o primeiro lugar na enquete no dia em que salvasse o filho da morte por afogamento (dia 3 de abril). Mas isso aconteceu três dias antes, em 31 de março.


A gente sempre ouve falar que a novela, obra aberta, pode mudar conforme os mandos e desmandos da audiência. Já fez alterações por causa dela?


Não por causa da repercussão entre os telespectadores, mas sim por causa da repercussão em alguns corredores mais escuros de Brasília. Alzira, sem meias palavras ou eufemismos, deixou de dançar por causa disso. Pela mesma razão eu tive que descobrir, no prazo de uma noite, um jeito de tirar a uisqueria da história.


Antes, havia a censura. Agora, há a reclamação generalizada – os sindicatos, as igrejas e qualquer um que se sinta ofendido por uma trama de novela. Você se sente patrulhado?


Não me sinto patrulhado, mas esbulhado. Pois em geral, o que essas pessoas pretendem é alcançar a plena exposição na mídia. Não há como o autor da novela lidar com isso, infelizmente.


Quando a Gioconda diz ‘A culpa é do Fernando Henrique’ é elogio ou ironia?


É ironia. Na época em que ela disse a frase, estava na moda atribuir ao governo de Fernando Henrique todos os males e percalços por que passa o Brasil atualmente. E parece que essa moda ainda existe, tanto que vou dar um jeito de fazer a Gioconda repetir a frase…’


***


Cenas de um folhetim frenético


‘Duas Caras tem homossexualismo, racismo, esquerdismo, neoliberalismo, todos os ismos. Polêmicas que estão a toda hora nos jornais e que, parecem ampliadas num capítulo de novela das 9, como se quisessem chacoalhar o telespectador mais amortecido.


Autor de sucessos como Senhora do Destino (2005), Aguinaldo Silva se mantém na trincheira para defender a sua mais ambiciosa novela. As pedradas são muitas, e o autor não é de deixar pergunta sem resposta.


Logo no começo, ele apresentou um vilão que passa por uma cirurgia plástica para mudar de identidade, inspirado em José Dirceu. Escalou um ‘Romeu negro’ que, por incrível que pareça, é novidade. Pôs a dançarina no poste, escandalizou além da conta, teve de tirar. Mas deu uma cama para três e – surpresa! – agradou. Assim é o laboratório de Aguinaldo, onde a graça é cutucar a audiência com vara curta. ‘O que dou é minha visão pessoal dos fatos e minha opinião a respeito deles. É o que todo criador faz’, admite ele.


Mistérios insolúveis


A identidade do Sufocador com certeza será revelada até o fim de Duas Caras. Mas a novela guarda mistérios quase insolúveis, que desafiam até o mais astuto dos autores:


Está bem que os atores usam mil artifícios para ‘entrar na pele’ dos personagens, mas composição tem limite. A novela está no fim e ainda não deu para entender o porquê de Marcos Winter – que vive o deputado Narciso – usar aquele cabelo loiríssimo e, pior, lentes de contato azuis.


E Maria Paula (Marjorie Estiano), como mantém o emprego no supermercado, se está sempre às voltas com o filho ou atrás de Ferraço?


Quantos vestidos em estilo japonês Bárbara (Betty Faria) tem no armário?


Onde foi parar Dom Diego, o poodle de Maria Eva (Letícia Spiller)?


E por falar em sumiço, o que aconteceu com as ‘super amigas’ de Maria Paula, Jandira (Totia Meireles) e Luciana (Vanessa Giácomo)?


Com quem ficam os filhos de Alzira (Flávia Alessandra), já que ela está sempre fora de casa?


E, enfim, por que a tatuagem de Juvenal Antena (Antonio Fagundes) aparece a cada momento em uma posição?’


Mário Vianna


Dois velhos rabugentos e ótimos!


‘Confesso que alimentava certa birra com Lima Duarte. Reconheço seus grandes trabalhos na TV: o matador Zeca Diabo, de O Bem Amado (1973), o ingênuo Sassá Mutema, de O Salvador da Pátria (1989), o empresário Salviano Lisboa, de Pecado Capital (a primeira versão, de 1975) e o avô Afonso, de Da Cor do Pecado (2002). Mas sempre ficava com a impressão de que a persona de Lima Duarte ocupava a frente dos personagens. Agora, o velho Lima me derrubou. O prefeito Viriato, de Desejo Proibido, vai entrar na lista de seus melhores trabalhos.


As alegorias políticas na trama de Viriato são uma paródia elegante e bem-humorada do triste circo nacional. Inteligente, Lima Duarte dá a cada fala o peso e o tempo certos, sem excessos. As peripécias de Viriato na tentativa de se reeleger prefeito de Passaperto estão integradas à história e a gente torce para que ele distribua seus santinhos de ‘condor das Alterosas’.


Lima não brilha sozinho. Depois do marido depressivo de Páginas da Vida, Marcos Caruso ressurge em tom rasgadamente cômico, com um falsete absurdo, dando vida ao espantado Padre Inácio. Com o mocinho da história, Miguel (Murilo Rosa), o padre é doce, tem um olhar quase beato. Já nas cenas com Viriato, o padre mantém a voz em falsete, mas solta os cachorros na defesa da Igreja. Os embates de Lima Duarte e Marcos Caruso devem embasbacar até os autores da novela – os dois atores visivelmente saem do texto escrito, improvisam e se desafiam, como se fossem o Jack Lemmon e o Walther Mathau da TV brasileira. É uma farra.


Já em sua reta final, a novela das 6 também registra aquele que talvez seja o par romântico mais virginal dos últimos 20 anos. Em nenhum momento se duvida da decisão de Laura (Fernanda Vasconcellos) e Miguel de se conterem por amor até o casamento oficial. Sem posar de puritano, nem todo casal protagonista precisa passar metade do elenco em revista antes do beijo final. Esta semana também, a novela marcou um gol de placa ao falar com delicadeza tocante da primeira menstruação da menina Magu (Bruna Marquezine). Foi uma bela aula de educação sexual em família.’


Patrícia Villalba


Um moço de época


‘Você faz uma pergunta para Murilo Rosa e é o gancho para ele sair em digressões que repassam, um a um, seus personagens na TV. Diverte-se contando as histórias de Martim (Xica da Silva, 1996), do tenente Aquiles (Mandacaru, 1997) ou do Dinho (América, 2005) como se o interlocutor não fosse noveleiro, como se já não o conhecesse da tela. Demonstra orgulho da trajetória e – sim, senhoras! – confirma a aura de ‘genro que toda sogra gostaria de ter’, que transpassa as interpretações. Murilo recebeu o Estado entre as gravações de Desejo Proibido, que entra em reta final. Falou sobre sua carreira e sobre como costuma compor seus personagens, como o ex-padre Miguel, da delicada trama das 6.


É seu primeiro protagonista na Globo. Sentiu o peso do posto?


Não. Eu estava torcendo para ser protagonista da novela certa. Sou protagonista de uma novela redondinha, elogiada pela crítica- inclusive pelo Estadão. Ela tem humor, romance e polêmica na medida certa. Não queria ter feito outra, senão esta.


Você tem emendado um papel no outro. Como conduz a carreira, deixa a vida levar?


Não, não. Depois que fiz o Dinho em América, fui chamado para várias coisas aqui dentro (da Globo), mas não aceitei. Comecei na televisão fazendo novela com o Walter Avancini, a melhor referência. Apesar do furacão que é a minha vontade de trabalhar, acho que conduzi minha carreira com inteligência. Tenho uma visão menos comercial, talvez.


Essa visão não foi abalada quando fez o aquele sucesso todo com o Dinho?


Aí é que está. O Dinho foi minha primeira novela das oito. Eu já tinha feito vários papéis de época, e ficava pensando o que aconteceria quando fizesse um personagem mais contemporâneo. Deu tudo certo. Era também um personagem alegre, viril, romântico, com todos aqueles ingredientes que as mulheres sonham. Mas aquilo não mudou minha cabeça em nada.


Você é conhecido por mergulhar nos papéis, aprender a montar touros, luta de espada e se internar em mosteiros se for preciso. O que guarda dessas experiências?


Acho legal você se preparar antes, estudar o que pode, porque depois que a novela começa, você não tem tempo mais para nada na vida. É bom você se preparar, para não ficar no vazio de estudar os textos e só.


Como você disse, fez muitos papéis de época. É coincidência?


Acho que é. Mas eu sou filho de uma historiadora, vai ver foi ela que fez uma reza forte. Eu adoro, acho chiquérrimo. Eu tenho muita vontade de fazer uma coisa mais parecida comigo, alguém que chegue e diga ‘e aí, beleza?’


E se sente um galã?


Não, me sinto um ator. Não dá para você pensar numa carreira a longo prazo se achando galã. O Dinho era um personagem de humor, uma pessoa simples. As pessoas morriam de rir com ele, mas ele tinha virilidade. E foi visto como galã. Então, eu é que pergunto: o que é um galã? Será que é o cara que seduz? Não necessariamente o protagonista de um trabalho tem de ser ‘o galã’. Acho que esse termo está meio por fora.’


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