Sexta-feira, 22 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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IMPRENSA EM QUESTãO > OS SENHORES DA ABRIL

Atire antes, pergunte depois

Por Gilson Caroni Filho em 16/05/2006 na edição 318

Há algum tempo, mais precisamente na edição de 19/3/2003, definimos Veja como ‘publicação que negligencia apuração factual para reiterar uma petição de alinhamento incondicional’ [ver ‘O sangue seco de Veja‘]. Indagávamos: um veículo que ‘editorializa reportagens, oculta fatos, distorce dados, sempre na defesa canina dos donos do poder podia ser chamado de produto jornalístico?’.

Passados pouco mais de três anos, a revista não só mantém as características ressaltadas como consegue aprofundá-las sem qualquer constrangimento. Veja não tem limites. Para os senhores da Abril, pirâmide invertida não é técnica de redação, mas posicionamento editorial. O vértice, lado mais fino, menos relevante, não é fim de texto. É o local destinado à ética, ao compromisso com a informação conseqüente.

Nesta semana, a revista [edição nº 1956, de 17/5/2006] publicou reportagem afirmando que o presidente Lula e outras lideranças petistas teriam contas bancárias em paraísos fiscais. Atribuindo a informação ao banqueiro Daniel Dantas, a reportagem, assinada por Márcio Aith, é um primor de paradoxos lógicos em parágrafos seguidos. Reforça a impressão de que a atual crise, com os préstimos de parcela expressiva da mídia, só acabará com a derrota ou o impeachment de Lula. E para isso todos os recursos são válidos. Até publicar denúncias sem o mínimo de apuração.

Mesmo admitindo não saber se é autêntica, a revista não hesita em publicar uma lista com supostos depósitos do presidente e de outros políticos petistas. Veja teima em ignorar fronteiras entre fatos e versões inconsistentes. O encadeamento de alguns trechos da matéria denota pouco apreço pela inteligência do leitor. O que importa é continuar tentando colonizar o imaginário de frações da classe média e municiar os aliados políticos de sempre. O multicolorido pasquim da direita sequer se preocupa com o acabamento do produto. O fundamental é colocar o bloco na rua.

Detalhe secundário

Há linhas que valem mais do que mil editoriais. São as que revelam os objetivos de um texto e o descompromisso com a informação divulgada. Não comportam normas prescritas em códigos de ética, seguem tão-somente a lógica da promoção de eventos. Algo do tipo ‘domingo é dia de botar fogo no circo, espetacularizar a crise e colher o frutos ao longo da semana’. Lógico, para tal empreitada contam com o apoio logístico de outros meios de comunicação, além da acolhida ‘bem-humorada’ de alguns jornalistas-blogueiros.

Vejamos o parágrafo abaixo. Nada poderia ser mais auto-explicativo. Observemos como os fins justificam os meios para o panfleto dos Civita.

‘Se pelo menos uma parte desse material for verdadeira, o governo Lula estará a caminho da desintegração. Isso, é claro, se o Brasil ainda mantiver as aspirações a se tornar um país sério. Se o material for fruto de falsificação, Dantas vai afundar-se ainda mais na confusão policial na qual se meteu desde que contratou a Kroll para montar dossiês de seus adversários dentro do governo. Em entrevista ao colunista Diogo Mainardi, o banqueiro dá uma idéia do que tem em mãos. Seu arsenal é maior’.

É assim, sem subterfúgios, que a revista de maior circulação nacional se jacta de produzir reportagens de qualidade. Pela lógica do baronato, se pelo menos uma parte dessa matéria for verdadeira, Veja terá ajudado o Brasil a se tornar um país sério. Caso contrário, a fonte é que terá de arcar com as conseqüências, porque a Abril não apura o que merece chamada de capa.

É o equivalente jornalístico da máxima policial ‘atire antes, pergunte depois’. A vítima, a verdade factual, é detalhe secundário quando se trata de ação entre amigos. Não está em discussão se os Civita e Dantas se merecem, mas se uma sociedade que almeja ser democrática pode ficar à mercê das falcatruas de ambos.

O móbil da matéria

Os trechos reproduzidos mostram como se dão os arranjos no andar de cima. Os critérios de publicação e os cálculos para divulgação de material fraudulento demonstram o lugar da revista na luta político-partidária. A publicação faz análise de conjuntura à luz de seu engajamento. Se fosse possível um entretitulo para o que se segue, certamente um ‘Às favas todos os escrúpulos’ não trairia o conteúdo.

‘Por todos os meios legais, Veja tentou confirmar a veracidade do material entregue por Manzano. Submetido a uma perícia contratada pela revista, o material apresentou inúmeras inconsistências, mas nenhuma suficientemente forte para eliminar completamente a possibilidade de os papéis conterem dados verídicos. Diante de tal indefinição, e tendo em vista que o nome de Dantas voltou a aparecer na CPI, Veja decidiu quebrar o acordo feito com o banqueiro do Opportunity e Manzano. O compromisso inicial era preservar o nome de ambos, caso se pudesse comprovar a veracidade das contas. Nada mais justo: a revelação seria um serviço prestado ao Brasil, uma vez que levaria grandes nomes da República a ter de explicar a origem do dinheiro depositado no exterior. Revelar agora que Dantas – e, por tabela, Manzano – está por trás de uma lista em que o presidente Lula aparece como dono de uma conta num paraíso fiscal viabilizará, acredita Veja, que investigações oficiais sejam abertas’.

Certamente não fugiu ao leitor o móbil da matéria, segundo palavras extraídas do próprio texto. O governo Lula estará a caminho da desintegração por um serviço prestado. Exagerará o presidente ao afirmar que não pode considerar isso jornalismo? Segundo ele ‘o jornalista que escreve uma matéria daquela poderia dizer que é bandido, mau-caráter, malfeitor, mentiroso’.

Matéria sem fundos

O diretor de redação, Eurípides Alcântara, distribuiu nota em resposta às críticas de Lula. Nela, afirma:

‘O presidente Lula não leu e não gostou do que não leu. Ainda assim reagiu intempestivamente à reportagem de Veja. Insultou jornalistas e a publicação, uma atitude imprópria para um presidente da República. É imperioso ler antes de criticar’.

Tem razão. Mas talvez fosse interessante o editor ouvir o que sua fonte, o banqueiro Daniel Dantas, afirmou ao jornal Folha de S. Paulo:

‘A minha sensação é de que havia, sim, corrupção no governo, mas os dados das contas não tinham nada a ver com a disputa societária [na Brasil Telecom]. Na verdade não tenho a menor idéia se existem essas contas ou não. Veja mente quando diz que tinha um compromisso comigo para preservar meu nome como fonte, caso essas contas fossem verdadeiras. Isso nunca existiu’.

Em resumo, o Opportunity afirma que a revista emitiu uma ‘matéria sem fundos’. Mais imperioso ainda, repetimos, seria averiguar antes de publicar. Concluindo, o jornalista da Abril é categórico:

Veja reafirma seu compromisso com os leitores e com o Brasil de prosseguir em sua tarefa de fiscalizar o poder em todas as suas esferas, a fim de impedir que ‘sofisticadas organizações criminosas’, para usar das palavras do procurador-geral da República, continuem a corroer a democracia brasileira’.

Quem vai apurar?

Interessante. Mas se a mídia fiscalizasse mídia, talvez outras sofisticadas organizações jornalísticas operassem com maior transparência. Há pouco tempo, Renato Rovai publicou na revista Fórum:

‘Os laços entre os Civita e a família tucano-pefelê são sanguíneos e os interesses comerciais comuns. O atual vice-presidente de Finanças do grupo Abril foi presidente da Caixa Econômica Federal durante o governo FHC. Emílio Carrazai ficou na CEF até 2002. De lá saiu para ajudar a Abril a enfrentar a campanha presidencial vindoura. Deixou a presidência de um banco público para dirigir o caixa de uma revista de banca.

‘Há outros irmãos de sangue tucano-pefelê na turma dos Civita. Claudia Costin, secretária de Cultura do governo Alckmin até maio deste ano, é a vice-presidente da Fundação Victor Civita. Costin foi também ministra de Administração Federal e Reforma do Estado nos tempos FHC. Lembram-se da reforma de Estado na era FHC?’

Se pelo menos parte do texto acima for verdadeiro, algo de muito podre estará a caminho da desintegração no imaginário da classe média. E não se tratará de um governo. Quem vai apurar?

******

Professor de Sociologia da Facha, Rio de Janeiro

Todos os comentários

  1. Comentou em 26/04/2010 LUCAS VERAS SILVA ARAUJO

    SENHOR ALBERTO DINES, SOLICITAMOS INVESTIGAÇÃO SÉRIA SOBRE O COMPORTAMENTO SUSPEITO DE CERCA DE 90 DA MÍDIA CEARENSE QUE SIMPLESMENTE ESTÁ FECHANDO OS OLHOS PARA A GREVE DOS SERVIDORES DO TJ/CE, PARALIZADOS HÁ MAIS SEIS DIAS. É PATENTE O BOICOTE DOS GRANDES VEÍCULOS DE COMUNICAÇÃO, TODOS OS DIAS VEMOS COBERTURA DE GREVE DE TODOS OS SETORES DA SOCIEDADE, DESDE COVEIROS ATÉ MULHERES DE MILITAR, MAS PARECE QUE O JUDICIÁRIO AINDA É INTOCÁVEL PARA GRANDE MÍDIA DO CEARÁ. SABE-SE QUE O PRESIDENTE DO TJ/CE MANTÉM 16 ASSESORES DE COMUNICAÇÃO, TODOS LIGADOS AOS GRANDES GRUPOS DE COMUNICAÇÃO DESSE ESTADO. ESSES DITOS JORNALISTAS SÃO RESPONSÁVEIS DE BARRAR TODA E QUALQUER NOTÍCIA SOBRE A GREVE DOS SERVIDORES DO TJ-CE, QUE LUTAM NÃO POR AUMENTO, MAS PARA QUE NÃO SEJAM REBAIXADOS EM SUAS CARREIRAS, EM UM PLANO DE CARGOS E CARREIRAS ELABORADO EXCLUSIVAMENTE PELA FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS, CUJO TEOR É LASTIMANTE,VERGONHOSO, INJUSTO, ILEGAL, INCONSTITUCIONAL E IMORAL, POSTO QUE RETIRA DIREITOS HISTÓRICOS DOS SERVIDORES DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA CEARÁ. PORÉM, MAIS LAMENTÁVEL AINDA É QUE A SOCIEDADE ESTÁ SENDO PREJUDICADA PELA GREVE, ,MAS NÃO ESTÁ TENDO O DIREITO AS INFORMAÇÕES SOBRE O SEU MOTIVO. É LAMENTÁVEL QUE NESSA TERRA ALENCARINA NÃO EXISTA UM BOM JORNALISMO, ÉTICO E COMPROMETIDO COM A VERDADE. O QUE PEDIMOS SOMENTE É QUE VEICULEM A VERDADE DOS FATOS. A DEMOCRACIA AGRADECE E O POVO MERECE

  2. Comentou em 22/05/2006 Carlos Eduaro Marcondes

    O grande problema de Veja é que ela, agora, está condenada a manter a linha editorial. Como alguém comentou abaixo, é claro o risco de redução do número de vendas e assinaturar. Ora, resta saber quem está financiando a revista? Não é bom para o país, Cisneros ditar as regras editoriais de uma publicação

  3. Comentou em 19/05/2006 Paulo Albero Canarim

    Engraçado como o Sr, Daniel Dantas depois que deixou de ser amigo de Veja tornou-se alguém tão sem credibilidade. Estou certo que sempre foi um homem probo. Os verdadeiros donos do Opportunity que participaram de todas as negociatas se chamam respectivamente. Alberto Dines e Gilson Caroni. A PF deveria investigá-los sob orientação dos diretores de Veja. Ora, tenham paciência, tucanos de alta e pouca plumagem. Acostumem-se a ler o que lhes desagrada.

  4. Comentou em 19/05/2006 Juliana Matos

    Realmente é de se pasmar. A revista Veja, não somente nas capitais como principalmente no interior brasileiro, atrás dos noticiários de tv, é um veiculo do qual boa parcela da população desentendida do assunto tem acesso. E como temos observado a revista tem revelado seu lado parcial.
    É de se lamentar que a classe média brasileira se ‘Veja’ sujeita a um veículo que discursa seus compromissos e se aperfeiçoa no construcionismo dos fatos.

  5. Comentou em 18/05/2006 Tatiana Ribeiro de Lima

    Será ue finalmente estamos perdendo a confortável posição de vítimas da alienação? Veja fez Collor, se calou diante de FHC e é panfletária contra Lula. Isso é tão evidente que só não enxerga quem só tem olhos para as promessas neoliberais. Não Veja é a direita em estado bruto. A TFP com logomarca e circulação semanal

  6. Comentou em 18/05/2006 Alberto Nunes Castro

    Perfeito. Só nos resta Carta Capital. As outras revistas estão comprometidas com interesses poderosos. Quem te viu, Veja no tempo de Mino Carta, não te reconhece em tempos de Mainardi. Quanto decadência sem elegância

  7. Comentou em 17/05/2006 Nelson Duarte Freire

    Não chegou a hora de investigar quem financia este tipo de publicação? Não se fala mais em CPI da mídia. De onde vem tanto medo? Que poder é esse que assusta e cala os demais.

  8. Comentou em 17/05/2006 Nelson Duarte Freire

    Não chegou a hora de investigar quem financia este tipo de publicação? Não se fala mais em CPI da mídia. De onde vem tanto medo? Que poder é esse que assusta e cala os demais.

  9. Comentou em 17/05/2006 Ana Costa Figueiredo

    Eu não acho a Veja uma revista sensacionalista apenas. Ela faz parte de um projeto de poder que pretende se reinstalar no país. Minha pergunta é uma só: ao divulgar dossiês falsos, desmoralizar autoridades em capas e desdenhar instituições não seria a Abril um foco desestabilizador do Estado de direito? A liberdade que a mídia quer é a de empresa e essa é compatível com regimes antidemocráticos. O oovo da serpente tem sede em São Paulo e sucursais nas prinipais cidades do Brasil. Cisneros-Civita devem ser combatidos. Semanalmente.

  10. Comentou em 17/05/2006 Maria Izabel Ladeira Silva Silva

    Caro Gilson, no início da década de 1960 o IPES (Instituto de Pesquis e Estudos Sociais) e o IBAD (Instituto Barsileiro de Ação Democrática , se não me falha a memória) colonizavam o imaginário da classe média com acusações sinistras contra o presidente João Goulart . E diziam defender o Brasil, a democracia, o Estado de Direito. Conclamavam a população para uma cruzada cívica a fim de salvar a país da perversão coministas. Taxavam o presidente de fraco, incapz e perigoso. Pois Bem. Será que estamos fadados a repetir essa história? Seria a VEJA ( ou quem esta por trás dela) o similar atual do IPES e do IBAD? Com os mesmos propósitos mesquinhos e interesses políticos espúrios ? A VEJA, se alto proclama defensora da economia de mercado e da democracia. O mesmo cinismo dos golpistas que nos legaram a tenebrosa e longa noite da militar ditadura! Um pouco de História não faz mal a ninguem, Pobre classe média! Não canso de repetir!

  11. Comentou em 17/05/2006 Maria Izabel Ladeira Silva Silva

    Caro Gilson, no início da década de 1960 o IPES (Instituto de Pesquis e Estudos Sociais) e o IBAD (Instituto Barsileiro de Ação Democrática , se não me falha a memória) colonizavam o imaginário da classe média com acusações sinistras contra o presidente João Goulart . E diziam defender o Brasil, a democracia, o Estado de Direito. Conclamavam a população para uma cruzada cívica a fim de salvar a país da perversão coministas. Taxavam o presidente de fraco, incapz e perigoso. Pois Bem. Será que estamos fadados a repetir essa história? Seria a VEJA ( ou quem esta por trás dela) o similar atual do IPES e do IBAD? Com os mesmos propósitos mesquinhos e interesses políticos espúrios ? A VEJA, se alto proclama defensora da economia de mercado e da democracia. O mesmo cinismo dos golpistas que nos legaram a tenebrosa e longa noite da militar ditadura! Um pouco de História não faz mal a ninguem, Pobre classe média! Não canso de repetir!

  12. Comentou em 17/05/2006 Fábio Paim

    Como sempre, Mestre, certeiro em suas colocações.
    Agora, a indisfarçável parcialidade da Veja não chega ser uma surpresa ou novidade, não é mesmo? O que, é claro, não nos exime da obrigação de prosseguir alertando os menos avisados.
    Um abraço!

  13. Comentou em 17/05/2006 Athos Maron

    Na mosca. Caroni, novamente abre nossos olhos para reportagens ‘ultra-tendenciosas’ que manipulam uma classe-média do: ‘ME ENGANA QUE EU GOSTO!’ Esse silencio todo, perante os semanais vexames que a Veja publica, sem nenhum resquício de ética me atordoa. Entro numa profissão onde o que mais importa é uma informação verossímel ou uma manipulação por débito automático??
    Parabéns Gilson.

  14. Comentou em 16/05/2006 Thaís Freitas

    A Veja dessa vez passou dos limites e deixou bem claro que é não há ética dentro de sua base jornalística.É triste ver uma revista que FOI tão importante estar neste nível.
    Quando Mainardi ‘escreve’ sabemos que boa coisa não virá.

  15. Comentou em 16/05/2006 Tereza de Jesus Mallory

    Veja perdeu ótima oportunidade para fazer matéria sobre ginástica para sedentários. Desta vez teve reposta à altura. Não somos tão burros como a revista imagina.

  16. Comentou em 16/05/2006 Tereza de Jesus Mallory

    Veja perdeu ótima oportunidade para fazer matéria sobre ginástica para sedentários. Desta vez teve reposta à altura. Não somos tão burros como a revista imagina.

  17. Comentou em 16/05/2006 Paulo César de Almeida Fontes

    Essa revista só reproduz o que interessa ao que há de mais retrógado na sociedade brasileira. Veja é panfleto. Nada existe de pior na imprensa brasileira. O triste é ser a de maior tiragem. Diz muito sobre a sociedade brasileira.

  18. Comentou em 16/05/2006 Sergio Gomes

    Veja merece o menosprezo da sociedade. Publicação fascista e mentirosa. Repunante

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