Domingo, 21 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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IMPRENSA EM QUESTãO > Fato e Espetáculo

Assassinatos em Suzano: limites e alcances do jornalismo e o vácuo de narrativas

Por Sávia Lorena Barreto Carvalho de Sousa em 19/03/2019 na edição 1029

Não falar o nome dos assassinos que deixaram oito mortos e tiraram a própria vida na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano, na Grande São Paulo, no último dia 13 de março ou deixar de reconstituir em notícias quais foram os passos dos criminosos para adquirir armas e adentrar na escola, por exemplo, são algumas das sugestões de condutas supostamente corretas que circularam nas redes sociais e em textos jornalísticos a respeito da cobertura do massacre na mídia tradicional, como jornais, TV e rádios. Muitas críticas feitas a alguns excessos cometidos pela imprensa ao noticiar o fato — como o jornalista da Band News que perseguiu a mãe de Guilherme Monteiro, um dos responsáveis pelo massacre em Suzano — são pertinentes, mas é preciso separar o que é espetacularização daquilo que é papel básico do jornalismo.

Como as eleições de 2018 nos mostraram, quando a TV não relata, o WhatsApp se contrapõe e divulga com detalhes nítidos — e, muitas vezes, distorcidos. A lógica é da física, mas pode ser emprestada para falar de humanidades: todo vácuo será ocupado. Se o jornalismo tradicional, tão atacado nos últimos meses em um contexto de ascensão do conservadorismo no mundo — que enxerga a mídia como inimiga número um — não usar sua credibilidade e expertise para contar os fatos a uma massa de leitores, ouvintes e telespectadores, o resultado não vai ser a falta de qualquer influência negativa na sociedade, consequência da pretendida ausência de informações circulando sobre o assunto.

O resultado será o contrário: fotos, vídeos e volume bruto de dados difíceis de rastrear a serem compartilhados nas mídias sociais por blogs obscuros e sem nenhum tipo de responsabilidade ao narrar o que aconteceu nessa violenta história. A opção de simplesmente ignorar um massacre dessa proporção equivale a enfiar a cabeça no chão tal qual um avestruz que se recusa a enxergar um poste a dois palmos do próprio olho. O poste seguirá existindo, quer o avestruz veja, quer não. Não contar o óbvio de que armas podem ser adquiridas ilegalmente, ou que rapazes aparentemente comuns podem encontrar em fóruns na internet uma estufa para adubar ódio, não terá o efeito de fazer desaparecer pessoas com distúrbios psicológicos, que junto a um contexto social profícuo podem virar assassinos em série.

O que pode funcionar de maneira mais eficaz é um jornalismo que use ferramentas responsáveis em seu ofício, tendo o cuidado de não glorificar os assassinos. O resultado pode ser o alerta de pais, professores e sociedade em geral, sobre questões importantes que circundam a tragédia em Suzano. O saber permite que se evite a repetição. E só se sabe daquilo que se fala. Silenciar é uma forma de falar — infelizmente não é a mais útil no caso, pois deixa espaço para um submundo de notícias falsas e sensacionalistas adentrarem por canais secundários — mas não menos poderosos — no impacto social a longo prazo.

Sendo assim, simplificar o jornalismo como uma equação de causa e efeito é dar mais um argumento àqueles que já demonizam a profissão e minimizam seu valor social. Afinal, se tudo que o jornalismo mostra tivesse o poder de automaticamente influenciar atitudes, a maioria dos problemas relacionados à violência ou hábitos nocivos, poderia ser revertida com programação jornalística intensamente voltada à combatê-los. Um exemplo disso são as campanhas do tipo “diga não às drogas”.

Mesmo necessárias, sabe-se que o poder de influência delas é relativamente baixo perante o contexto social e psicológico das pessoas sujeitas a provarem drogas e se viciarem. São úteis perante a outra opção, que é ignorar perigosamente o tema, mas são menos eficazes se não forem adotadas concomitantemente às políticas públicas que forneçam uma vida digna às pessoas para que o caminho de se narcotizar seja infinitamente menos atraente do que um trabalho digno, opções de lazer acessíveis e proteção do Estado aos mais vulneráveis.

Ou seja, discutir o trabalho do jornalismo em momentos de tragédia e dor é importante para não repetir os erros do passado ou cometer novas falhas que prejudiquem os envolvidos direta ou indiretamente e, mais ainda, a própria sociedade que consome as informações veiculadas pela mídia. Mas, além da análise sobre o ofício de informar com responsabilidade, é necessário ter atenção para não desviar o foco de temas que compõem a teia que motivou o ataque em Suzano, tais como a banalização da violência como meio de resolver conflitos no Brasil, os efeitos danosos do bullying, a masculinidade tóxica que leva jovens frustrados a canalizar ódio às minorias e ainda a flexibilização do porte de armas no país.

No livro “Reinvenção da Intimidade: Políticos do Sofrimento Cotidiano” (editora UBU), o psicanalista Cristian Dunker pontua o fato de que as tragédias humanas nunca são o fato em si. São resultados de outras tragédias que estavam em curso antes do que já ocorreu: a tragédia do empobrecimento das nossas relações, da corrupção cotidiana. Falhamos ao imbecilizar pessoas ensinando que a violência é maneira possível de se fazer ouvir. As mortes na Escola Estadual Raul Brasil são um símbolo da solidão mal administrada, do fracasso que é estar com o outro em sociedade.

Nesse espaço vazio, surge ressentimento, indiferença aos sentimentos alheios e devastação. A luta é para provar quem precisa menos do outro. O amor não é só uma experiência pessoal. É comunitária. É sobre aceitação, sobre inventar uma vida interessante sozinho, com resiliência perante frustrações. Mas também é coletivo, precisamos reconstituir nossos laços precários como sujeitos capazes de compartilhar sentimentos. E o jornalismo pode ser justamente uma forma de dar voz aos calados e iluminar cantos escuros, trazendo à tona assuntos delicados ao meio da sala e dando nome ao elefante branco sentado no meio do nosso sofá.

***

Sávia Lorena Barreto Carvalho de Sousa é jornalista, mestra em Comunicação e doutoranda em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Piauí. É estudante de Psicanálise na Escola Corpo Freudiano, Teresina.

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