Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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IMPRENSA EM QUESTãO > MÍDIA & CRISE POLÍTICA

As mulheres da CPI

Por Ligia Martins de Almeida em 12/07/2005 na edição 337

A falta de sensibilidade da imprensa está cada vez maior. Basta acompanhar os depoimentos da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito dos Correios para comprovar isso. Durante horas, na tarde de quinta-feira, a secretária Fernanda Karina Sommaggio respondeu perguntas, foi paparicada por alguns parlamentares, quase agredida por outros, e raras vezes saiu de cena para ir ao banheiro. Em momento algum perdeu a calma ou, como seria normal em situação de grande pressão, embargou a voz. E até aproveitou uma das repostas para fazer um manifesto político, declarando-se petista e inconformada com o descaso do governo quanto à política de saúde e educação no país. Mas, nos jornais do dia seguinte, tudo que a imprensa falou sobre ela foram as declarações sobre o ex-chefe.

Perde-se, por pura falta de sensibilidade (ou será preconceito mesmo?), a chance de fazer uma bela matéria com essa mulher que está, com uma simples agenda de trabalho, mudando a face do país.

Falta sensibilidade da imprensa para mostrar o outro lado dessa CPI – o lado do qual faz parte a secretária que, acossada, se defende como pode, acusando o ex-chefe e levando, junto com ele, os políticos do mais alto escalão do poder. Discreta na roupa, na maquilagem e no comportamento, Fernanda Karina ficou horas sentada entre os dirigentes da CPI, respondendo perguntas e provocações com a tranqüilidade de dizer ‘isso eu não sei’, ou ‘isto eu sei’, enquanto o cansaço foi tomando conta dos parlamentares.

Falta de sensibilidade

Faltou sensibilidade à imprensa para acompanhar o depoimento e notar atitudes como a da deputada Denise Frossard ao oferecer água ou um sanduíche à moça lá na frente – num gesto de gentileza típico de uma boa anfitriã para, em seguida, mostrar seu lado juíza, argumentando que, nos seus muitos anos de magistrado, ‘já cheguei a condenar um réu a mil anos de cadeia, mas nunca o tratei com grosseria’.

Seria preciso uma jornalista – ou um jornalista – para contar à mídia o tratamento dado à mãe de família quando um deputado tenta colocar a testemunha sob suspeita, perguntando se alguma vez ela saiu para almoçar com o chefe. Depois, para não ser acusado de sexista, emendou, ‘a senhora e sua família’. Num tribunal de filme americano o advogado da defesa imediatamente pediria que a pergunta não constasse dos autos, porque estava induzindo os jurados a suspeitarem da conduta da testemunha. Mas isso é coisa de filme. No mundo real, fica registrada, para todo o país e ao vivo a suspeita sobre os motivos que levaram a moça a entregar a famosa agenda e a contribuir com a crise nacional.

Falta alguém da imprensa fazer um perfil da Karina, até como homenagem a todas as secretárias que detém os segredos dos seus chefes e se calam, porque é parte do seu trabalho. Falta alguém registrar o lado humano dessa moça que, de olhos arregalados, vai confirmando, pergunta após pergunta, as respostas dadas na polícia e na Comissão de Ética. Para a imprensa, o que importa é o que ela tem a dizer. Não quem é ela.

As perguntas sobre a história de vida foram feitas somente pelos políticos interessados em mostrar contradições, procurar interesses escusos na história da secretária que ganhava R$ 2 mil por mês e que, segundo um dos inquisidores petistas, ‘vendeu’ seus ideais por esse valor. Discreta e assustada, Karina perdeu a grande chance de perguntar se o choque era porque aceitou ir contra seus princípios por tão pouco dinheiro. Se deveria ter cobrado mais, como – segundo o que estamos descobrindo pela CPI – fazem alguns políticos. Será que o deputado estava reclamando por Karina desvalorizar o mercado da honra?

Ninguém registrou a resposta de Karina, que agiu como qualquer brasileiro sem imunidade parlamentar. Não denunciou porque ninguém a levaria a sério, porque precisava do emprego, porque o seguro saúde e a escola da filha são caros e porque o governo, que deveria garantir essas necessidades do povo, não faz nada. Palavras de uma eleitora do PT, a secretária Fernanda Karina, que encontrou, entre os deputados do PT, os seus maiores algozes.

Mulheres no bloco do grito

Enquanto a mídia televisiva faz a festa, levando a moça para programas de auditório ou de entrevistas, a imprensa escrita, mais preocupada com os homens envolvidos no processo, perde a oportunidade de fazer uma grande matéria humana sobre as mulheres, que estão tendo um papel decisivo nesta CPI. Seria oportuno – ou essencial, do ponto de vista do bom jornalismo – que a mídia impressa lembrasse os bons tempos em que o lado humano dos envolvidos na notícia era valorizado. Por isto, ou por mero folclore, valeria a pena uma matéria falando das mulheres: a juíza Frossard, tão valorizada por seus pares; a senadora Heloísa Helena, exigindo transparência por parte dos integrantes da CPI; a indignada senadora Ideli Salvatti, querendo providências contra as acusações do deputado Roberto Jefferson.

Delas, o que se vê na imprensa são as qualificações, aliás bem ofensivas, colocando as senadoras Heloísa e Salvatti no bloco do ‘grito’. A juíza é poupada. E a secretária Fernanda Karina é ignorada. Vamos ver o que vai acontecer quando as outras funcionárias do ‘publicitário’ Marcos Valério forem chamadas. Quando a imprensa perceber a importância das mulheres na CPI, quem sabe a sensibilidade de editores e pauteiros nos brinde com matérias que valorizem as mulheres e o seu papel ao desvendar a grande tragédia da corrupção nacional. Elas e suas agendas.

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