Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Auto-engano global

Por Eduardo Guimarães em 06/02/2007 na edição 419

O ‘auto-engano’ que flagela o homem já foi catalogado pelo economista conservador uspeano Eduardo Gianetti da Fonseca (Companhia das Letras, 1997). Veja o que diz a tese dele sobre um artifício que criamos para mitigar as dores em que o ato de viver importa:

‘Mentimos para nós o tempo todo: adiantamos o despertador para não perder a hora, acreditamos nas juras da pessoa amada, só levamos realmente a sério os argumentos que sustentam nossas crenças. Além disso, temos a nosso próprio respeito uma opinião que quase nunca coincide com a extensão de nossos defeitos e qualidades. Sem o auto-engano, a vida seria excessivamente dolorosa e desprovida de encanto.’

E assim é. O ser humano sofre o assédio irrefreável de uma tendência meio que irracional de negar as ameaças que surgem em seu caminho. É por esse prisma que se deve olhar as discussões que vêm sendo travadas em torno do tema aquecimento global. Apesar de aterradores, os resultados do estudo do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática), que projeta um cenário de calamidade para o meio ambiente até 2100, serão pouco eficazes em impedir a ação predatória do homem sobre o planeta.

Fórmulas de convivência

Um ponto não está sendo devidamente sopesado nessas discussões que começam ser travadas sobre o assunto, discussões que não sobreviverão à passagem do tempo: custaria muito dinheiro combater decididamente essa emissão de poluentes que exacerba o efeito estufa da Terra, uma fortuna incalculável que pouquíssimos governos envolvidos nessas discussões terão condições de cobrar do reduzido contingente de beneficiários exclusivos dessa conseqüência do capitalismo predatório que se abateu sobre a humanidade.

Independentemente de não se desistir das tentativas de alertar a humanidade e, em especial, os poucos seres humanos que comandam nossas vidas do fato de que estão destruindo o futuro (o que, tenham certeza, pouco lhes importa), seria bom que os estudiosos e a mídia não descuidassem de propor fórmulas de convivência com o desastre ambiental que, em alguma medida, virá, queiramos acreditar nele ou não.

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Comerciante, São Paulo, SP

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