Sábado, 26 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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IMPRENSA EM QUESTãO > APURAÇÃO JORNALÍSTICA

As fontes e a liberdade de expressão

Por Mauro Malin em 14/03/2014 na edição 789

Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 13/3/2014

Uma pessoa com experiência em alguns dos mais importantes meios de comunicação do país propõe uma equação que conecte liberdade de expressão e maior responsabilidade na escolha de fontes jornalísticas. Vejamos por que ela tem razão.

A liberdade de expressão está fora de discussão. A menos que se aceitem restrições à construção de uma sociedade democrática no país. Mas essa liberdade deve ser exercida de modo socialmente responsável por pessoas, instituições e empresas que têm função pública, ainda que seu regime jurídico seja privado. Por exemplo, os meios de comunicação.

Hoje, as fontes das reportagens são, na imensa maioria dos casos, governamentais. Nas três esferas – federal, estadual e municipal. E nos três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário.

Quando a informação não vem de uma autoridade, ou dirigente de empresa, vem de um assessor de imprensa. As mais poderosas assessorias, que têm contratos com governos, reúnem equipes experimentadas e altamente qualificadas de jornalistas.

A promiscuidade entre interesses governamentais, ou empresariais, ou de grupos de pressão, de um lado, e meios de comunicação, de outro, assumiu no Brasil dimensão alarmante. Essa é talvez uma das razões pelas quais ninguém no país percebeu o grau de insatisfação popular que vinha crescendo e explodiu nas manifestações de rua de junho e julho de 2013.

É preciso saber direitinho de que lado do balcão está cada um dos atores: jornalistas e suas fontes. Os jornalistas, idealmente, estão a serviço da sociedade. São praticamente representantes públicos não eleitos. E precisam sentir o peso dessa responsabilidade em toda a sua atividade. Das grandes coberturas até a mais despretensiosa nota.

Nove mortes esquecidas

Eis um exemplo de como a liberdade de informação precisa ser honrada com uma escolha mais criteriosa de fontes.

Os interesses de setores das polícias civis de São Paulo e Minas Gerais foram inteiramente atendidos no noticiário sobre as mortes de nove pessoas após assalto a banco em Itamonte (MG), no final de fevereiro. A história oficial é que 80 policiais fizeram um cerco aos assaltantes e mataram nove deles. Um dia depois, constatou-se que um dos fuzilados pela polícia não era bandido, era um professor que havia sido feito refém pelos assaltantes. E nunca mais se falou no assunto.

*** 

Varig

A indenização relativa a perdas causadas à Varig pelo Plano Cruzado, há trinta anos, chega 21 anos após o início da tramitação do caso na Justiça. Uma nota tristíssima desse processo não está em nenhum dos principais jornais do país: o número de ex-funcionários da Varig cuja morte precoce pode ser em parte atribuída ao desgosto causado pelo fechamento da companhia aérea, em 2006.

Os votos de Joaquim Barbosa e Gilmar Mendes, contra a pretensão da Varig, perturbam um pouco a tese de que se trata de dois ministros do STF empenhados em atacar o governo petista. O repórter João Villaverde, do jornal O Estado de S. Paulo, disse ao Observatório da Imprensa que o voto de Barbosa foi o mais surpreendente e deixou intrigados os repórteres que cobrem o Supremo.

Segundo Villaverde, Dias Toffoli passará o resto do ano votando de modo a demonstrar sua independência. Levandowski não costuma votar com o governo em discussões que o façam ficar comovido com a sorte de vítimas das engrenagens estatais, como é o caso dos aposentados que sofreram com a maneira insana como foi conduzida a liquidação da  Varig.

O voto de Joaquim Barbosa não surpreendeu pelo teor, mas pela veemência. Barbosa, segundo Villaverde, é sempre discreto nos debates sobre questões de economia, tributação e semelhantes. Dessa vez, foi muito incisivo. Disse que todas as empresas e pessoas perderam com o congelamento de preços, e que, portanto, não caberia dar reparação apenas à Varig. Defensores do governo foram ouvidos dizendo que Luís Inácio Adams, advogado-geral da União, não faria melhor. 

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