Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

IMPRENSA EM QUESTãO > MÍDIA & CULTURA NA BAHIA

As vozes e versões silenciadas

Por Leandro Colling em 16/10/2007 na edição 455

A imprensa, em especial a baiana, tem realizado uma extensa cobertura sobre o que os jornalistas estão chamando de ‘crise na cultura’ da Bahia. O assunto também já foi alvo de reportagens publicadas em jornais do sudeste do país e no domingo, 14/10, circulou em vários periódicos em função de uma crônica do escritor João Ubaldo Ribeiro. Na semana anterior, em entrevistas, ele qualificou de ‘crime’ a falta de repasse de verbas para a Fundação Jorge Amado, que poderia ter seu acervo transferido para uma universidade estrangeira. Se, por um lado, o fato de a cultura ter ingressado na agenda da imprensa é positivo, falta oferecer à sociedade um leque mais amplo de explicações sobre a temática em questão.

Se a cobertura ou o espaço concedido para os artigos não aprofundar a discussão, muitos ficarão sem entender a complexidade da tal ‘crise’ e sequer poderão julgar os dirigentes da cultura e seus ‘cururus’, forma pejorativa pela qual o jornalista e ator Gideon Rosa chamou, em artigo publicado no jornal A Tarde, o ‘bando alçado à condição de especialistas em Cultura’ que, segundo ele, raramente freqüentam as ‘nossas platéias’. Pelo raciocínio, basta freqüentar as platéias para ganhar o título de especialista em cultura. Trata-se de apenas mais um exemplo de como determinadas pessoas explicaram de forma simplória e equivocada a tal ‘crise’ para a sociedade.

Para Rosa, a ‘crise’ também poderia ser explicada como uma estratégia de jogar os artistas do interior contra os da capital. O reflexo seria a criação de um programa semelhante ao Bolsa Família na área da cultura. O governo estadual chama a estratégia de descentralização dos recursos. O governo carlista destinava quase a totalidade do dinheiro para a capital. Outras formas utilizadas para explicar a ‘crise’ foram oferecidas pela diretora de teatro Aninha Franco. Inicialmente, ela disse que fechou o Teatro XVIII porque era contra a política cultural do governo. Logo depois, precisou mudar a sua explicação quando a imprensa ficou sabendo, via governo, que uma nota de 20 mil reais, de uma agropecuária, foi apresentada indevidamente em uma prestação de contas de verbas públicas.

Interior e capital

João Ubaldo Ribeiro, por sua vez, qualificou de ‘crime’ a falta de repasse de verbas para a Fundação Jorge Amado. Enquanto isso, o governo alega estar apenas cumprindo a lei que, segundo interpretação dos procuradores estaduais, impede a concessão de recursos públicos para o pagamento de todas as despesas de uma fundação. A pergunta é: quais das explicações foram mais enfatizadas pela imprensa? Estamos assistindo a uma disputa de poder e o jornalismo vem sendo usado praticamente apenas pelos opositores do governo. Enquanto isso, os beneficiados pela nova política cultural estão calados. Por que?

Os mais apressados culpariam os jornalistas. Embora seja visível o uso político que os meios de comunicação de propriedade da família de Antônio Carlos Magalhães estejam fazendo da situação, acredito que existem várias outras razões para tamanho silêncio. Uma delas pode estar relacionada com a cultura profissional dos nossos jornalistas dos cadernos de cultura que, durante anos e anos, cultivaram as mesmas fontes. Hoje, as fontes costumeiras secaram e outras precisam ser ouvidas. O que sabemos sobre o que está acontecendo no interior do estado na área da cultura? Os jornais possuem estrutura e vontade de cobrir o interior? O que dizem as centenas de pessoas que pagaram R$ 0,50 para ver um espetáculo no Teatro Castro Alves em uma manhã de domingo graças a um projeto do governo para democratizar o acesso à principal sala de espetáculos da capital? O que sabem os leitores dos jornais sobre estas questões? Pouco, quase nada.

‘Aos amigos, tudo, aos inimigos, nada’

A cobertura e o debate sobre a tal ‘crise na cultura’ precisam oferecer à sociedade uma variedade mais ampla de explicações para a problemática. Nos estudos acadêmicos sobre comunicação e política, os pesquisadores enfatizam que qualquer disputa de poder em torno de temas de interesse público passa, necessariamente, por duas instâncias. Primeiro, o político necessita que o seu assunto esteja incluído nas preocupações da sociedade e, por isso, o tema precisa estar na agenda da mídia. Mas apenas estar na agenda não basta. O político deve enfrentar uma segunda disputa e conseguir explicar o tema da maneira como ele deseja. Novamente, o jornalismo desempenha aqui um aspecto central, pois o modo como os jornalistas enquadram o tema em debate vai influenciar boa parte do público em geral e os interessados na questão em particular. É a partir deste enquadramento que as pessoas formarão as suas opiniões sobre o tema em discussão.

Por enquanto, o governo do Estado e os ‘ideólogos da Nova Cultura’ estão perdendo a segunda batalha. Corremos o risco de desperdiçar a oportunidade de realmente modificar a política cultural do Estado, pois aqueles que estavam acostumados a abocanhar quase a totalidade das verbas estão conseguindo impor o seu enquadramento para a questão. Assim, podemos voltar a ter uma política em que cultura se reduz a patrocinar shows no Pelourinho ou de que é aceitável selecionar atores para uma companhia de teatro financiada pelo poder público sem a realização de audições públicas, esta sim a política de ‘aos amigos tudo, aos inimigos nada’. A pergunta que fica é: a ‘crise na cultura’ existe mesmo neste governo ou existia nos governos anteriores e ninguém percebia ou queria perceber?

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Professor universitário e pesquisador do CULT (Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, da Facom/UFBA)

Todos os comentários

  1. Comentou em 25/10/2007 João Santos

    Esta ‘conversa com o sujeito’ professor Leandro Colling é fascinante por revelar como as diferenças e divergências são tratadas dentro do espaço das universidades públicas. Ao não concordar com o texto do professor, sou tratado com arrogância: ‘gostaria de saber em qual instituição você trabalha, para entender melhor o seu “lugar de fala”; minha capacidade de entendimento é questionada ‘todas as pedras do Pelourinho sabem’; e para mostrar toda a capacidade de argumentação do sr. Colling, por não conhecer o ‘paradigma da construção da realidade’, não mereço resposta. Infelizmente, falta um pouco de vivência para o sr Colling fora dos limites da torre de marfim do conhecimento para, talvez, compreender que certas condições para produzir e executar não se reproduzem por meio de teorias, paradigmas, seminários e encontros. Para finalizar, reafirmo tudo o que disse: a crise na cultura; a convocação dos confrades para comentar o texto; a função do texto como estratégia de defesa do modelo cultural; e a falência deste mesmo modelo por não indicar maneiras da produção cultural ser auto sustentável. E destaco que nenhuma destas colocações foram refutadas pelo sr. Leandro Colling. Pelo contrário, utilizando uma estratégia usual, as críticas não são discutidas e o autor (da crítica) é que passa a ser desqualificado, revelando a intolerância e a prpotência do sr. Colling.

  2. Comentou em 24/10/2007 João Santos

    3- É preciso clareza no texto e firmeza nas posições. A crise foi “inventada” ou “construída”? Mais uma vez os argumentos que utilizo para afirmar que existe sim uma crise na área cultural não são questionados, apenas questionam minha condição de “comunicólogo” para legitimar, ou não, minha opinião.4- As citadas pedras do Pelourinho também devem saber que a questão não é a presença de “pesquisadores do CULT contratados pelo governo”. Mas a defesa intransigente das reflexões do CULT como única política possível para a cultura na Bahia. Não é. Ainda sobre os comentários, qualquer pessoa pode comentar inclusive eu, que não concordo com o texto do sr. Leandro Colling, mas já se que se falou em “…falta de pluralidade…” o discurso dos comentaristas também demonstra esta mesma falta de pluralidade, sinalizando um único discurso (o do CULT) para a redenção da cultura na Bahia. As vozes dissonantes são classificadas como delinqüentes beneficiados pelo antigo regime. Sugiro que o sr. Leandro Colling aproveite o conselho da escritora Aninha Franco e leia o texto “o estado das coisas”, publicado no site http://www.nacoco.com.br .

  3. Comentou em 24/10/2007 João Santos

    3- É preciso clareza no texto e firmeza nas posições. A crise foi “inventada” ou “construída”? Mais uma vez os argumentos que utilizo para afirmar que existe sim uma crise na área cultural não são questionados, apenas questionam minha condição de “comunicólogo” para legitimar, ou não, minha opinião.4- As citadas pedras do Pelourinho também devem saber que a questão não é a presença de “pesquisadores do CULT contratados pelo governo”. Mas a defesa intransigente das reflexões do CULT como única política possível para a cultura na Bahia. Não é. Ainda sobre os comentários, qualquer pessoa pode comentar inclusive eu, que não concordo com o texto do sr. Leandro Colling, mas já se que se falou em “…falta de pluralidade…” o discurso dos comentaristas também demonstra esta mesma falta de pluralidade, sinalizando um único discurso (o do CULT) para a redenção da cultura na Bahia. As vozes dissonantes são classificadas como delinqüentes beneficiados pelo antigo regime. Sugiro que o sr. Leandro Colling aproveite o conselho da escritora Aninha Franco e leia o texto “o estado das coisas”, publicado no site http://www.nacoco.com.br .

  4. Comentou em 17/10/2007 Luiz Antonio Magalhães editor-adjunto OI

    O comentário que teve a autoria contestada foi removido até que o autor se identifique. Caso Márcio Meirelles seja de fato autor da mensagem, seu comentário será republicado

  5. Comentou em 11/03/2007 Antonio Carlos Chadalakian

    Prezado Sr.

    Escrevi um artigo para o Observatório da Imprensa em 2005, o qual segue logo após este pedido. Gostaria de pedir, encarecidamente, que V. Sa. retire o artigo do banco de dados e da internet, de maneira que o artigo não seja mais acessado pelos internautas.

    Aguardo um breve pronunciamento.

    Muito obrigado!

    =====================================
    Será, não. É!
    Antonio Carlos Chadalakian, São Paulo-SP – comunicólogo
    1/10/200511:06:27 PM

    É verdade que a ‘escrita chinesa’ publicada no jornal A Gazeta foi um engano. Mas, diante destas observações, há supersticiosos que, à boca miúda, já estão dizendo que a imagem continha uma mensagem subliminar aos leitores. Será?

    Prezado Sr. Sandro, não é ‘será’, mas sim, ‘é’! E também não se trata de superstição. Como bom jornalista que o senhor deve ser, imagino que seja de seu conhecimento que texto pressupõe intencionalidade, e não existem coincidências na linguística. Não neste nível. Quem elaborou esta frase com caracteres chineses o fez de propósito, mesmo que isto não tenha partido da redação. Grato pela atenção e desculpe-me pelo comentário incisivo.

  6. Comentou em 11/03/2007 Antonio Carlos Chadalakian

    Prezado Sr.

    Escrevi um artigo para o Observatório da Imprensa em 2005, o qual segue logo após este pedido. Gostaria de pedir, encarecidamente, que V. Sa. retire o artigo do banco de dados e da internet, de maneira que o artigo não seja mais acessado pelos internautas.

    Aguardo um breve pronunciamento.

    Muito obrigado!

    =====================================
    Será, não. É!
    Antonio Carlos Chadalakian, São Paulo-SP – comunicólogo
    1/10/200511:06:27 PM

    É verdade que a ‘escrita chinesa’ publicada no jornal A Gazeta foi um engano. Mas, diante destas observações, há supersticiosos que, à boca miúda, já estão dizendo que a imagem continha uma mensagem subliminar aos leitores. Será?

    Prezado Sr. Sandro, não é ‘será’, mas sim, ‘é’! E também não se trata de superstição. Como bom jornalista que o senhor deve ser, imagino que seja de seu conhecimento que texto pressupõe intencionalidade, e não existem coincidências na linguística. Não neste nível. Quem elaborou esta frase com caracteres chineses o fez de propósito, mesmo que isto não tenha partido da redação. Grato pela atenção e desculpe-me pelo comentário incisivo.

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