Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

IMPRENSA EM QUESTãO > LINGUAGEM JORNALÍSTICA

As idéias-organizadoras do jornalismo político

Por Venício A. de Lima em 01/05/2007 na edição 431

A origem e a disseminação de determinadas catchwords – ou palavras-chave, ou idéias-organizadoras – é um dos objetos de pesquisa mais fascinantes para os interessados nos meandros da comunicação jornalística. São palavras/expressões que pretendem traduzir sinteticamente, de maneira simplificada, questões complexas, ambíguas e de interpretação múltipla e polêmica. Elas buscam reduzir um variado leque de significados a apenas um único ‘significado guarda-chuva’ facilmente assimilável. Uma espécie de rótulo.

Exaustivamente repetidas na mídia, essas palavras/expressões vão perdendo sua ambigüidade original pela associação continuada a apenas um conjunto de significados e acabam sendo incorporadas ao vocabulário cotidiano do cidadão comum.

Na crise política de 2005 houve largo uso de um conjunto dessas catchwords pelos partidos de oposição ao governo Lula e pela mídia: mensalão, valerioduto, silêncio dos intelectuais, conexão cubana, operação Paraguai, conexão Lisboa, república de Ribeirão Preto, dança da pizza, dentre outras.

Chegou para ficar

O que são exatamente essas idéias-organizadoras? De onde e como elas surgem? Qual o processo que leva à sua consolidação, não só na mídia, como no vocabulário do cidadão comum? Qual o papel que elas desempenham na construção da opinião pública?

Essas seriam algumas das questões a serem respondidas por um projeto de pesquisa sobre o tema. Aqui vão apenas umas poucas considerações sobre a presença de catchwords na atual cobertura política.

Creio que Gaye Tuchman, em seu clássico Making News (1978), foi quem primeiro tratou da questão. Apoiada em Goffman e Schutz, ela mostra como as matérias jornalísticas têm a capacidade de ‘frame’ (enquadrar) um determinado tema dentro de um conjunto de referências conhecidas e, portanto, situam o leitor/ouvinte/espectador num mapa cognitivo que faz sentido para ele.

Os ‘frames’ são idéias-organizadoras para a representação seletiva de aspectos da realidade – e para a saliência de uns em detrimento ou omissão de outros. Eles formam o quadro de referência básico – contexto e significado – na construção das notícias e indicam os caminhos que conduzirão a cobertura no desenvolvimento dos eventos. Consolidados, raramente se modificam.

No momento em que outra CPI promete manter viva a oposição política, surge uma nova catchword que certamente veio para ficar: ‘apagão aéreo’.

Uso generalizado

Já tínhamos no vocabulário midiático o apagão referido à energia elétrica. Esse, literalmente, significou a ausência de iluminação, isto é, uma escuridão geral ocorrida em vários estados brasileiros ainda durante o governo Fernando Henrique Cardoso. Agora, a CPI capitaneada pelos DEM é da ‘crise no setor aéreo’, que envolve, além dos óbvios interesses partidários, o governo, as empresas aéreas, as seguradoras nacionais e internacionais, a Infraero e, claro, os milhões de usuários dos serviços de transporte aéreo.

Faz alguma diferença nomear o problema ou a CPI como ‘apagão aéreo’ ou ‘crise no setor aéreo’? Aparentemente, sim. O ‘apagão’ traria mais conotações negativas de responsabilização do governo pela crise e evocaria a possível corrupção existente em empresas como a Infraero. Já ‘a crise no setor aéreo’ amplia para além do governo as razões que levaram à situação crítica o transporte aéreo no país.

Um aspecto interessante neste momento é observar o uso praticamente generalizado que a grande mídia já faz da expressão ‘apagão aéreo’. Até mesmo a cobertura da Agência Brasil e do Jornal da Câmara se refere ao ‘apagão aéreo’, e não à crise do setor aéreo. Mas há exceções.

Enquadramentos distintos

Veja o leitor as manchetes de abertura de dois telejornais de quarta-feira (25/4), dia em que o Supremo Tribunal Federal determinou a instalação da CPI na Câmara dos Deputados:

** ‘O Supremo autoriza a instalação da CPI na Câmara sobre a crise do setor aéreo e o Senado decide abrir outra’.

** ‘O Supremo Tribunal Federal é a mais alta instância de justiça no Brasil e impôs uma clara derrota ao governo. Obrigou a Câmara dos Deputados a instaurar uma CPI sobre o apagão aéreo que o governo fizera de tudo para evitar. O medo do governo não é tanto que a CPI chegue a algum resultado. É o circo político em torno dela, a distração do Congresso. O circo tornou-se inevitável em grande parte por culpa do próprio governo’.

Um observador desavisado poderia supor que se trata de manchetes de telejornais de diferentes emissoras de televisão. Mas a primeira manchete é do Jornal Nacional e a segunda do Jornal da Globo, ambos da Rede Globo de Televisão.

Além das manchetes, o tratamento das respectivas reportagens também teve enquadramento distinto: no JN, a expressão ‘CPI do setor aéreo’ foi repetida três vezes e no JG a expressão ‘CPI do apagão aéreo’, duas. E mais: no Bom Dia Brasil do dia seguinte (26/4) a matéria sobre o assunto usou a expressão ‘apagão aéreo’ e no Jornal Hoje (26), ‘CPI do setor aéreo’.

Oportunidade de estudo

Quais as razões para os diferentes enquadramentos da questão dentro de telejornais da mesma emissora?

O que parece claro é que a utilização – ou não – de determinadas catchwords representa uma escolha editorial e obedece ao tratamento da questão dentro de um determinado ‘frame’ que passa, então, a orientar a cobertura dos eventos subseqüentes.

A cobertura que a grande mídia fará da CPI da crise do setor aéreo – que deve ser instalada nesta semana na Câmara dos Deputados – oferece uma excelente oportunidade para se estudar a importância e o papel das idéias-organizadoras no jornalismo político brasileiro.

Todos os comentários

  1. Comentou em 02/05/2007 Sérgio Bártholo

    Professor Venício, catchword, palavras-chave ou idéias-organizadoras, no meu ponto de vista, são apelidos dados a determinados assuntos, muitas vezes complexos, que precisam ser explicados todas às vezes que forem citados. E, por serem apelidos, acabam servindo para ofuscar ou embaçar a visão do fato, a sua profundidade ou amplitude, o seu significado.. Acredito que o uso contínuo de catchword foi um dos erros da grande imprensa na cobertura de muitos escândalos. Pesquisas demonstraram que muita gente ouvia falar muito em “mensalão”, por exemplo, mas não sabia o que isso significava. Basta perguntar à maioria das pessoas sobre o que é mensalão, valerioduto, silêncio dos intelectuais, conexão cubana, operação Paraguai, conexão Lisboa, república de Ribeirão Preto, dança da pizza. Pouca gente sabe. Por isso, uma das funções do jornalismo é esclarecer. E relembrar fatos para poder contextualizar. Um leitor/telespectador/ouvinte tem direito de saber o nome e não só o apelido dos fatos.

  2. Comentou em 01/05/2007 Ivan Moraes

    ‘CPI da crise do setor aéreo – que deve ser instalada nesta semana na Câmara dos Deputados’: GRACAS A DEUS que temos tao competentes deputados assim! Economia, legislacao, transporte aereo! Brasilia esta cheinha de Einsteins, mas falando em pizza podre, como eh que ficou dividida a gasolina entre a direita e a esquerda?

  3. Comentou em 01/05/2007 Aloísio Morais Martins

    O problema, Venício, é que o Jornal da Globo é mais editorializado, dirigido a um público mais das classes A e B (pseudo formador de opinião), inclusive pelo horário em que é apresentado. É mais elaborado e crítico. É quando a Globo põe as suas manguinhas de fora de forma mais explícita nos ataques ao Governo, quando é de seu interesse, inclusive por intermédio de seus ‘analistas’ e/ou comentaristas. Tudo ao contrário do Jornal Nacional – às vezes editado no vapt vupt em cima dos acontecimentos -, quando a Globo fala para um público mais amplo e tem de ser mais sutil e, às vezes, até mais didática. Estes aspectos fazem a diferença de enquadramento.

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