Sábado, 20 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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As manchetes e o artesanato do ofício

Por Rolf Kuntz em 10/03/2009 na edição 528

Mais uma vez a seção política abrigou uma notícia econômica sensacional: a escolha do ex-presidente Fernando Collor de Mello, com aplausos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para comandar a Comissão de Infraestrutura do Senado. A novidade saiu na primeira página de três dos maiores jornais do país na quinta-feira (5/3), com diferenças de enfoque e de impacto.

O Estado de S.Paulo ressaltou o jogo partidário: ‘Collor derrota PT no Senado e ministro de Lula comemora’. O Globo chamou a atenção para o poder indestrutível de velhos e contestados caciques, como Renan Calheiros. O título, ‘Collor e Mercadante no túnel do tempo’, destacou também a reação do líder do PT à ‘aliança espúria’ de dois aliados do governo, PMDB-PTB. Na Câmara dos Deputados, assinalou ainda a chamada do Globo, um terço do novo comando das comissões responde a ações judiciais ou a inquéritos.

A Folha de S.Paulo mirou diretamente o pau da barraca: ‘Collor presidirá comissão que vai fiscalizar o PAC’, o Programa de Aceleração do Crescimento, frequentemente descrito como a menina dos olhos de Lula. No pé da chamada, um lembrete: ‘Em 1992, ele [Collor] renunciou ao Palácio do Planalto após sofrer um processo e impeachment’.

Dois atos

Uma primeira página vigorosa ainda é um prazer, mesmo para leitores profissionais e veteranos. Isso depende, é claro, da escolha do assunto e da competência na produção do título e do texto, geralmente curto, para a capa do jornal. Título forçado e matéria turbinada não valem. Despertam dúvidas quanto à seriedade ou a competência de quem prepara o material.

Pode ser anacronismo, mas sente-se falta, às vezes, do velho culto à página mais nobre. Escrever para a primeirona era tarefa para redatores de elite, em geral competentes na gramática e no estilo. Além disso, a escolha da manchete dava trabalho. Idealmente, era preciso combinar a importância objetiva do assunto e seu atrativo para o chamado leitor comum, uma figura ainda hoje misteriosa. O declínio dessa arte parece ter acompanhado a perda de importância da venda em bancas e em pontos estratégicos, como paradas de ônibus.

Pouco resta do culto à primeira página e algumas de suas melhores celebrações têm aparecido no Globo. ‘Aborto faz Igreja excomungar médicos mas não estuprador’, manchete do sábado (7/3), foi um belo exemplo de como extrair o máximo efeito de uma notícia. Mais chocante que a excomunhão dos médicos, para a maior parte do público, deve ter sido o contraste da avaliação de dois atos. A linha fina, abaixo do título, reforçou o efeito: ‘Para arcebispo, crime é menos grave; Lula apoia equipe médica’.

Um prazer

A mesma arte é aplicável a assuntos econômicos. Debaixo do chapéu ‘Socorro a mutuários’, o Globo deu a manchete: ‘Dilma, Fazenda e governadores não se entendem sobre pacote’. Nenhum título apresentado por qualquer outro jornal foi tão forte, tão informativo e com tanto tempero político.

Um recurso bem usado nesses títulos é o contraste das informações, explorado também na manchete de terça-feira (3/3): ‘Lula ataca MST por mortes; Tarso diz que foi só `arrojo´’.

Os oradores gregos conheciam bem o truque. Os poetas clássicos, também, e Camões o dominava como poucos. O soneto iniciado pelo verso ‘Amor é fogo que arde sem se ver’ é todo construído com paradoxos – e é só um de uma batelada de exemplos, como ‘aquela triste e leda madrugada’ e tantos outros.

Ler jornal ainda pode ser um prazer, mas só quando o jornalista se deixa encantar pelo artesanato do seu ofício.

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