Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1021
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IMPRENSA EM QUESTãO >

As crises cíclicas da imprensa

Por Luciano Martins Costa em 14/11/2013 na edição 772

Um tema pouco estudado nas análises sobre o jornalismo brasileiro é a capacidade das empresas da mídia tradicional de fabricar cuidadosamente crises artificiais para si próprias. O caso do Estado de S.Paulo, que contratou como diretor de redação o controverso jornalista Antônio Pimenta Neves, que terminou condenado pelo assassinado de sua ex-namorada, Sandra Gomide, é o exemplo paroxístico. Egresso da Gazeta Mercantil, ele carregava um histórico de decisões editoriais polêmicas e gestão desastrosa que desafiavam o senso comum sobre jornalismo de qualidade, quando se transferiu para o tradicional diário da família Mesquita.

O livro do jornalista Luiz Octávio de Lima sobre o crime, quase a biografia de uma vida insensata, permite constatar o estilo demolidor do executivo. A direção do Estado nunca promoveu uma reflexão interna sobre as razões da contratação de Pimenta, assim como se manifestou de maneira quase lacônica quando a reputação do jornal foi abalada pelo assassinato cometido por seu diretor.

É do estilo da imprensa se omitir quando a pauta é ela mesma. Talvez apenas o setor financeiro seja mais corporativista do que as empresas de comunicação.

Nas últimas semanas, a Folha de S.Paulo tem tomado medidas que fazem supor um desses surtos periódicos dos jornais. Ao renovar seu quadro de articulistas, deu prioridade a autores conhecidos mais pela capacidade de causar polêmica do que pela qualidade de suas reflexões. Além disso, vem produzindo uma cobertura no mínimo panfletária sobre a quadrilha que atuava no setor financeiro da Prefeitura de São Paulo há quase dez anos – ao ponto de constranger a ombudsman do jornal (ver aqui).

Já faz tempo que o diário paulista escolheu o estilo ruidoso como forma de se destacar em relação ao seu concorrente principal, mais discreto, e tudo indica que vai radicalizar.

Embora essa questão esteja relacionada entre as prováveis causas da decadência do jornalismo impresso no Brasil, associada a outros desafios, como o choque da tecnologia digital e as mudanças no perfil da sociedade, não há muitos estudos disponíveis sobre a gestão dos negócios da imprensa. Nos últimos anos, a pesquisa em comunicação derivou para questões de semiótica, estética e análises tópicas, com pouca produção de estudos sobre as decisões que definem o negócio jornal e suas relações com a sociedade.

Criatividade destrutiva

Indiscrições cometidas por profissional que ocupa cargo de alta responsabilidade no jornal Valor Econômico, fruto de uma parceria entre as Organizações Globo e a Folha de S. Paulo, sinalizam que o principal diário nacional de economia e negócios se encontra em rota de turbulência.

A diferença de estilo e prioridades começa na cúpula da organização, com desencontros entre o diretor-presidente e a diretora de redação. Além disso, há um crescente mal-estar entre os editores executivos, cuja origem pode estar num conflito de gerações ou no conceito de jornalismo que cada um professa.

O eixo do conflito interno é o custo da redação: executivos recém-chegados entendem que o Valor gasta demais com seus profissionais e fazem comparações com os salários pagos na Folha e no Globo. Pelo menos, esse era o teor de uma das conversas indiscretas mantidas recentemente por um desses protagonistas em ambiente social. No entanto, transparece por trás da crise outra questão: parte da direção, talvez repercutindo opinião de acionistas, gostaria de ver o jornal em atitude mais frontalmente crítica à política econômica do governo federal.

Fundado há doze anos, o fruto da associação da Folha com o grupo Globo demorou a se consolidar, a despeito do farto capital disponível. Segundo analistas que acompanharam o processo de construção da marca, os primeiros dirigentes do jornal cometeram um erro grave ao oferecer brindes para conquistar assinantes – como um produto com ambição de seduzir altos executivos e ganhar escala na faixa dos gerentes intermediários das empresas, a tática de presentear leitores com aparelhos eletrônicos se revelou um desastre de alto custo.

Por outro lado, a cobertura crítica do mercado de capitais e parcerias bem-sucedidas com entidades como o Instituto Brasileiro de Relações com Investidores foram escolhas que ajudaram a colocar o diário entre as preferências de jovens executivos. Além disso, a disposição de apoiar a pauta da sustentabilidade, sem temor de colocar em debate público as idiossincrasias do capitalismo, alavancou a reputação do jornal. A má condução dos principais concorrentes facilitou a consolidação do projeto, apesar dos erros iniciais.

A estranha vocação de alguns gestores para a criatividade destrutiva está formando uma nuvem escura logo adiante.

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