Domingo, 13 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1058
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ENTRE ASPAS >

As liberdades seletivas

Por Luciano Martins Costa em 29/09/2009 na edição 557

A crise política em Honduras começa a deixar claras algumas diferenças entre os jornais brasileiros. O uso de expressões como ‘governo golpista’ ou ‘governo de facto‘ esclarece o que cada veículo considera como a normalidade democrática ou o desvio institucional. Mas o noticiário deixa muito a desejar no que se refere à necessária orientação do leitor no meio da enxurrada de acontecimentos e declarações.


Uma questão que foge às discussões gerais: se Manuel Zelaya é o presidente de direito, deposto por um ato de força, sua presença na embaixada brasileira em Tegucigalpa não seria um fato favorável à volta da normalidade?


Observando-se os três jornais brasileiros de circulação nacional, que tratam de assuntos gerais, nota-se maior predisposição do Globo em apoiar a posição do governo golpista – ou interino, conforme a tendência de quem vê.


Os títulos das reportagens, o vocabulário empregado e as escolhas dos declarantes mais destacados revelam que o jornal carioca só não aderiu explicitamente ao golpe por causa da crescente truculência do governo comandado nominalmente pelo deputado Roberto Micheletti. Além do mais, os fatos que se sucedem deixam claro, a cada dia, que quem tomou o poder em Honduras foram os militares, cumprindo ordens das mesmas forças políticas que historicamente dominam os países da região.


Os jornais já se referiram eventualmente a uma elite de empresários e famílias influentes que estariam por trás da deposição de Manuel Zelaya, mas ainda não deram nomes aos bois. Talvez porque alguns deles sejam os proprietários da imprensa local, e conhecidos de décadas dos donos da imprensa brasileira.


Na muda


A outra questão que deve estar causando estranheza no leitor atento é a ausência das costumeiras manifestações de indignação por parte da imprensa nacional e latino-americana contra a invasão e depredação da rádio Globo – que não tem nada a ver com a rede brasileira – e do canal 36 de Tegucigalpa.


As emissoras foram ocupadas e destruídas por militares uniformizados, em missão oficial, e tiradas do ar à força.


Passou-se o dia e tanto a Associação Nacional de Jornais como a Sociedade Interamericana de Imprensa, sempre alertas para denunciar os atentados contra a liberdade de informação, se mantinham estranhamente na muda.


***


O circo pega fogo


Há muito tempo se discute, na periferia do jornalismo esportivo, se a Fórmula 1 é esporte ou apenas negócio.


O recente escândalo, revelado pelo ex-piloto brasileiro Nélson Piquet e que teve como protagonista central seu filho Nelsinho, revela o que na verdade é um cenário de ‘mutretas’ e deslealdades que bem justificam o apelido de ‘circo’ que se dá ao mundo do automobilismo.


Se a Fórmula 1 é nada mais do que um circo de bilhões de dólares, não resta dúvida de que é a imprensa que lhe dá a sustentação moral, transformando em atividade esportiva o que não passa de competição tecnológica e financeira.


O fato de a escuderia Renault ter eliminado de seus quadros o chefe da equipe, Flavio Briatore, representa apenas um cuidado básico para não deixar o escândalo contaminar os interesses da fábrica de automóveis que financia o negócio de corridas. Puro business.


Missão complicada


Não há sinais de medidas concretas que venham a prevenir novas manipulações de resultados.


Quando se coloca diante da TV para acompanhar as voltas das máquinas pela pista, e depois, quando lê a descrição das disputas nos jornais, o leitor não tem idéia das artimanhas que colocam este ou aquele no pódio. Torce como se a habilidade de cada piloto fosse o fator decisivo para a vitória. Como se sabe agora, há muita ‘mutreta’ por trás da pista.


Se mal consegue explicar as escandalosas manipulações de resultados no campeonato nacional de futebol, com erros de arbitragem que, de tão toscos, não deveriam ser considerados erros, como esperar que a imprensa seja capaz de diferenciar o certo do errado na Fórmula 1?


Trata-se de missão complicada, mas bem que a imprensa poderia ajudar o leitor e telespectador a diferenciar os interesses comerciais da cobertura jornalística, quando roncam os motores.


O Observatório na TV vai debater a cobertura da Fórmula 1. Nesta terça-feira a partir das 23 horas, ao vivo pela TV Brasil, em rede nacional. Em São Paulo, pelo canal 4 da Net e canal 181 da TVA.

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