Segunda-feira, 16 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1054
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IMPRENSA EM QUESTãO >

As surpresas do PIB e dos juros

Por Rolf Kuntz em 16/06/2009 na edição 542

Foi uma semana e tanto para a imprensa econômica. Em apenas dois dias foi possível noticiar, em manchete, a recessão confirmada e um corte de juros maior que o esperado pelo mercado financeiro. As duas notícias foram apresentadas como surpresas. A recessão foi mais suave que a estimada pela maioria dos economistas: no primeiro trimestre, o Produto Interno Bruto (PIB) foi 0,8% menor que nos três meses finais do ano passado. A maioria das projeções era mais pessimista, com mediana em torno de 2%. Quanto ao corte de juros básicos –1 ponto porcentual – superou a aposta dominante entre os especialistas do ‘mercado’, 0,75 ponto. Mas houve uma diferença importante entre as duas surpresas.

A expectativa de uma recessão mais funda era disseminada entre executivos e economistas de vários setores e da universidade. Era baseada num grande volume de informações provenientes de fontes diversas – pesquisas do IBGE sobre consumo, produção industrial, emprego e salários, dados produzidos pela Confederação Nacional da Indústria, pesquisas da Fundação Getúlio Vargas e assim por diante. Uma certa persistência do consumo, associada aos ganhos de renda do ano passado, era conhecida, mas a maior parte dos dados indicava um quadro muito sombrio.

Durante a fase de expansão econômica, as importações de bens haviam crescido com o dobro da velocidade das exportações. Neste ano, o movimento se inverteu e o gasto com as compras no exterior caiu mais velozmente que a receita das vendas. Era mais um forte indício de recessão. A recessão, afinal, foi confirmada, mas o consumo privado e o custeio do governo foram amortecedores muito mais poderosos do que imaginavam os analistas e, provavelmente, os jornalistas econômicos. Os dados foram, de fato, surpreendentes para a maioria das pessoas.

Opiniões previsíveis

Mas os jornais, de modo geral, limitaram-se a registrar os dados e algumas avaliações otimistas (do tipo ‘aí vem a recuperação’), sem muito esforço para aprofundar as informações. Talvez produzissem algo interessante se tentassem explicar como os analistas haviam errado. Isso não foi feito no dia e logo em seguida estavam todos muito ocupados com a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom).

Aí veio a outra surpresa. Diante da notícia da recessão mais branda, muitos economistas baixaram de 1 ponto para 0,75 a previsão de corte da taxa Selic, o juro básico da economia. As apostas foram recolhidas principalmente no mercado financeiro. Mas haveria, mesmo, razão para surpresa?

Aqui aparece um velho costume. A imprensa tende a examinar as decisões do Copom com as lentes do ‘mercado’ e não com base no raciocínio provável dos economistas do Banco Central (BC). Em geral se aceita sem muita – ou sem nenhuma – discussão uma quase identificação entre os processos de avaliação dos economistas dos bancos e do mercado de capitais e as formas de análise do pessoal do BC. Essa suposição já foi desmentida mais de uma vez, mas a maior parte dos jornalistas não parece haver notado ou levado a sério esse fato.

A maior parte da cobertura, como de costume, foi muito parecida nos vários jornais. Todos acentuaram a ‘surpresa’ e, como grande novidade, a fixação de uma taxa de ‘1 dígito’, isto é, inferior a 10%. Mas qualquer redução superior a 0,25 ponto teria levado a Selic para baixo desse limite. Isso todos sabiam. O fato mais importante foi mesmo o corte de 1 ponto.

A novidade mais notável, no material publicado, foi a redução, na maioria dos jornais, do espaço dedicado às previsíveis opiniões de representantes de entidades empresariais e de sindicatos. A Folha de S.Paulo resumiu esse blablablá num texto de menos de meia coluna de extensão. Bom para os leitores, especialmente porque a televisão, logo depois de anunciada a decisão do Copom, não poupou o público dessa patacoada.

Além do dia-a-dia

Na mesma semana houve dois bons assuntos fora da rotina. O Tribunal de Contas da União mostrou o enorme número de convênios com ONGs, prefeituras e governos e estaduais, custeados com dinheiro federal e não fiscalizados pelo governo da União. Só em 2008 ficaram sem controle 38 mil desses convênios, com recursos acima de R$ 13 bilhões. As matérias mais detalhadas apareceram no Globo e na Folha de S.Paulo.

Outro grande assunto foi buraco nas contas públicas dos Estados Unidos. Globo e Folha deram maior atenção à notícia, mas só a Folha destacou a reação do mercado financeiro, com a cobrança de juros mais altos para a compra dos papéis do Tesouro americano. O problema tem enorme importância e não ocorre num só país. Os programas de capitalização de bancos, garantias de operações bancárias e estímulos fiscais anticrise estão custando montanhas de dinheiro e ampliando a dívida publica no mundo rico. Alguns economistas importantes começam a discutir como será a movimento seguinte – depois de superada a crise. Provavelmente haverá juros muito mais altos para a rolagem da dívida e isso terá reflexos no mercado financeiro internacional. Todos pagarão por isso, incluído o Brasil.

A imprensa tem dado pouca atenção a esse problema, apesar de sua importância objetiva. Se os editores de jornais quiserem ir além do noticiário imediato do dia-a-dia, terão de passar pelo exame de assuntos desse tipo.

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