Segunda-feira, 21 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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IMPRENSA EM QUESTãO > IMPRENSA & MULHER

As esposas, na visão da mídia

Por Ligia Martins de Almeida em 02/12/2008 na edição 514

As revistas femininas estão devendo uma grande e séria matéria sobre o papel das esposas e maridos no mundo de hoje. Depois de toda a luta por direitos iguais, depois da lei ter admitido que a mulher pode, sim, ser a ‘cabeça do casal’, depois de tanta luta para fazer carreira e ser respeitada no mundo do trabalho, descobrimos que o lugar de honra da mulher continua sendo à beira do fogão ou do tanque. Isso, pelo menos, é o que se conclui da matéria ‘A nova moda entre solteiros do Rio e SP: contratar esposa de aluguel’, publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo no dia 24 de novembro.


Ao falar desse novo mercado de trabalho, mostrando a alegria do solteiro que chega em casa e encontra na geladeira um bolo que não pediu, ou dos maridos que vão prestar serviço na casa dos outros trocando lâmpadas ou arrumando vazamentos, ficamos nos perguntando se é apenas de um novo mercado de trabalho que faz uso errado das palavras.


Segundo o Aurélio, esposa é a mulher prometida em casamento, a noiva. Só que, quando as mulheres casam, hoje em dia pelo menos, os serviços domésticos não estão incluídos no sonho do ‘viveram felizes para sempre’, tão apregoado nos contos de fada. O mesmo, aliás, vale para os maridos, que com certeza não imaginam que parte de suas tarefas na sociedade matrimonial passa, obrigatoriamente, pela capacidade de trocar lâmpadas, levar o lixo para fora ou arrumar uma torneira que pinga.


Prestadores de serviço


Para cuidar da faxina, fazer almoço e manter a casa em ordem, existem profissionais remunerados, com direito ao registro em carteira, férias e 13º salário: são mensalistas, com associação de classes e tudo mais a que uma categoria profissional tem direito. Para trocar lâmpadas ou instalar aparelhos elétricos, existem os eletricistas, que costumam cobrar seus serviços por hora. A parte hidráulica fica por conta dos encanadores que, em geral, cobram por visita.


Transformar prestadores de serviço em ‘esposas e maridos’, recebendo por dia, é um desrespeito tanto com as esposas e maridos que casam querendo construir uma vida em comum, quanto com os profissionais que prestam serviços e querem respeito profissional. A mídia – e em especial as revistas femininas – tem a obrigação de discutir, com seus leitores, essa nova visão de casamento. Se casamento é apenas a união de dois prestadores de serviço, então para que casar?


Discutir casamento com seriedade


Ao falar de casamento, a última coisa que as revistas femininas mencionam é a divisão de tarefas do lar, talvez por ser uma parte menor e implícita. E, talvez por isso, pessoas que consideram o trabalho doméstico como um serviço menor inventam nomes diferentes para a velha e triste rotina da maioria das mulheres: segundo o IBGE de 2005, os homens dedicavam 9 horas semanais ao trabalho doméstico, enquanto as mulheres (que trabalhavam fora) ainda faziam um expediente doméstico de 31 horas semanais.


Em vez de assumir que estão trabalhando como diaristas (a faxineira tem uma situação inferior à da mensalista, pois não tem carteira assinada, férias ou 13º salário), preferem dizer que são ‘esposas de aluguel’, deixando claro, no entanto, que não farão ‘tudo’ que uma esposa faz. Ou seja, a parte que deveria ser prazerosa na relação de um casal também é considerada mais um dever.


Está mesmo na hora de as revistas femininas voltarem a discutir casamento com seriedade. E o papel que ‘esposas’ e ‘maridos’ desempenham nesta sociedade.

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Jornalista

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